Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Coworkings veem no trabalho flexível oportunidade de retomada

Redes miram interesse de grandes corporações por escritórios híbridos e investem em tecnologia e pacotes customizados

Nathalia Molina, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2020 | 05h00

Especial para o Estado 

Funcionários em home office, profissionais liberais sem trabalho, corte de custos nas empresas, entrega de salas comerciais. A avalanche de fatos, decorrentes da pandemia, caiu em cheio sobre o mercado de coworkings. Mas, mais rápida do que esperava o próprio setor, a reestruturação vem se desenhando com interesse de empresas maiores por escritórios compartilhados e trabalho híbrido, flexibilidade para ajustar planos às necessidades dos clientes, parcerias entre redes e inovação tecnológica.

O Co.W Coworking abriu, nas unidades Berrini e Vila Olímpia, espaços com o Estúdio MCI, empresa internacional especializada em experiências digitais no mundo corporativo. Equipamentos e infraestrutura permitem a realização de lives e até apresentações com realidade virtual. 

“Percebemos a tendência de eventos híbridos, e você precisa de qualidade para isso. Nossa especialidade é em gestão de espaço e necessidade do cliente. A parceria foi uma possibilidade de oferecer isso de forma profissional”, explica o sócio diretor da rede, Renato Auriemo. 

Outra tendência é a parceria comercial entre escritórios compartilhados. “A On Offices era nosso concorrente antes da pandemia. Unimos todos os canais de venda e a estrutura de gestão”, diz sobre o acordo feito com a marca para a administração de espaços da On Offices no Paraíso e na Vila Nova Conceição. “Até quem tinha receio de parcerias percebeu que o futuro vai ter uma colaboração maior entre empresas.”

Segundo ele, isso aconteceu também com corretores de imóveis. “Grandes imobiliárias viam a gente como concorrente. Agora estão vendendo coworking para os clientes comerciais.” Criada em 2015 em Joinville (SC), a rede Co.W atingiu um faturamento anual de R$ 20 milhões em 2019 e crescia 25% ao ano antes da crise da covid-19.

O setor como um todo começou 2020 com perspectiva de crescimento. Na primeira semana de março, a palavra “coworking” bateu o topo da popularidade no Google no Brasil. Apenas 20 dias depois, o termo despencou de 100 para 26. Passado o susto inicial, desde o fim de junho, gira em torno de 50. A recuperação do setor, no entanto, vem surpreendendo até quem já esperava uma melhora rápida.

“A gente estudava muito o mercado lá fora e sabia que iria crescer aqui. Os coworkings representavam 5% dos escritórios comerciais e até 2030 iriam chegar a 30%”, afirma Roberta Vasconcellos, CEO da BeerOrCoffee, plataforma com cerca de 1,1 mil espaços parceiros no Brasil. “A gente não sabia o tamanho do buraco, mas acabou sendo menor do que se imaginava. No último trimestre, a demanda aumentou 60% por mês na BeerOrCoffee e deve seguir no primeiro semestre de 2021.”

Muitas tendências, de acordo com Roberta, já vinham em ascensão, como o interesse em escritórios flexíveis por parte de companhias maiores de setores convencionais. Antes da pandemia, no entanto, eles ainda eram território mais povoado por pequenas empresas e indivíduos, como profissionais liberais e freelancers, ou startups

“Essa crise é uma oportunidade de quebrar paradigmas, de as empresas entenderem que existe um escritório flexível no padrão que querem, que pode ser um ambiente com salas privativas. Nós trabalhamos com coworkings em 160 cidades para todos os estilos, de cool a corporativos.”

Fama errada

Para Breno Caires, CEO da Conexa, fornecedora de software de gestão para aproximadamente 800 coworkings no País, a imagem dos escritórios compartilhados em geral ainda se restringe àquela de um espaço barulhento com muita gente. “As pessoas têm uma visão limitada do que é um coworking. A maioria deles têm várias salinhas separadas. Uma boa parte da população não entende que ele pode ser a sede da sua empresa e você ter uma recepção com secretária”, diz o CEO da empresa fundada em 2014.

Com o intuito de alavancar o setor, ajudando pequenas empresas a economizar, Caires lançou o movimento Vem pro Coworking. A página online apresenta uma calculadora para o empresário entender na prática quanto custa a estrutura de que precisa.

Assim como Roberta, ele vem testemunhando o retorno acelerado do mercado. “Nos primeiros três meses da pandemia, perdemos clientes. Mas a gente sabia que a retomada seria boa, só não imaginava quanto”, diz o CEO da Conexa, que nesta crise da covid-19 já atendeu 484 contatos de pessoas pensando em abrir coworkings. “Quem tem imóvel comercial e se deparou com a vacância pensou que podia botar um coworking, já que não vai conseguir alugar.”

Roberta acrescenta outro comportamento, visto também entre clientes de maior porte: o uso dos espaços nos escritórios compartilhados por equipes alternadas. “É a tendência de squad office, com as empresas se organizando em hubs. Por uma questão de segurança, agora não dá para todas as pessoas irem juntas para o escritório.” Além da otimização de recursos financeiros e humanos, as companhias podem contratar em qualquer lugar e reter talentos. “O banco Inter reduziu R$ 1 milhão de custos com a gente ao migrar suas regionais para coworking. E, toda vez que contratam, já tem escritório para a pessoa.”

Em um primeiro momento, com o isolamento como regra, a troca de experiências por pessoas diferentes em um mesmo espaço se tornou proibitiva. Mas o trabalho em casa, a princípio visto como inimigo dos coworkings, pode terminar como aliado. “(Em casa) A pessoa começa a ficar deprimida”, afirma Patrícia Coelho, diretora de Operações do Club Coworking. 

Embora ainda ofereçam planos pré-formatados, os coworkings têm criado soluções cada vez mais customizadas, aumentando e diminuindo posições fixas conforme a necessidade da empresa mude. “Eu já tinha uma cultura de pensar o que o cliente precisa. Sou totalmente flexível, agora mais do que nunca, em termos de planos e negociação”, diz ela.

Até o meio de 2021, a marca prevê a abertura de mais duas unidades em São Paulo. Atualmente, com duas do Club Coworking e seis da Virtual Office, o faturamento anual total da empresa é de R$ 16 milhões. “A gente cresceu 30% em clientes desde junho”, conta Patrícia, que costuma encontrar Roberta, da BeerOrCoffee, na unidade Faria Lima do Club Coworking, ampliada em 900 metros quadrados durante a pandemia.

Dentro do possível, os escritórios compartilhados têm conseguido manter o clima de descontração e a interação entre as pessoas, parte importante nesse negócio. Para cuidar da segurança sanitária em relação à covid-19, buscaram certificações dos protocolos adotados. Já diante das mudanças nas empresas e nas relações de trabalho, as inovações seguem em curso e prometem novidades constantes, como os coworkings de nicho já vistos no exterior.

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