José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

Copa e inflação derrubam desempenho de pequenas empresas em São Paulo

Negócios de micro e pequeno porte tiveram o pior desempenho desde 2009, quando o Brasil enfrentava a crise global

Renato Jakitas, Estadão PME,

19 de agosto de 2014 | 06h40

Há cinco anos, o pequeno e médio empresário paulista não enfrentava um primeiro semestre tão ruim do ponto de vista econômico. O faturamento real dos empreendimentos do Estado de São Paulo aumentou 0,8% de janeiro a junho, isso quando se compara a igual período do ano passado.

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Trata-se do pior desempenho desde 2009, quando o País experimentava os efeitos colaterais da crise mundial, que teve início com o desmoronamento do sistema de crédito imobiliário dos Estados Unidos.

Desta vez, uma associação de fatores foram responsáveis pela redução no ritmo de expansão das receitas. Segundo o Sebrae-SP, responsável pelo monitoramento, uma conjunção entre inflação elevada, salários com aumentos reais menores (já descontada a inflação) e a piora na confiança dos empresários e consumidores foram decisivos para a quase estagnação apresentada. O período da Copa do Mundo, com redução de horas úteis entre os meses de junho e julho, também contribuíram para esse resultado.

A receita total das micro e pequenas empresas no primeiro semestre de 2014, ainda segundo o Sebrae-SP, foi de R$ 285,4 bilhões, apenas R$ 2,4 bilhões a mais do que os valores obtidos no mesmo período do ano passado. Apenas em junho, o faturamento ficou em R$ 45 bilhões, quase 2% a menos do que no mesmo mês de 2013.

“Sem dúvida, o desempenho modesto da economia prejudicou os resultados no semestre”, afirma o diretor-técnico do Sebrae-SP, Ivan Hussni. “Com os jogos do mundial, houve uma diminuição do número de dias úteis em junho e os reflexos foram sentidos principalmente na indústria e no comércio”, sacramenta.

As partidas da Copa, por sinal, são apontadas pelo comerciante paulistano Tiago Augusto Pinto como a 'pá de cal' em um semestre que já andava fraco. Segundo ele, a movimentação no balcão de suas três lojas – uma perfumaria, uma de bijuterias e uma esmalteria, todas localizadas no bairro de Ermelino Matarazzo, na zona leste da capital – minguou nos dias em que a seleção brasileira entrou em campo.

“Eu já percebia que o movimento estava baixo desde janeiro. Os nossos clientes estavam muito endividados. Compras de R$ 20, R$ 30 tinham o cartão de crédito recusado na hora do pagamento e isso não acontecia antes. Mas com a Copa, piorou”, lembra o empresário. “A gente fechava uma hora antes dos jogos e abria uma hora depois. Mas as ruas ficavam vazias e a gente não vendia quase nada”, ele conta.

Com um volume de 600 vendas por dia e um desembolso médio estimado em R$ 11,30 por cliente, Tiago Augusto Pinto conta que sofreu uma redução de 20% no fluxo de pessoas e entre 12% e 13% no faturamento no primeiro semestre, sobretudo em junho. Com menos dinheiro no bolso, o comerciante precisou se endividar para arcar com as despesas fixas. “Eu tomei R$ 40 mil emprestados no meu banco de relacionamento, para pagar em 18 meses. Precisei fazer isso para cobrir a folha de pagamento e não atrasar com os fornecedores”, revela ele, preocupado com a despesa extra.

Se lhe serve de consolo, o fato é que a fase menos próspera do comerciante é também experimentada por boa parte de seus colegas no Estado. Essa, pelo menos, é a opinião de Letícia Aguiar, economista e consultora do Sebrae-SP. “De uma forma geral, a economia neste ano de 2014 está mais fraca que no ano passado. A inflação no primeiro semestre, por exemplo, comeu o poder de compra e isso acabou influenciado na decisão dos consumidores. As pequenas empresas sentiram isso”, diz a especialista, que espera um segundo semestre de recuperação em relação a primeira parte do ano, mas ainda assim com resultados abaixo dos obtidos no passado. “Este ano não deve ser melhor que em 2013."

Preços. De fato, para além da Copa, a inflação  foi fundamental para o baixo retorno de alguns investimentos no período. Um exemplo é o protagonizado por Adriana Oliveira, dona de um restaurante e lanchonete na cidade de Vargem Grande Paulista (SP). Após cinco anos de crescimentos consecutivos, ela diz que amargou um primeiro semestre de retração - 30% abaixo do ano passado, quando faturou de R$ 70 mil a R$ 80 mil por mês. O motivo é o preço dos insumos. “Os preços estão maiores e, para não repassar ao consumidor e espantar ainda mais a freguesia, eu reduzi minhas margens. Antes trabalhava com 80% de margem de lucro bruta. Agora, não tenho mais de 50% de margem”, conta ela.

A exemplo de comerciante de Ermelino Matarazzo, Adriana também precisou recorrer a uma linha de financiamento  para garantir o capital de giro. Tomou R$ 10 mil e sacou parte da poupança que fazia para as despesas de fim de ano. “Sempre guardo dinheiro para pagar, principalmente, o 13º salário dos meus funcionários, que hoje são dez. Mas tive de mexer nessa reserva.” 

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