Taba Benedicto/Estadão-25/6/2020
Com pandemia, houve aumento do consumo de material plástico na cidade de São Paulo; na foto, a Central Mecanizada de Triagem da capital paulista.  Taba Benedicto/Estadão-25/6/2020

Cuidar do lixo dos outros é mote para empresas em indústria milionária

Pequenos negócios de reciclagem atuam no vácuo da coleta seletiva do poder público; Brasil perde R$ 14 bilhões por ano ao desperdiçar materiais que poderiam ser reciclados

Bianca Zanatta, Especial para o Estadão

30 de junho de 2021 | 05h01

A prática da logística reversa, de cuidar do lixo dos outros, virou modelo de negócio para algumas empresas. O Brasil perde R$ 14 bilhões por ano com falta de reciclagem de lixo. São 12 milhões de toneladas de resíduos sólidos desperdiçados, como 6 milhões de toneladas de plásticos e 4,7 milhões de papel e papelão, segundo dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).

E, se tem muito lixo no País, isso vira dinheiro na mão de empresas. É o caso da Yesfurbe, plataforma brasileira de compra e venda de smartphones refabricados. Fundada em 2018, a startup tem a missão de incentivar o consumo sustentável por meio do recondicionamento de aparelhos seminovos em boas condições de uso, além de oferecer produtos de alta tecnologia com preços mais acessíveis ao consumidor final.

A empresa também é uma alternativa para pessoas que não sabem o que fazer com um aparelho antigo ou possuem dificuldades na revenda, trocando-o por créditos para adquirir um modelo refabricado ou um novo. Esses processos podem ser realizados tanto pelo e-commerce da marca como em marketplaces e varejistas parceiros.

Danilo Martins, CEO da Yesfurbe, define o modelo como “recommerce”. “Compramos e vendemos celulares usados do mercado e fazemos toda uma logística reversa para trazer esses aparelhos que captamos dos varejistas”, ele conta.

“Temos uma plataforma sistêmica que já é integrada aos nossos principais parceiros de logística. No momento em que é feita a compra de um aparelho novo no varejo - ou seja, o cliente vai até a loja, compra um novo e dá o antigo como forma de pagamento -, a gente compra e faz a coleta (para consertar e vender novamente).”

Numa pegada parecida, a marca de calçados veganos Ahimsa busca fechar o ciclo de vida de seus produtos criando formas de o cliente devolver os sapatos que considera não terem mais usabilidade. Com a iniciativa (RE)cycle, a empresa faz o reaproveitamento dos materiais que já existem ou já foram industrializados antes de buscar novos materiais.

“Basicamente, o cliente nos devolve um produto usado, nós reciclamos ou doamos e ele recebe um crédito para uma nova compra”, resume Gabriel Silva, fundador e CEO. “Assim tiramos um produto do lixo e incentivamos uma nova compra. Economia circular mesmo.”

Para todos

Fazer a logística reversa no ramo de estética, beleza, perfumaria e cosméticos é a premissa da Reciclo Beleza Sustentável, dona de um modelo “para todos” que atende a negócios pequenos, médios ou grandes do ramo. 

“Damos uma destinação ambientalmente adequada às embalagens de todas as marcas por meio dos nossos pontos credenciados e máquinas de coleta, ajudando os clientes a conquistarem mais clientes com um programa de pontos e fidelidade sustentável”, afirma Fábio Roberto da Silva, sócio da empreitada. “Com isso eles passam a ter nosso selo Reciclo Beleza, nosso certificado ambiental e outros benefícios, que ajudam a tornar os negócios mais ágeis, rentáveis e atrativos.”

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Está para sair do papel no segundo semestre também a Loop Green, braço de tecnologias verdes da empresa para cuidar dos resíduos mais difíceis de reciclar do segmento, como esmaltes, batons e brilhos labiais. 

    les serão coletados e levados para a Loop Green, que vai pleitear vaga na Fapesp para desenvolver soluções que os transformem, por exemplo, para uso na mobilidade urbana, como em recapeamento de ciclovias.

    Coleta e reciclagem de cartuchos

    O descarte de cartuchos e outros insumos de impressão pode ser um problema ambiental grave. Consciente disso, a Reis Office, empresa de outsourcing de impressão, começou uma campanha de logística reversa já em 2008, dois anos antes da criação da PNRS.  “Para implantar muitos procedimentos precisamos ser firmes, pois é uma mudança de cultura e isso se dá com a comunicação bem feita, mostrando as necessidades de cuidar do ambiente”, afirma o fundador, José Martinho Reis.

