JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

De gays a idosos, negócios de turismo focam em nichos sociais

Startups de viagens que nasceram a partir da ‘dor’ de seus fundadores crescem ao restringir público consumidor, como mulheres e negros

Milena Teixeira, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2019 | 17h29

Especial para o Estado

A designer Jussara Botelho enfrentou pelo menos três episódios de assédio sexual em viagens. O empresário Carlos Humberto teve que lidar com racismo em hotéis e na sua própria casa. Já a turismóloga Silmara Leite percebeu que os idosos não ficavam à vontade em intercâmbios para estudar idiomas. Com base em situações como essas, os três resolveram criar startups de turismo para públicos definidos, para atender as necessidades de quem compartilha da mesma dor que eles, como mulheres, negros e idosos. É o caso de SisterWave, Diaspora.Black e Vivência.

No caso da SisterWave, fundada em dezembro de 2018, a plataforma reúne anfitriãs que disponibilizam quartos ou casas inteiras para viajantes mulheres. Foi criada por Jussara Botelho – ao lado dos sócios Frederico Dib e Rebecca Cirino – depois que ela percebeu que outras mulheres também tinham medo de viajar sozinhas.

A plataforma atua em todo o Brasil e, em um ano de atuação, conta com 249 anfitriãs em 89 cidades brasileiras. A expectativa é chegar ao total de 200 municípios no próximo ano, ainda sem planos internacionais.

“É triste ver o tanto de mulher que se priva de viajar por causa dessas questões de segurança. A gente criou a SisterWave para diminuir esses obstáculos”, explica Jussara, que em julho conseguiu uma vaga entre as 10 startups da quarta turma do programa de aceleração da Estação Hack, iniciativa do Facebook e da Artemisia.

Também foi de uma dor que Carlos Humberto ajudou a fundar, em 2017, a Diáspora.Black, plataforma voltada para a população negra. Ao lado dos sócios Antonio Luz e André Ribeiro, Carlos criou a startup para oferecer dois tipos de serviço: acomodações compartilhadas e experiências turísticas com base na cultura negra.

“Eu passava por situações de racismo quando viajava a trabalho e até em casa, quando recebi pessoas com esse serviço. Teve um momento em que eu entendi, como negro e consumidor, que não poderia usar um produto que me discriminava.” Hoje, a Diáspora.Black tem 4 mil cadastros (entre anfitriões e usuários) em 135 cidades de 45 países.

De acordo com a consultora de inovação e tecnologia do Sebrae Roberta Sodré, problemas próprios ou de outras pessoas estimulam novos negócios. “Ele nasce para solucionar um problema. Primeiro, a pessoa vai sentir a dor, depois vai saber se a dor afeta mais pessoas. Aí vai buscar uma solução.”

No caso de Silmara Leite, a inspiração para a Vivência, startup de viagens e experiências para pessoas acima dos 50 anos, veio de uma observação durante uma temporada para estudar inglês na Inglaterra. “Eu estava em um intercâmbio e percebi que um senhor estava deslocado porque o mandaram para uma república estudantil. Eu me incomodei com aquilo.”

A Vivência foi fundada há seis meses. Até agora, a startup só tem atuação em São Paulo, fazendo a curadoria de viagens e passeios dentro do Estado, com planos de ampliação. “Ano que vem estamos planejando uma viagem para o Chile. Tenho clientes de até 74 anos.”

Público LGBT

Além de startups que oferecem serviços para negros, mulheres e idosos, há ainda aquelas que nasceram ou mesmo se adaptaram para atender a população LGBT. É o caso da Viaje Entre Iguais, fundada em 2017 como um braço da agência de viagens MHTour. A plataforma funciona com a possibilidade de escolha de hotéis e passeios, em diversos países, sob a ótica da comunidade gay. Com a curadoria da empresa, evita espaços e hospedagens avaliados como preconceituosos.

O empresário Marcelo Michieletto explica que a Viaje Entre Iguais nasceu após uma viagem sua aos Estados Unidos. “Eu vi lá fora que existia um trabalho mais específico para a população LGBT. Primeiro, tentei aplicar isso na MHTour e só depois a gente partiu para a Viaje.” De acordo com o empresário, metade da receita da MHTour hoje vem do novo braço da empresa. “No primeiro ano não deu muito lucro, mas hoje dá.”

Para a consultora do Sebrae Roberta Sodré, a probabilidade de lucro das empresas por nicho é grande, já que atendem comunidades específicas. Segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT), a cada 10 turistas no mundo, um é LGBT, grupo que responde por 15% da movimentação financeira turística mundial. No caso da comunidade negra, o Brasil é o segundo país do mundo em população afrodescendente, sendo que aqui eles somam 54% das pessoas, diz o IBGE. 

Além do faturamento das próprias startups, os usuários que hospedam viajantes em suas casas também conseguem lucrar. Cadastrada como anfitriã na SisterWave, a engenheira agrônoma Helena Felício conseguiu faturar mais de R$ 1.200 com duas hóspedes – são R$ 120 cada diária. “Eu gosto de viajar e quis disponibilizar um quarto aqui de casa, mas tinha medo de homens. Então eu passei a usar essa ferramenta.”

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