Alex Ribeiro/Estadão
Alex Ribeiro/Estadão

Delivery de lixo cresce com cliente atento ao descarte de resíduos

Negócios no Rio e no interior de São Paulo cobram para coletar resíduo orgânico na casa do cliente; legislação paulistana, porém, não permite retirada sem caminhão compactador

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2020 | 06h00

Na lacuna deixada pelo poder público no tratamento de material orgânico nas cidades, surgem pequenos negócios que por meio de uma assinatura mensal coletam o lixo na residência dos clientes, fazem a compostagem e devolvem o resíduo em forma de adubo e sementes. Com isso, os empreendimentos apostam em engajar os clientes para diminuir a poluição do solo, da água e do ar.

A dinâmica funciona como um delivery às avessas: o cliente paga uma assinatura mensal e recebe um coletor (um balde com tampa) para armazenar o lixo orgânico, entre cascas e restos de frutas, verduras e legumes, borra de café, guardanapo, folhas e sementes, por exemplo.

De acordo com o plano escolhido - coleta semanal, quinzenal ou mensal -, um funcionário da empresa vai de bicicleta (sem impacto para o ambiente) até a residência, recolhe o lixo gerado no período e o leva para uma central de compostagem.

Referência no mercado, a fluminense Ciclo Orgânico aposta no método desde 2015 e hoje tem uma base de 1.400 clientes pessoas físicas e 100 estabelecimentos, como escolas, restaurantes e escritórios. Até o início do ano passado, a compostagem era realizada dentro da capital de forma manual. Com o crescimento do serviço, a empresa expandiu para a região metropolitana do Rio e acrescentou o uso de caminhão e maquinário.

“Agora nós usamos o triciclo para levar os resíduos até o ponto de transbordo (dentro da capital) e, duas vezes por semana, o caminhão os recolhe e leva para Duque de Caxias", explica Lucas Chiabi, idealizador do negócio.

O serviço atende 21 bairros do Rio de Janeiro, espalhados entre zona sul, zona oeste e centro, ao custo de R$ 35 a R$ 99 por mês, a depender da periodicidade da coleta e do tamanho do balde. Para fechar o ciclo do lixo, cada cliente recebe de volta uma parte do adubo produzido na compostagem e um pacote de sementes.

Em cinco anos de funcionamento, os 15 funcionários - entre ciclistas e administradores - já tiraram das ruas mais de 1.000 toneladas de resíduos e o transformaram em 600 toneladas de adubo. Segundo dados mais recentes da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), o Brasil gerou 79 milhões de toneladas de resíduos em 2018 e metade deles pode ser considerada lixo orgânico.

Em Botucatu, no Estado de São Paulo, três sócios se inspiraram na iniciativa fluminense para criar a Ciclo Limpo. Há quatro anos, o negócio funciona nos mesmos moldes da Ciclo Orgânico, com planos que variam entre R$ 35 e R$ 50 reais por mês.

“O lixo orgânico é o que mais temos em abundância e é onde os municípios estão atuando menos. O nosso desafio é a conscientização. No Brasil, as pessoas acham que é só colocar (o lixo) para fora, a mágica se faz e ele desaparece”, conta o sócio Julio Pinhel.

Para engajar o cliente e inseri-lo no ciclo da compostagem, a empresa envia mensalmente um relatório com informações sobre o que foi feito com o resíduo recolhido, a quantidade de adubo produzido e os efeitos para o planeta.

“O nosso negócio não é do tipo que a pessoa contrata imediatamente, ela precisa de um tempo porque acha que não é uma necessidade. Sabemos que não é toda cidade que vai aderir e nem todo mundo vai poder pagar, mas uma parcela considerável da sociedade tem essa opção”, destaca. 

Outras iniciativas, como a Re-ciclo, em Porto Alegre (com mensalidades a partir de R$ 60), e a Brotei, em Florianópolis (a partir de R$ 45), também oferecem o serviço.

Legislação emperra expansão de negócios

​Na capital paulista, a oferta ainda é incipiente. Segundo Pinhel, a Ciclo Limpo recebe pedidos para atuar em São Paulo, mesmo estando a mais de 230 km. De acordo com a Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (Amlurb), por dia a capital paulista descarta 12 mil toneladas de resíduo domiciliar (entre orgânicos e recicláveis).

A carência de empresas atuantes nesse setor pode ser explicada pela legislação paulistana, explica Fernando Beltrame, presidente da Eccaplan, que há dez anos atua com consultoria de sustentabilidade. “A Prefeitura considera o resíduo orgânico perigoso e exige que a empresa tenha um caminhão de lixo compactador para o transporte. Em outros lugares do Brasil, é possível transportar de bicicleta ou com caminhão fechado. Para a compostagem funcionar, não pode dificultar o transporte.”

Além de oferecer a gestão de resíduos para grandes empresas e eventos, pela campanha Sou Resíduo Zero, a Eccaplan começou em novembro um projeto piloto para realizar a compostagem de resíduos orgânicos de moradores de Pinheiros, na zona oeste paulistana. Por enquanto, os interessados pagam cerca de R$ 40 mensais e têm de levar o lixo até a estação de coleta, no mesmo bairro.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo, por meio da Amlurb, informou que a lei nº 13.478/2002 veda “a execução, pelos munícipes-usuários, da coleta regular de resíduos de qualquer natureza excetuadas as hipóteses de autorização ou permissão para a prestação de tais serviços e outras expressamente previstas na regulamentação”.

 

Tudo o que sabemos sobre:
lixopoluição

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.