Copa pode prejudicar imagem do Brasil, diz criador de ranking

Consultor diz que reputação do país é a mais forte dos Brics, mas alerta para possível queda

ESTADAO PME,

26 de julho de 2011 | 17h23

O britânico que difundiu o conceito de marcas de países disse que a reputação da marca Brasil é fortíssima e crescente, mas alertou para o perigo de que o país prometa demais e acabe por decepcionar. O britânico Simon Anholt, que presta consultoria sobre o assunto a governos, acredita que o Brasil pode acabar repetindo o feito da África do Sul, que, após sediar a Copa do Mundo, caiu vários pontos no ranking anual de marcas de nações criado por ele.

Desde 2005, Anholt vem publicando um ranking que lista os países pelo peso com que sua marca é percebida pelos mercados. O ranking atual é liderado por Estados Unidos, seguido de Alemanha e França, o Brasil ocupa a vigésima posição. Ele se diz apaixonado pela marca Brasil, mas acha que ela não é apropriada para um país que deseja se projetar internacionalmente como uma potência econômica e política. Para ele, o mundo tem que aprender que o Brasil não é só atraente, simpático e caloroso.

Em entrevista à BBC Brasil, o consultor, que em 2010 visitou o Brasil duas vezes para fazer conferências, explicou por que hoje rejeita a apropriação do conceito de marca de país por empresas de marketing.

BBC Brasil - Qual é a situação do Brasil no ranking de marcas de nações feito por você?

Anholt - O desempenho do Brasil tem sido notável desde que comecei a compilar o ranking, em 2005. E vale dizer que rankings desse tipo são muito estáveis. As pessoas não mudam a imagem que têm de um país de um ano para o outro - isso acontece muito lentamente, de uma geração para outra. Mas o Brasil é uma exceção, vem subindo posições no ranking ano a ano.

Meu ranking mede a reputação de 50 países, e o Brasil é o único país em desenvolvimento incluído nas 20 primeiras posições, subiu para a posição 20 em 2010. Todos os outros países nas Top 20, à exceção do Japão, são nações ocidentais ricas. O Brasil tem também a marca mais forte dos Brics (nome dado ao grupo das potências econômicas emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China), logo acima da Rússia, e está algumas posições na frente da China e da Índia.

BBC Brasil - A emergência do Brasil como uma potência econômica influencia a marca?

Anholt - A reputação do Brasil é cada vez mais forte, em parte como consequência do crescimento do seu poder econômico, mas também como um reflexo do soft power, ou seja, fatores como a Copa, as Olimpíadas e a reputação de Lula. A marca Brasil é popular. É colorida e atraente, e as pessoas admiram o estilo de vida brasileiro. Mas o país precisa ser muito cuidadoso porque, na minha opinião, está prometendo demais.

Vejo um paralelo com o que aconteceu com a marca África do Sul depois da Copa do Mundo. Desde o fim do apartheid, o país vinha reinventando sua marca, mandando para o mundo mensagens de uma sociedade transformada, ignorando questões como a pobreza e a desigualdade. Mas, durante a Copa do Mundo, as equipes de TV do mundo inteiro registraram a realidade do país e isso provocou um choque.

Por conta disso, houve um reajuste na percepção das pessoas. A minha pesquisa mostra que desde então a imagem da África do Sul piorou. E eu acho que o mesmo pode acontecer com o Brasil. O Brasil continua sendo um país de desigualdade e pobreza, mas finge ser desenvolvido, igualitário e sofisticado.

Acredito também que a imagem do Brasil que emerge da minha e de outras pesquisas não seja a imagem correta. Samba, futebol e um estilo de vida tropical e festeiro são decorativos, mas não muito úteis se o país quiser ser reconhecido como um poder econômico, político e industrial.

O ranking Anholt-GfK Roper Nation Brands Index de 2011 será publicado no outono britânico (primavera no Brasil). BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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