Lais Schulz
O escritor e educador Matheus de Souza defende que é possível lançar um produto ou serviço a partir de qualquer conteúdo consumido por um determinado público. Lais Schulz

Cursos e serviços prestados por influenciadores viram filão em redes sociais

Conteúdo de marketing pessoal feito por Top Voice do LinkedIn alcança mais de 2 mil alunos; confira dicas de consultora de marketing de influência

Juliana Pio, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2021 | 23h55

Não só maquiagem, moda e lifestyle podem se tornar negócio entre influenciadores. Na verdade, é possível lançar um produto ou serviço a partir de qualquer conteúdo consumido por um determinado público. É o que defende o escritor e educador Matheus de Souza, de 31 anos, que também é Top Voice do LinkedIn, empreendedor e nômade digital.

“A pandemia forçou ainda mais a transformação digital e com isso é possível produzir conteúdo na internet sobre qualquer área, inclusive, as mais tradicionais. A minha contadora, por exemplo, tem todo o seu negócio online”, ressalta ele, que se especializou em gestão de negócios.

Matheus abriu uma conta no LinkedIn em 2015 em busca de trabalho remoto. “Tinha zero seguidores e ganhava R$ 1.600 como assistente de marketing em Tubarão (SC)”, lembra. Porém, seu consistente trabalho na plataforma trouxe outras oportunidades. Ele recebeu propostas para se tornar redator freelancer e pediu demissão. Pouco tempo depois, foi selecionado para a lista de Top Voices.

“Isso deu uma autoridade maior sobre o que estava fazendo. Decidi criar meu primeiro curso online em 2017, de marketing pessoal e produção de conteúdo para o LinkedIn”, conta ele, que já lançou outros dois cursos. Atualmente, o educador está na África do Sul e já tem mais de 2 mil alunos, inclusive de outros países, como Portugal e Angola.

Foi também pelo LinkedIn que Matheus foi convidado, via mensagem, pela editora Autêntica Business, a escrever um livro. Nômade Digital foi lançado em 2019 e, em 2020, concorreu ao Prêmio Jabuti como finalista na categoria Escrita Criativa.

Somente no ano passado, o empreendedor faturou cerca de R$ 300 mil como escritor e educador. “Continuo com as minhas redes sociais, onde capto clientes e ganho dinheiro como influenciador. Já divulguei produtos e serviços de empresas como Google e Nubank”, completa. 

Na visão de Matheus, o LinkedIn pode ser mais uma boa ferramenta para começar um empreendimento, além do Instagram e do TikTok, redes mais visadas e onde a audiência é cada vez mais concorrida.

“Costumo dizer que o LinkedIn é um oceano azul para a produção de conteúdo que gera negócio e cliente. A plataforma deixou de ser apenas um banco de currículos.” Ele ainda acrescenta: “É preciso um trabalho consistente e não ser imediatista. O sucesso não vem da noite para o dia, como em qualquer área da vida.”

Assim como Matheus, a influenciadora e videomaker mineira Cecilia Kraemer, de 30 anos, também se descobriu em uma nova carreira após longos anos de trabalho nas redes sociais. Ela começou como blogueira de maquiagem e moda em 2013, quando ainda cursava Engenharia de Produção Civil. Mas se encantou mesmo com os vídeos que produzia para divulgar os produtos de marcas parceiras.

“Comecei a estudar audiovisual e me apaixonei. Alguns seguidores não gostaram da mudança, mas ganhei outros. Financeiramente também valeu a pena”, destaca Cecília, que já iniciou a profissão com vários clientes, mesmo com pouca experiência.

Ela também investiu em um espaço físico em Belo Horizonte para produção de conteúdo. “O mais importante é você se conhecer. Foi uma transformação descobrir o que eu realmente gostava de fazer. Quando isso ocorre, não tem volta.”

‘Para abrir negócio é preciso criar autoridade em algum nicho’

Confira 3 perguntas para Bia Granja, cofundadora e CCO da Youpix, consultoria de economia de influência, que possui programas de educação para marcas e produtores de conteúdo.

 

Todo influenciador é um empreendedor?