    No início da campanha, eram recolhidos cerca de 5 mil cartuchos por ano. Agora são 25 mil. Em parceria com as fabricantes, a empresa faz a coleta mensalmente e fica responsável pela separação e pelo armazenamento até as empresas credenciadas levarem para o descarte final. 

    São gerados um laudo e um certificado que atestam toda a operação, oferecendo a garantia de que os toners e cartuchos usados serão destinados ao processo de descaracterização, que consiste na desmontagem e aproveitamento dos subprodutos derivados (plástico, metal e pó de toner). “O material é então reciclado, evitando sua transferência ao aterro sanitário e consequentemente a degradação do meio ambiente”, esclarece Reis.

    Papel social e educação ambiental

    Muitas coisas têm que acontecer para que os negócios consigam realizar de fato a logística reversa. Segundo Auri Marçon, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria do Pet (Abipet), é importante entender que o primeiro passo está na mudança do perfil de consumo.

    “O cerne da logística reversa está em entender que precisa ser uma responsabilidade compartilhada e encadeada envolvendo três pilares, que precisam funcionar em equilíbrio para dar certo: poder público, setor privado e cidadão”, diz o especialista. 

    Ele fala que, apesar de o setor público (municípios) ser responsável pela coleta seletiva, hoje um porcentual muito pequeno das cidades brasileiras a faz. “Acreditamos que não chegue a 20%”, relata. “Então o setor privado recebeu essa incumbência via PNRS - ‘esse filho é seu, precisa dar destinação a isso”, afirma Marçon. E as empresas já têm ciência disso, de acordo com ele. 

    “Apesar de a grande maioria ainda não conseguir fazer a logística reversa, grandes empresas já têm a estratégia equacionada e as pequenas e médias estão caminhando para fazer.”

    Só que nada disso é possível sem educação ambiental. “As pessoas precisam escolher produtos que sejam ambientalmente mais amigáveis, como o pet, por exemplo, que é altamente reciclável, e ter o hábito do descarte adequado”, ele alerta. O outro ponto de destaque, claro, é a melhoria nos sistemas de coleta. 

    “Porque hoje o grande problema é que esse material ainda é enterrado. Então tem que ter coleta pública somada a outras alternativas. Para ter ideia, no caso do pet, de 70% a 75% de tudo que é reciclado hoje vem de fluxos alternativos, como sucateiros, catadores e cooperativas”, aponta o executivo. “É um modelo que o Brasil criou e que gera renda, resolve uma questão social que encaixa muito bem na sustentabilidade.” 

    Marçon destaca que antes o Brasil não tinha parque industrial para atender à demanda de reciclagem, mas que hoje o gargalo está justamente na outra ponta da cadeia. Há de 30% a 40% de ociosidade no parque industrial, que não recebe os recicláveis que tem capacidade para transformar. No caso dos pequenos negócios, portanto, ele acredita que sejam necessários dois focos: papel social e educação ambiental. 

    “Porque essas empresas não conseguem estruturar suas próprias recicladoras, mas conseguem focar na parceria com cooperativas e na comunicação com o consumidor para que as embalagens cheguem à indústria de reciclagem”, explica. “As cooperativas, aliás, são verdadeiros cases de resgate da cidadania. O grau de esforço para manter aquilo de pé é comovente.” 

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    Logística reversa em pequena empresa inclui criatividade e ajuda do cliente

    Para estimular consumidor a devolver embalagem, marca cria sistema de pontuação com brindes; para especialista, problema da reciclagem ainda está na falta de educação ambiental

    Bianca Zanatta, Especial para o Estadão

    30 de junho de 2021 | 05h00

    Desde que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) foi implantada em 2010, para organizar a forma com que o País lida com o lixo, as empresas começaram a corrida para criar estratégias e adaptar processos a fim de atender às novas demandas da lei, que determinou que os setores público e privado gerenciem seus resíduos

    Entre os temas que passaram a fazer parte da agenda de sustentabilidade dos negócios, a logística reversa é um dos principais desafios. Antes, quando uma pessoa descartava uma embalagem de forma inadequada, ninguém sabia de quem era a culpa. 

    Com a PNRS, a responsabilidade passou a ser dividida entre o cidadão, o poder público e a empresa que colocou a embalagem no mercado e precisa cuidar para que, de alguma forma, ela volte, seja reciclada e entre novamente no ciclo da economia.

