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Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Da arepa ao kebab, refugiados se apoiam em tradições para empreender no Brasil

Dia Mundial do Refugiado é comemorado neste domingo, 20; conheça a história de pessoas que tentam recomeçar a vida no Brasil com a cultura carregada em suas bagagens

Daniel Reis, Especial para o Estadão

19 de junho de 2021 | 14h00

Até o fim do ano passado, havia 82,4 milhões de pessoas no mundo forçadas a se deslocar de seus locais de origem, segundo a Agência da ONU para Refugiados (Acnur). Em suas bagagens, elas carregam experiências traumáticas, como guerras, fome e perseguições políticas, mas também trazem tradições culturais. 

No Brasil, refugiados têm feito há alguns anos de suas culturas a base para desenvolver o próprio negócio e recomeçar a vida. Para comemorar o Dia Mundial do Refugiado, neste domingo, 20, o Estadão foi atrás de histórias de empreendedorismo e resistência de diferentes nacionalidades. Os negócios citados fazem parte da plataforma Refugiados Empreendedores, iniciativa criada pela Acnur e pelo Pacto Global, lançada em fevereiro para dar maior visibilidade aos negócios de refugiados.

É o caso da síria Joanna Ibrahim, de 33 anos, forçada a deixar o seu país por conta da Guerra Civil que já dura mais de dez anos. “Entre 2012 e 2014, eu não tive nenhum dia de paz, nenhum dia seguro. Vivi dias de pesadelo. Entrei em depressão, porque via que a guerra não ia acabar”, conta. Diante da falta de perspectiva, Joanna resolveu deixar a Síria. “A minha vida tinha pausado por cinco anos e eu queria viver.”

Joanna desembarcou no Brasil em 2015 e desde então começou a planejar um empreendimento ligado à gastronomia. Em 2016, desenvolveu o projeto Bab Sharki, um e-commerce que pretendia conectar refugiados que vendiam ingredientes dos seus países de origem aos clientes.

A ideia chegou a concorrer no prêmio de empreendedorismo Hult Prize. Dentre as 50 mil startups do mundo que participaram, a Bab Sharki ficou entre as 300 semifinalistas. A ideia do e-commerce não foi para a frente, mas deu origem ao Open Taste, restaurante com sabores de diferentes partes do mundo, que contam as histórias de cozinheiros e funcionários migrantes e refugiados.

Quando criado, o Open Taste funcionava com uma dinâmica peculiar. Joanna recebia os chefs em uma cozinha compartilhada. Ela cedia o espaço e a divulgação, o cozinheiro os ingredientes. No entanto, a síria começou a perceber que as pessoas não possuíam dinheiro para comprar os ingredientes. 

Por isso, reestruturou o modelo de negócio e passou a contratar seis cozinheiros, um por dia. Dessa forma, o restaurante possuía um cardápio rotativo, variando os pratos de acordo com a origem de quem está à frente das panelas.

Diante da perda de receita com a pandemia, novamente o negócio foi reestruturado. Por um período, o restaurante funcionou apenas por meio do delivery. Alguns chefs viraram fornecedores e, atualmente, o restaurante conta com apenas um chef fixo.

No início de maio, o Open Taste reabriu as portas em seu novo espaço físico, localizado no bairro Pinheiros, em São Paulo. A expectativa é que o negócio cresça. “Nós estamos nos adaptando a esse novo mercado”, garante Joanna, que pretende conquistar novos clientes e gerar renda para mais refugiados.

Falta de emprego formal empurra ao empreendedorismo

Segundo pesquisa realizada pelo Acnur e pela Universidade de Brasília (UNB) com foco nos migrantes e refugiados venezuelanos, ao criar seu próprio negócio refugiados enfrentam barreiras como a desinformação sobre o microempreendedor individual (MEI) e o acesso a crédito bancário, além da falta de capital e a dificuldade imposta pelo idioma. Já entre os motivos que levam refugiados a abrir seus negócios, destaca-se a falta de emprego formal.

Miguel Ramos, de 37 anos, deixou a cidade de Puerto Ordaz em 2015 fugindo da crise econômica e social que assola a Venezuela. Assim como ele, mais de 5 milhões de pessoas deixaram o país – cerca de 260 mil tiveram como destino o Brasil, segundo a plataforma R4V, que monitora dados da migração venezuelana.

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Em Roraima, o venezuelano não estava conseguindo se inserir no mercado de trabalho. Mesmo sendo formado em contabilidade, a maioria das oportunidades que surgiam eram para diárias com baixa remuneração. Ele trabalhou vendendo suco nas ruas de Boa Vista, como garçom em um shopping e lavando louça de restaurantes. Mas a falta de um emprego formal fez com que Miguel decidisse viajar para Buenos Aires, na Argentina.

Lá, Miguel trabalhou em um empreendimento de um compatriota por nove meses. Quando, em 2019, o venezuelano voltou para Boa Vista com o intuito de buscar sua família, optou por mudar os planos e colocar em prática o que aprendeu em Buenos Aires.

Então, criou o Ay Que Rico, uma venda de arepas – comida típica venezuelana a base de milho – e pastéis, em frente ao Estádio Canarinho, ponto movimentado da cidade. “Eu vendo mais arepas do que pastéis. Em dias bons, já consegui vender cem arepas”, conta. 

Mesmo com o alto número de venezuelanos na cidade, ele afirma que a maioria do seu público é brasileiro: “Eles gostam do tempero”. O negócio ainda gera renda para outros três venezuelanos, dois deles da própria família de Miguel.

De acordo com Paulo Sérgio Almeida, oficial de Meios de Vida da Acnur no Brasil, o País possui um ambiente normativo favorável à inclusão de pessoas refugiadas, com leis progressistas e favorável à integração social dessas pessoas. 

“O fato de um solicitante de reconhecimento da condição de refugiado poder trabalhar, como é aqui no Brasil, ajuda muito. Se há dificuldade para as pessoas acessarem o mercado de trabalho formal, sem autorização isso seria basicamente inviável”, comenta Paulo Sérgio.

O oficial acredita que empreendimentos de refugiados possuem um potencial de riqueza cultural. “A identidade do Brasil é configurada a partir de fluxos de migrantes e refugiados que o País recebeu. Toda essa diversidade cultural trazida por essas pessoas agrega ao que já temos aqui”, afirma.

Para Benediction Kipuni, de 25 anos, da República Democrática do Congo, trabalhar com moda africana é uma forma de carregar a sua cultura e apresentá-la ao Brasil. Em seu país natal, a jovem havia começado a estudar corte e costura. Por isso, enxergou na venda de roupas com tecidos importados de seu país e de outros da África uma oportunidade de renda.

Morando em Belo Horizonte desde 2015, ela criou a Benkip Fashion em 2016, quando começou a costurar para festas típicas e vender em feiras. “As pessoas ficaram muito interessadas nos tecidos e nas estampas”, afirma a congolesa. Com a pandemia da covid-19, sem festas nem feiras, as vendas despencaram. Mas o negócio segue de pé nas redes sociais.

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