O empreendedor é aquele influenciador que entende que o impacto gerado na formação de opinião dos seguidores tem potencial para virar negócio. Quando pensamos em empreendedorismo, vemos o conteúdo como um meio de chegar aos consumidores. 

Podemos vender qualquer coisa, como batom, cursos ou e-books. Isso que muitos influenciadores estão fazendo ao lançar uma marca é um modelo de negócio que serve para qualquer pessoa, baseado na criação de um produto ou serviço que é vendido diretamente para a sua audiência. 

Ou seja, o consumidor é o próprio seguidor. Nem todo influenciador é um empreendedor, mas todo criador de conteúdo que tem essa visão de negócio pode se tornar um empreendedor. 

É verdade que ter muitos seguidores faz diferença?

Para montar um negócio digital não faz tanta diferença. Você pode contar apenas com a sua base de seguidores para conseguir chegar às pessoas e vender produtos ou serviços. Os bons produtores de conteúdo estão criando autoridade forte dentro de algum nicho ou território temático e podem construir a venda usando ferramentas como qualquer marca.

Essa é a grande onda. Se você tem essa autoridade, que é o principal, a quantidade de seguidores não impactará no seu negócio. 

Como se tornar um influenciador e começar a empreender?

Durante certo tempo, construiu-se a ideia da influência a partir do lifestyle perfeito. Com a pandemia, isso mudou. Estamos vivendo um momento de reconstruir as bases do que é a verdadeira influência. É uma boa hora para falar sobre empreendedorismo. 

Para abrir um negócio é preciso, primeiramente, criar autoridade em algum nicho ou território específico. Depois, trabalhar o conteúdo com consistência para que as pessoas percebam você como alguém relevante, o que não acontece de um dia para o outro. 

Por último, lançar um produto ou serviço em torno do seu segmento, que você realmente deseja vender, e fazer uma boa estratégia de divulgação. Quanto mais próximo você for da sua comunidade, mais forte será essa relação. 

É muito parecido com qualquer outra área do mercado, é preciso estudar nicho, concorrência, diferenciais etc. Os campos de atuação da produção de conteúdo são os mais diversos. É possível construir autoridade em qualquer temática. A influência é consequência. Estamos vivendo essa grande onda, que é vender o que você sabe. 

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A influenciadora Bianca Andrade começou no YouTube fazendo vídeos de maquiagem e, anos depois, lançou a própria marca, Boca Rosa, uma das mais vendidas no mercado. Alex Silva/Estadão

Influenciadores lançam marcas e abrem portas para novos negócios

Nomes como Bianca Andrade e Rayza Nicácio aproveitam influência nas redes sociais como oportunidade para empreendedorismo, criando marcas próprias de maquiagem e moda

Juliana Pio , O Estado de S.Paulo

Atualizado

A influenciadora Bianca Andrade começou no YouTube fazendo vídeos de maquiagem e, anos depois, lançou a própria marca, Boca Rosa, uma das mais vendidas no mercado. Alex Silva/Estadão

Não é de hoje que a economia do marketing de influência movimenta milhões de reais no Brasil. Cada vez mais sofisticado, o trabalho dos criadores de conteúdo (ou creators, como são chamados) tem atraído a atenção de investidores, em um movimento semelhante ao das startups. Conceitos como equity (participação de capital), venture capital (investimento de risco) e até mesmo blockchain já fazem parte desse mercado que tem como tendência a criação de marca própria.

Se num primeiro momento o foco dos influenciadores estava na realização de parcerias com companhias já existentes, por meio das chamadas postagens patrocinadas (“publi posts”), hoje muitos estão se tornando empreendedores e lançando os próprios produtos e serviços, no ambiente online ou offline.

“Os influenciadores estão começando a olhar para outros modelos de negócio que se desenrolam a partir do conteúdo que criam. Muitos entenderam que, se podem usar a influência para vender para outras empresas, conseguem fazer o mesmo com a própria marca”, explica Bia Granja, cofundadora e CCO da Youpix, que há 15 anos atua em consultoria e programas de educação para marcas e creators.

Pesquisa bienal da própria Youpix sobre o perfil dos criadores de conteúdo mostrou que, em 2019, 24% já tinham a influência como principal atividade remunerada. Dos 152 brasileiros entrevistados, quase metade (49%) se configurava como MEI (microempreendedor individual). Segundo Bia, esse é um mercado que tende a expandir, principalmente, após a pandemia.