    Por ano, quase 80 milhões de toneladas de lixo são geradas no País, mas reciclamos somente 4% desse total, segundo dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Enquanto as grandes empresas lideraram o movimento de cuidar desse montante, com a construção de parques de reciclagem próprios, pequenos e médios negócios vêm apostando em criatividade, comunicação e educação dos consumidores para implantar seus processos de logística reversa.

    Um exemplo é a Popai, marca carioca de snacks saudáveis criada em 2016 pelo engenheiro de produção e especialista em inteligência artificial Arthur Vaz. Ao lado de um time de sócios que compartilham a paixão por esporte e vida saudável, ele desenvolveu quatro linhas de produtos (cubos de frutas energéticos, cubos de frutas proteicos, granola premium e chips de mandioca). Mas aí foi preciso achar um jeito de fazer com que os clientes devolvessem as embalagens, feitas de plástico retornável.

    “O primeiro trabalho que publiquei para o Congresso de Inovação e Sustentabilidade, quando estava na faculdade, foi sobre logística reversa no Brasil”, conta Vaz. “Que bom que consegui trazer esse aprendizado para a Popai e desenvolver um projeto inovador.” 

    Ele explica que a empresa pratica logística reversa em círculo aberto, destinando as embalagens a cinco cooperativas associadas. “A gente fecha um quilo mínimo que é economicamente viável para mandar para eles, garantindo o descarte”, fala.

    Para conseguir as embalagens de volta, a Popai criou vários incentivos ao consumidor. Lojas parceiras oferecem descontos na próxima compra para os clientes que trazem de volta as embalagens dos produtos da marca. No caso de compras pelo site, foi lançado o Projeto Volta Embalagem, em que as pessoas enviam as embalagens diretamente para a fábrica. 

    “A gente valorizou a nossa embalagem. Ela virou uma nova moeda, a moeda da Popai, como se fosse um bitcoin”, diz o empreendedor, que fez um estudo para entender qual o valor que essa moeda teria no mercado, pensando em todo o processo de operação da logística reversa. 

    “Aí a gente aplica em produtos da Popai Outfit, que são itens como boné, caneca, chinelo e blusas de treino que você pode comprar no nosso e-commerce ou ganhar juntando uma quantidade mínima de embalagens.” As “embalagens-moeda” também podem render até R$ 30 de desconto em compras de snacks pelo site.

    Parceiros da eureciclo

    Fazer parceria com selos que garantem a compensação dos resíduos colocados no mercado é o caminho adotado por muitas PMEs (pequenas e médias empresas) para somar na logística reversa. Uma delas é a Lowko, marca de sorvetes de baixa caloria que tem a expectativa de vender 600 mil potes e faturar R$ 10 milhões até o final do ano.

    Segundo o CEO, Rodrigo Stuart, que usa papel cartão e plástico na produção das embalagens, a empresa optou por um plano de compensação que recicla 100% do que é produzido no ano. “Foi a melhor solução que encontramos para conseguir dar esse passo”, diz o empreendedor. 

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    É também o caso da marca de alimentos plant-based We Nutz, que atende os canais B2B e B2C em todo o território brasileiro e usa sistema de rastreamento com os parceiros logísticos para acompanhar em tempo real o status de todas etapas da produção até os clientes, e da mineira Vida Veg, que tem o maior portfólio de produtos veganos do País. Além de pagar o selo da eureciclo, a empresa usa copos biodegradáveis de mandioca para fazer degustação em suas ações de marketing.

    Como a eureciclo oferece diferentes planos de compensação a partir de 22% (mínimo exigido pela lei), os clubes de assinatura são outro segmento que embarcaram na ideia. A Veroo, marca nativa digital que opera inicialmente um clube de assinatura de cafés especiais, se preocupou com o assunto e aderiu ao selo, destinando recursos para reciclar pelo menos 22% das suas embalagens e cápsulas de café.

    Já a Leiturinha, que envia livros infantis para assinantes do Brasil inteiro, optou pelo plano que recicla o dobro do material que usa em seus kits. “Nossa parceria com a eureciclo permite que, para cada embalagem da Leiturinha, duas do mesmo material sejam recicladas”, afirma Caroline Lara, coordenadora de curadoria e conteúdo da empresa, que também eliminou o plástico bolha e agora só usa papel reciclável.

    O CEO Guilherme Martins também conta que um dos pilares da Leiturinha é levar às crianças a importância da preservação do ambiente. “Por isso temos todos os anos o Mês do Pequeno Consciente, que entrega às famílias livros e materiais sobre sustentabilidade social e ambiental”, diz. “Contribuímos para que a Leiturinha não esteja presente apenas nos momentos em família, mas também na preservação da casa de todos nós, que é o planeta.”

     

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