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Americanos pagam em média R$ 116 mil por livro com sua história pessoal

Em uma época onde a vida de todos parece exibida nas redes sociais, pequenas empresas atendem uma crescente demanda por livros personalizados

Alina Tugend, The New York Times

14 de setembro de 2016 | 06h00

Isaac Ehrlich, de 74 anos, queria que seus filhos e suas futuras gerações soubessem da história de sua mãe, Sonia, que passou por algumas tragédias do século 20: perdeu 40 parentes no Holocausto, foi enviada da Polônia para a Sibéria e finalmente chegou a Nova York, onde mora até hoje.

Mas para capturar o verdadeiro significado das mais de nove décadas de sua vida, ele contratou a escritora de memórias Kitty Axelson-Berry.

A empresa de Kitty, a Modern Memoirs, em Amherst, Massachusetts, conta com uma equipe de três pessoas e 10 subcontratados que transcrevem, editam, postam nas redes sociais e fazem a contabilidade.

Ehrlich preferiu não dizer quanto custou o livro, que inclui fotos, árvores genealógicas e receitas, mas disse que o serviço valeu o gasto.

"É minha mãe. O custo não significa nada", disse ele.

Mesmo em uma época em que parece que a vida de todos é exibida nas redes sociais para o mundo ver, uma geração inteira está envelhecendo e suas histórias, se não forem escritas ou gravadas, irão se perder. Atender a esse mercado está se tornando um negócio de pequenas empresas.

Embora não haja estatísticas sobre o número de pessoas que as dirigem, a Associação de Historiadores Pessoais – cujo lema é "Salvando vidas com uma história por vez" – tem quase 600 membros. E muitos que trabalham nessa área não fazem parte dela.

"Já tivemos nossos altos e baixos, mas estamos crescendo", disse Bill Horne, presidente da associação e proprietário da Launceston Services, empresa de produção e edição em Ottawa, Ontário, no Canadá. O grupo conta com membros de 13 países e o número de associados está se expandindo e começando a ficar mais variado, saindo do padrão "mulheres brancas de meia-idade". "Ninguém vai ficar milionário fazendo isso, mas algumas pessoas têm uma vida confortável", revelou ele.

Kitty fundou a associação quando estava começando, em 1995. Ela era editora de um jornal e, ao escrever as memórias de sua mãe, percebeu que outras pessoas também iriam gostar de ter as histórias dos pais escritas; resolveu aproveitar a oportunidade.

"Tomei algumas decisões erradas e fiz dívidas no cartão de crédito", disse Kitty. A grande chance veio em 1998, quando ela e alguns outros historiadores pessoais foram destaque no Wall Street Journal. Seguiu-se uma enxurrada de artigos em jornais de circulação nacional. Alguns anos mais tarde, já tinha um negócio autossustentável.

Kitty publica anualmente cerca de 12 livros de capa dura, com uma média de 300 páginas. Cobra um mínimo de US$5 mil por um livro de memórias assistido, na qual o cliente escreve o rascunho e ela conecta os fatos. Sua taxa mínima é de US$ 35 mil por um livro de memórias encomendado, em que ela ou um membro de sua equipe faz todo o trabalho. Essa taxa inclui viagens, em geral pelo menos duas vezes, para onde quer que o cliente esteja, e alguns dias de entrevistas.

Kit Dwyer, de 59 anos, era gerente de projetos do setor de mapeamento digital quando percebeu a oportunidade de entrar nesse mercado.

"A vida de nossos pais não está na internet. Não conseguimos descobrir algumas coisas se não falarmos com eles. E muita coisa pode estar se perdendo", disse Kit.

Kit, que vive em Denver, passou os últimos seis meses montando seu negócio. Pretende se concentrar nas gravações de áudio das memórias, combinando-as com objetos e fotos digitalizadas. Ela também produz apresentações de slides com narração feita pelo próprio cliente.

Como parte de sua preparação, Kit recentemente contratou Dhyan Atkinson, assessora de estratégia pessoal que se especializou no treinamento de historiadores pessoais.

Dhyan, que vive em Boulder, Colorado, começou o MemorySaving.com há três anos, depois de trabalhar como orientadora administrativa de um membro da Associação de Historiadores Pessoais por mais de uma década.

Ela disse que o interesse pela área está aumentando, especialmente entre ex-jornalistas, assistentes sociais e terapeutas que se aposentaram ou perderam o emprego e procuram uma segunda carreira.

"A maioria dos historiadores pessoais até agora não tinha muita experiência em negócios", disse Dhyan.

Ela oferece várias aulas de técnicas administrativas e consultoria pessoal, com duração de uma hora, com preços entre US$50 e US$85. Um pacote de seis meses com 12 sessões de uma hora custa US$ 2.500.

Muitos novatos adotaram a ideia de falar com as pessoas e escrever sobre suas vidas, mas não estão cientes das minúcias e das estratégias de marketing envolvidas. Por exemplo, transcrever entrevistas é muito demorado, um mínimo de quatro horas para uma entrevista "perfeita", disse Horne, e mais tempo é necessário caso a entrevista não tenha seguido uma ordem certa ou caso o entrevistado tenha um forte sotaque.

Ao tratar com um cliente em potencial, aconselhou Dhyan, fale sobre as razões emocionais para um livro de memórias e sobre seu possível impacto antes de mencionar o preço.

Escritores de memórias experientes dizem que um contrato assinado detalhando as expectativas dos clientes e da empresa é obrigatório. Isso inclui as revisões que devem ser incluídas no preço inicial (o normal é de uma a três) e uma tabela de custos para o eventual trabalho adicional. Sem essas cláusulas, o escritor poderia ter que produzir vários rascunhos a pedido de um cliente difícil de agradar.

Os escritores precisam aprender não só as técnicas de entrevista, mas também como conduzir confortavelmente as sessões.

"Você não está apenas transcrevendo uma entrevista", disse Mary O'Brien Tyrrell, que comandou uma empresa de biografias por mais de 20 anos, antes de se aposentar, em 2008.

"Você está ouvindo intensamente", completou. Ela proíbe que outras pessoas permaneçam na sala durante a entrevista, pois já havia visto parentes bem-intencionados oferecendo sua própria versão dos acontecimentos.

Mary, que vive em Orleans, Cape Cod, Massachusetts, agora escreve, dá palestras e leciona. Em 2012, publicou "Become a Memoirist for Elders: Create a Successful Home Business". No auge do negócio, seu lucro anual era de US$ 100 mil.

Um livro de memórias pode ser principalmente para as gerações futuras, mas também fornece uma oportunidade rara para refletir.

Ela mencionou sua primeira cliente, uma mulher que morria de câncer aos 52 anos. Ela estava muito doente para ler o livro acabado, por isso, Mary o leu para ela. "No final, ela se virou para mim e disse: 'Agora percebo que tive uma vida maravilhosa'".

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