Cassius A. Fanti
Cassius A. Fanti

Cooperativa é exemplo de como maximizar o microempreendedor

Cooperados dividem o bônus e também o ônus por igual, mas ganham força e musculatura pela união, diz especialista

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2019 | 06h00

A gestão solitária de artesãos, pequenos agricultores e demais microempresários pode ser transformada por meio da união com seus pares, nas cooperativas. A atividade reúne membros do mesmo setor que pretendem desempenhar o trabalho juntos, com o objetivo de obter maior resultado financeiro e dividi-lo em partes iguais. É possível, então, compartilhar o bônus e o ônus de empreender e ainda transformar o “micro” em “macro”, como é o caso da produção de leite da Nova Zelândia, que é 98% dominada por cooperativas, segundo levantamento da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB).

Além de diluir a gestão, a união por meio de cooperativas pode ajudar na obtenção de certificados ou selos (como o de orgânicos) e na capacitação do trabalho dos envolvidos. “A cooperativa dá musculatura e maior dimensão ao trabalho que, sozinho, seria muito mais difícil para o microempreendedor conseguir”, diz o diretor do Sebrae-SP Guilherme Campos.

No Brasil, são 6.887 mil cooperativas que representam 14,2 milhões de cooperados, segundo a OCB. Além de fortalecer seu próprio grupo, eles ainda ajudam a fortalecer a economia de uma região inteira. É o caso dos pequenos produtores de uva da Serra Gaúcha (RS), reunidos na Cooperativa Vinícola Garibaldi. Fundada em 1931 por 73 agricultores, hoje a cooperativa conta com 400 famílias localizadas em 15 municípios. 

Até os anos 1990, diz o presidente da cooperativa, Oscar Ló, o foco era a produção de vinho a granel (commodity); a partir dos anos 2000, eles começaram a apostar em produtos envasados e de maior qualidade, como os espumantes. Para proporcionar essa guinada da Garibaldi, a cooperativa apostou no apoio técnico aos cooperados.

“Nós temos técnicos agrícolas e engenheiros agrônomos que fizeram o acompanhamento de reconversão de vinhedos dos produtores, com o cultivo de novas variedades de uvas. É mais uma possibilidade de valorização financeira do trabalho. Enxergamos o que o mercado demandava e então ajustamos a cooperativa”, explica Ló. 

Há seis anos o cooperado da Garibaldi também recebe parte das sobras, que é o lucro das vendas ao mercado, expandindo as possibilidades de lucro para além da produção no campo. “Ao final do ano, 40% dos resultados é distribuído para os associados”, completa o presidente. Sobre ampliar a produção, Ló diz que as prioridades são o bem estar e o aumento da renda dos atuais cooperados. “A Garibaldi já passou por uma crise financeira muito grande, os associados nem recebiam por toda a produção de uva.Passaram por dificuldades e permaneceram na cooperativa. Agora, nada mais justo de que a oportunidade de melhoria seja para quem aguentou esse processo todo.”

Para o agricultor Sérgio dos Reis Oliveira, cooperado desde 2005 na Cooperativa de Cafeicultores de Guaxupé (Cooxupé), no sul de Minas Gerais, o modelo de negócio como cooperativa passa segurança. “Sempre trabalhei no sistema de cooperativa. São muitos os benefícios, como a certeza da comercialização da produção, a facilidade na compra dos insumos, as garantias de preço do produto.Além disso, a cooperativa dá credibilidade para o meu café e gera confiança nas pessoas”, diz ele. A Cooxupé foi criada em 1932 e atualmente tem 14 mil cooperados. Desses, 95% são pequenos produtores de café distribuídos em 200 municípios entre Minas e interior de São Paulo. 

Além do setor agropecuário, os setores mais promissores para a criação de cooperativas no País são o de crédito, pois em muitos casos a atividade é a única instituição financeira do município, e o de saúde, mostra um levantamento do Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo no Estado de São Paulo (Sescoop-SP).

Ainda de acordo com o Sescoop-SP, os maiores desafios das cooperativas ainda são a falta de conhecimento sobre o modelo e a sucessão, devido à falta de estímulo para a participação de jovens.

União. Há 10 anos, uma oficina de capacitação em corte e costura para mulheres realizada em Santo André (SP) originou a Retece, grupo com pilar na moda consciente e que produz peças de vestuário e ecobags com retalhos de tecidos. 

Atualmente com a participação de quatro mulheres, o grupo não pode ser legalmente enquadrado como cooperativa (o mínimo exigido são 20 pessoas), mas é fato que a união fortalece o empreendedorismo dessas mulheres. 

“Temos entre oito e 10 parceiros que nos contratam para produzir as peças de suas marcas. Todas nós recebemos o mesmo valor, e 10% do dinheiro vai para o fundo mensal, que é para comprarmos de café da manhã a linhas e agulhas, além de podermos fazer reparos nas máquinas. No fim do ano, fazemos as contas e dividimos esse excedente por igual, como se fosse um décimo terceiro”, conta Edilma Souza dos Santos, responsável pelas finanças da Retece.

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