Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Crescimento exuberante de R$ 16 bilhões do comércio online esconde grandes desafios

Com a concorrência e custos crescentes, novos empreendedores precisam apostar cada vez mais em novos segmentos

Marcelo Osakabe,

27 de agosto de 2014 | 07h00

 Em tempos de crescimento econômico baixo, são muitos os motivos para se olhar com bons olhos o e-commerce. O setor cresce com força – apenas no primeiro semestre do ano faturou R$ 16 bilhões, alta nominal de 26% em relação ao mesmo período de 2013. O problema é que esse crescimento esconde alguns obstáculos peculiares. 

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 Primeiro, os números vistosos trouxeram uma miríade de novas empresas para o setor. Dados de pesquisa recentemente divulgada pelo Sebrae, em parceria com a E-Commerce Brasil, estima que 41% das companhias existentes hoje no setor surgiram de 2013 para cá. 

Segundo, más notícias rondam algumas das maiores empresas do meio, que abocanham cerca de 70% de todo o faturamento, segundo dados da E-bit. Somente a B2W, que reúne marcas como Americanas e Submarino, informou recentemente ao mercado prejuízo líquido de R$ 64,6 milhões no segundo trimestre de 2014, cifra 31% maior do que a verificada no mesmo período de 2013.

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Como a maioria dos grandes players contam com aporte de investidores, eles ainda têm recursos para socorrer o fluxo de caixa. A questão é: se os grandes estão com dificuldade para operar no azul, o que será dos pequenos negócios?

“Em um mercado em ebulição como esse, não adianta ser mais um na internet”, afirma o professor da Business School São Paulo, Alessandro Saade. E isso significa fugir de ideias genéricas e apostar em nichos específicos, que ainda não foram desbravados. “O objetivo é ser o primeiro, ter uma sacada genial, uma solução única”, diz. 

De certa forma, foi o que fez o empresário Eduardo Casarini com a Flores Online, negócio que ele criou e um dos primeiros a atuar no setor, isso quinze anos atrás. “Na época, bastava a gente por um outdoor dizendo que a compra era feita pela internet que já chamava atenção”, lembra. Atualmente um dos líderes do segmento, o comércio online de flores recebe a maior parte dos pedidos de clientes antigos. “É diferente de uma empresa que nasce hoje e precisa gastar muito com publicidade para atrair novos clientes. A agressividade de alguns para ganhar o mercado é que está comprometendo a margem bruta”, afirma.

“Antes de mais nada, é preciso dizer que as empresas que gastam muito em publicidade e vivem no vermelho não são tocadas por gente que vive do negócio, mas para vender ele”, afirma a diretora executiva do E-Commerce Brasil, Vivianne Vilela. “Para quem deseja viver do e-commerce, as condições são outras e o cenário é muito melhor”, diz. As notícias negativas que rondam o setor, afirma Vivianne, foram inclusive um dos fatores que levou a entidade a propor a pesquisa ao Sebrae (Leia mais abaixo). 

“Aconteça o que acontecer, dê dinheiro. Se o negócio não for lucrativo, é sinal de que tem que mudar logo”, aconselha Saade. Além de ter uma boa ideia sobre o nicho que pretende explorar, é necessário tomar bastante cuidado com os pilares de todo e-commerce: a logística, a plataforma de vendas e os meios de pagamento. “E-commerce é processo puro. Você precisa fazer constantemente a afinação”, analisa Saade.

Além disso, é necessário tomar muito cuidado com tradicionais chamarizes de clientela do setor, como o frete grátis e o parcelamento das compras. O primeiro, que é grátis apenas no nome, abocanha em média de 5% a 7% da receita de grandes empresas. Esse custo é tamanho que o porcentual de vendas com frete incluído vem diminuindo consideravelmente e chegou a 49,5% das operações em junho de 2014. 

Esse movimento, por outro lado, significa, na opinião de especialistas, que os consumidores estão mais conscientes e dependem menos desse tipo de isca para comprar pela web.

Já o parcelamento pode até não comprometer a lucratividade, mas é uma “tragédia” para o fluxo de caixa da empresa. “O que acontece quando você paga em três vezes para o fornecedor e recebe em doze vezes do cliente?”, questiona o CEO da Sepha Perfumaria, Ricardo Cabianca.

O empresário gerencia uma rede que nasceu como loja física em Curitiba, que conta atualmente com cinco unidades, mas que obtém o grosso do faturamento no e-commerce. “Hoje não existe mais essa história de que é mais barato montar um e-commerce do que um comércio tradicional”, afirma. “Na Sepha, os custos do online são iguais ou maiores que o físico. Mas acredito que muita gente entrou porque achou que era mais fácil, que só precisava montar um site ‘bonitinho’ e colocar os produtos no correio.”

Cabianca tem razão. Muitos empreendedores, maravilhados pelas altas taxas de crescimento do setor, ainda montam um negócio sem o menor conhecimento das especificidades do e-commerce, lembra o diretor executivo da E-bit, Pedro Guasti. “A boa notícia é que hoje existem muitos cursos técnicos e mesmo de pós-graduação que permitem conhecer os principais tópicos e qualificações profissionais para poder se dar bem no setor.” O conhecimento, pelo menos no mundo virtual, é fundamental.

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