AMANDA PEROBELLI | ESTADAO CONTEUDO
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Desafio de scale-ups agora é crescer apesar da crise

Número de empresas de alto impacto, aquelas que crescem mais de 20% por três anos consecutivos, deve diminuir no País em breve

Vivian Codogno, O Estado de S. Paulo

28 de junho de 2017 | 06h00

Desconhecidas por muitos, mas protagonistas de um seleto grupo de 1% das empresas em território brasileiro, as scale-ups, ou empresas de alto impacto, já foram uma aposta para tirar o País da retração econômica. O fato é que, ao contrário do que se imaginava, a crise deixou ainda mais tímido o ecossistema dos empreendimentos que sustentam um crescimento acima de 20% ao ano por três anos consecutivos ou mais.

A perspectiva de estudiosos deste mercado é que neste ano, quando será divulgado o próximo estudo sobre empresas de crescimento exponencial no Brasil pelo IBGE, o número de 35 mil scale-ups levantado em 2015, data da pesquisa mais recente, caia pela metade como reflexo da crise. À época, elas foram responsáveis pela criação de 3,3 milhões de novos empregos e por injetar R$ 250 bilhões ao PIB.

“O estoque de empresas de alto crescimento de um país está diretamente relacionado à direção para qual anda a economia”, avalia o diretor-geral da Endeavor, Juliano Seabra. O especialista pondera que, nesses casos, os solavancos afetam empresas que têm seu crescimento pautado apenas pelo cenário desfavorável. “Há empresas de alto crescimento dependentes do vento a favor, ou contra. Mas a scale-up genuína está nem aí para a crise”, pondera Seabra.

Um mapeamento realizado pela organização em busca de traçar um perfil do empreendedor à frente de uma scale-up mostra que liderar uma empresa de crescimento escalonado demanda, além do pensamento revolucionário sobre o mercado de atuação, repertório técnico e experiência. Enquanto a média de idade de empreendedores em geral é de 45 anos, entre as scale-ups esse índice sobe para 47 anos. Na outra ponta, a média de tempo de vida de uma scale-up brasileira é de 14 anos e a maioria delas (57,33%) tem mais de uma década de vida.

Para Fernando Wosniak, CEO da empresa de processamento e emissão de documentos em nuvem Direct.One, a experiência foi justamente o fator determinante para sustentar crescimento entre 75% e 80% desde 2012, com a projeção de dobrar de tamanho em 2017.

Quando ainda era adolescente, o empresário viu o negócio da família, um a gráfica que funcionava há 20 anos, falir e desde então empreende em tecnologia. Hoje, a Direct.One tem 50 funcionários, cinco sócios e um aporte de R$ 5 milhões de um fundo de venture capital.

“Queremos fazer a emissão de documentos ser mil vezes mais barata”, diz Wosniak. “Se hoje processamos um milhão por hora, queremos chegar num futuro próximo a cem milhões. Sem isso, eu fico parado no tempo”, completa.

A percepção da crise também é relativa para a empresa de Wosniak, já que desde que fundou seu primeiro negócio, em 2000, ele já viveu várias oscilações econômicas. “Daqui a dez anos as pessoas vão usar mais internet ou menos? Mais celular ou menos? Estarão mais digitalizadas ou menos? O empreendedorismo nunca deve visar o imediato”, pontua.

O pensamento disruptivo também determinou a escalada do crescimento da curitibana TecVerde, focada na construção civil pela técnica de Wood Frame, em que 80% das casas e apartamentos são construídos em fábrica e depois montados.

Além de administrar o estranhamento inicial que a técnica pode causar, Caio Bonatto, CEO da Tecverde, decidiu ‘pivotar’ o negócio nos primeiros anos. Em vez de vender para o público de alta renda como fazia no início da empresa, em 2009, o trabalho passou a ser direcionado ao cliente que recebe até dez salários mínimos. À época, o programa de moradia Minha Casa, Minha Vida foi o catalisador da escalada e, com isso, o empresário obteve R$ 20 milhões em investimento.

“Quando veio a crise, estávamos posicionados para continuar em um mercado resiliente”, comenta Bonatto, que calcula crescer 60% até o fim de 2017. “A sustentabilidade não é diferencial. Reduzimos em 85% o resíduo de uma obra e 80% das emissões de CO2. Isso tem a ver com produtividade”, crava.

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