De acordo com o estudo ROI & Influência 2021, realizado pela Youpix em parceria com a AlgoritmCOM, 83% das 94 grandes empresas brasileiras entrevistadas consideram que, com a crise do novo coronavírus, o marketing de influência se tornou mais estratégico para os seus negócios. Essa é a terceira edição da pesquisa e, pela primeira vez, nenhuma das marcas assinalou que o segmento não tem importância. 

Para 2021, a previsão é que o investimento em ações com influenciadores aumente 71%, em comparação com o ano passado. Para se ter uma ideia, budgets entre R$ 300 mil e 1,5 milhão por ano tiveram alta de 68% de 2019 para 2021. 

“Estamos olhando para a economia da influência de um jeito mais maduro e complexo e é um bom momento para se falar em empreendedorismo, ou seja, em criar negócios a partir de conteúdo”, ressalta Bia.

Foi o que observou Bianca Andrade, de 26 anos, que celebra neste ano uma década de carreira como influenciadora e, mais recentemente, como empresária. Nascida na comunidade da Maré, no Rio de Janeiro, ela faturou R$ 120 milhões em 2020 com a sua marca de maquiagens, a Boca Rosa Beauty.

Bianca entrou no Youtube em 2011, aos 16 anos, gravando vídeos amadores de maquiagem. Para sustentar o canal, trabalhava no bufê da mãe como recepcionista e garçonete. “Era onde tirava dinheiro para comprar câmera, iluminação, maquiagens etc. Mas sempre tive feeling para os negócios. Cheguei a fazer um curso no Senac e passei a trabalhar como maquiadora profissional”, lembra.

Paralelamente, ela realizava parcerias e permutas com marcas dos mais variados segmentos. Cobrava cerca de R$ 150 por vídeo no início. “Bem raiz”, brinca. Aos poucos, foi conquistando autoridade no assunto e formando uma comunidade fiel. “Comecei a me apaixonar pelo processo criativo e isso despertou o interesse em ter a minha marca”, explica ela, que tem mais de 14 milhões de seguidores somente no Instagram. 

O sonho virou realidade em 2017, após se unir à Payot para uma cocriação e lançar a própria coleção de maquiagens. A empresa de cosméticos entrou com o investimento (de valor não informado), fabricação e distribuição, enquanto a marca Boca Rosa atua na concepção de todos os produtos, desde a testagem até o plano de marketing.

“Nosso modelo de negócio é por royalties. Em dois meses de lançamento tivemos retorno de todo o investimento. Sabia que era muito forte no online, mas não imaginava que poderia faturar nas prateleiras também. Foi com esse objetivo, inclusive, que aceitei participar do Big Brother Brasil em 2020”, celebra Bianca, que tem seus mais 50 itens espalhados em cerca de 3 mil pontos de venda em todo o Brasil.

Expansão e relacionamento nas redes sociais

Hoje à frente de outras duas marcas, Boca Rosa Hair (de cuidados com o cabelo) e Boca Rosa Company (para produções artísticas), Bianca acredita na força das redes sociais para os negócios, tendo em vista as crises sanitária e econômica no País.

“As pessoas precisam levar o seu negócio para o online. Hoje, a rede social é o único lugar em que todos podem se encontrar e interagir. A internet abriu portas para muitos conseguirem criar o próprio negócio. Tem marcas que ainda não entenderam isso. Sempre ouvi que o melhor ponto de venda é a internet, a rua mais movimentada de clientes.”

Entre a agitada vida de influenciadora, empresária e futura mãe - no 6º mês de gravidez - ela só não abre mão do relacionamento direto com seu público. “Faz parte do meu propósito. Antes do negócio, quero ser companhia e referência para meninas com histórias parecidas com a minha.”

Seguindo passos semelhantes ao de Bianca Andrade, a influenciadora Júlia Peixoto, de 21 anos, nascida em Parada de Lucas, zona Norte do Rio de Janeiro, lançou no último dia 6 de maio a própria linha de maquiagens, JuPxt, com parceria e investimento da empresa de cosméticos Face Beautiful.

Júlia, que começou a fazer vídeos nas redes aos 12 anos, participou de todo o processo de criação dos produtos e receberá porcentagem das vendas. Inicialmente, as maquiagens podem ser compradas via internet e, depois, serão distribuídas em lojas físicas para todo o Brasil.

Com seu novo negócio, Júlia procurou dar visibilidade para pequenos influenciadores, e eles estampam a campanha de divulgação de alguns produtos. “Para mim, empreendedorismo é isso. É ver uma oportunidade e abraçá-la. Sair da zona de conforto. Se tenho público para poder vender um produto que uso e as pessoas se identificam, é óbvio que vou fazer.”

Soluções para comunidade online

Para Rayza Nicácio, de 29 anos, que lançou sua marca de roupas no ano passado, durante a pandemia, o principal desafio hoje é administrar o tempo como empresária e influenciadora. “São dois tipos de empreendimentos”, avalia.

Aos 19 anos, começou a produzir conteúdo sobre sua transição capilar para trocar experiências com os internautas e criar uma comunidade. Ao longo dos 10 anos de carreira, Rayza fez parcerias com marcas, como a Seda, e em agosto de 2020 decidiu empreender.

“Sempre tive dificuldades para encontrar peças no estilo básico com um pouco mais de sofisticação e que não custasse uma fortuna”, conta. “Fato é que no lançamento esgotamos o estoque, cerca de 3 mil peças, em 40 minutos.”

Embora tenha 1,4 milhão de seguidores no Instagram, a influenciadora não atribui o sucesso somente a isso. “Procuro encontrar soluções para problemas da minha comunidade. Ou seja, resolver as dores dos seguidores que, normalmente, são parecidas com as minhas. Vejo que esse é o jeito mais inteligente de empreender”, destaca.

Ao que parece, a estratégia funciona. Entre os produtos mais vendidos na loja online está o boné com elástico e mais espaço para o cabelo cacheado. “Lancei esse adereço que pode ser usado em várias ocasiões. Atendemos a necessidade de meninas que passam por situação semelhante à minha”, explica.

O empreendimento como um todo custou entre R$ 300 mil e R$ 500 mil, dinheiro investido pela própria Rayza com as economias que juntou do trabalho nas redes sociais. “Hoje, ainda faturo mais como influenciadora. O negócio das roupas é recente, mas tem bastante potencial”, afirma ela, que pretende tornar o nome Rayza uma marca maior do que a influenciadora.

“Quero que a loja ande de forma independente. Preciso alcançar pessoas que não necessariamente consumam meu conteúdo. É assim que uma empresa se sustenta e cresce.”

Indígena vende produtos para divulgar cultura

Foi aos 18 anos que a indígena Weena Tikuna teve o seu primeiro contato com a internet, na aldeia onde nasceu, em Umariaçu, município de Tabatinga (AM). Hoje, aos 32, morando no Rio de Janeiro, além de empresária, nutricionista, artista plástica, cantora e palestrante, ela também é influenciadora e já conta com mais de 100 mil seguidores no Instagram, onde vende seus produtos e serviços online.

Weena entrou para as redes sociais com o intuito de mostrar sua cultura. “Sempre busquei fortalecer a minha identidade como indígena. Vi que as pessoas começaram a gostar e a querer adquirir o meu trabalho”, conta ela, que pensou: “Se vendo na feira, posso vender em qualquer lugar.”

Aos poucos, os seguidores foram crescendo e a incentivando a criar novos projetos, como a loja online, que foi lançada em 2019. “Minha marca leva o nome do meu povo. Tem CDs, colares da comunidade, roupas, bolsas, bonecas. Tudo é feito manualmente. Trabalho com consumo consciente, não tenho fábrica e as peças são produzidas por encomenda”, explica a multiartista, que ainda ajuda financeiramente a sua comunidade.

Para Weena, a internet é um símbolo de fortalecimento e defesa. “Quando compram da minha loja, estão contribuindo com a minha cultura, com a minha etnia. A pessoa não leva apenas um produto, como também uma história de resistência e luta. Hoje, somos protagonistas da nossa história, da nossa voz. A gente pode falar de igual para igual.”

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