Evelson de Freitas/Estadão
Evelson de Freitas/Estadão

Consultora usa até elementos de artes marciais para preparar executivos para situações de crise

Com um método nada ortodoxo, inspirado no aikidô, a consultora Olga Curado fez fama entre os políticos, mas ganha espaço nas empresas ensinando como lidar com as crises

Cátia Luz, Negócios,

21 de janeiro de 2013 | 13h44

O escritório tem jeito de casa. Em uma sala colorida, com uma parede vermelha forrada de quadros, a consultora de imagem Olga Curado recebe o visitante com um ritual que faz lembrar suas raízes goianas: café e biscoitos amanteigados servidos em potinhos de vidro decorado. Mas é no fundo da casa, logo após um jardim com piscina, que está uma das marcas do método de treinamento criado pela consultora: um tatame de aikidô.

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Foi assim, com uma abordagem nada ortodoxa – que reúne elementos da arte marcial criada nos anos 1940 e influências que vão do budismo ao estudo de microexpressões – que Olga Curado se projetou na preparação de políticos e empresários para situações de crise.

Apesar de ter começado a consultoria atendendo empresas, foi na política que ela se destacou, após ter entre os clientes nomes como o ex-presidente Lula e a presidente Dilma Rousseff. Foi com Olga que Dilma perdeu um pouco da arrogância e do discurso técnico e passou a dar atenção à forma como falava.

Nas Comissões Parlamentares de Inquérito, ela também é figura carimbada. Preparou, por exemplo, o então presidente do Google Brasil, Alexandre Hohagen, para falar na Comissão da Pedofilia e o ex-ministro Luiz Gushiken para depor na CPI do Mensalão. “Achei que não precisava, mas aprendi muito com ela”, diz o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, treinado por Olga antes de ir ao Congresso falar da quebra do sigilo do caseiro Francenildo, em 2006.

A trajetória no terreno político aumentou o interesse do mercado corporativo no trabalho da consultora. A presidente da Petrobrás, Graça Foster, enfrentou por três dias o tatame de Olga antes de assumir o cargo. No ano passado, executivos do Pão de Açúcar, incluindo o presidente Eneas Pestana, receberam o media training da consultora.

Empresas como a Eletropaulo também recorrem à Olga para alinhar a estratégia de comunicação e preparar o time. Em 2012, vários porta-vozes da companhia foram treinados para participar de audiências públicas. “Ela antecipa muitas das perguntas que serão feitas. E foi durante um treinamento com ela, que percebi que balançava o corpo enquanto dava entrevistas e fazia cara de poucos amigos”, diz Sidney Simonaggio, vice-presidente de operações da empresa de energia. “Não precisei parar no tatame, mas alguns dos nossos colegas sim.”

Segundo Olga, o que mais a surpreendeu na sua relação com as empresas foi a falta de um olhar para a crise. “Parece que as coisas ruins nunca vão acontecer. Mas elas acontecem, é questão de tempo”, diz. “O trabalho é esse: olhamos as coisas como elas são. Caso contrário, o discurso das empresas é de vítima.”

Método. Quando chega a uma empresa em crise, a primeira ação da consultora é pedir que os executivos contem o que está acontecendo. “Quando se conta cronologicamente uma história, aparecem as lacunas que você precisa preencher com informação”, explica. Em seguida, é preciso identificar as pessoas que participaram dos eventos, para que cada uma saiba da sua responsabilidade e tenha uma resposta. “Não é para se defender, é para esclarecer. Depois, essas pessoas são treinadas para se expressar, senão o outro corre o risco de não entender a história.”

Todos esses passos fazem parte de um conhecimento técnico. Mas, para Olga, o grande avanço do seu método é a atenção ao aspecto comportamental. “Não adianta ter briefing, texto correto, se a pessoa não está equilibrada”, diz. Na crise, ela ensina estratégias para enfrentar o medo.

Em geral, nessas condições, a pessoa congela ou fica agressiva. É o popular correr ou lutar. “Não adianta dar a regra geral, dizendo, por exemplo, ‘fique calmo’. Como se diz no budismo, é preciso dar instruções misericordiosas. É preciso falar: ‘coloque os dois pés no chão e respire’”, explica a consultora. Na equipe, há desde médico antroposófico e neurologista a jornalista e especialista em shiatsu.

Para Sérgio Chaia, ex-presidente da Nextel Brasil, o modelo criado por Olga é provocador. “Ela não está preocupada em agradar. E trabalha com uma questão fundamental: a correlação de sentimento e conteúdo”, afirma Chaia. Para preparar o executivo para situações como reuniões com investidores, Olga usou a análise de microexpressões, desenvolvida por Paul Ekman, professor do departamento de psicologia da Universidade da Califórnia.

Ele é especialista em perceber mentiras nos mínimos sinais faciais. “Aprendi que para ter as expressões corretas, eu tinha que colocar os sentimentos corretos. Numa convenção de vendas, em que tinha de celebrar os resultados, pensei no nascimento do meu filho. Tudo fica mais forte”.

Um concorrente de Olga diz que ela conseguiu se diferenciar no mercado de treinamento de mídia. “O que ela traz de novo é uma orientação de performance”, explica. “Meu trabalho é mais racional, focado em estratégia. Ela tem uma pegada de mago. Mas tem um ponto de equilíbrio, porque é um ‘mago pragmático’”, diz.

Fernando Simões, presidente da operadora logística JSL (antiga Júlio Simões), conheceu a consultora em 2010, quando se preparava para um road show pouco antes da abertura de capital da empresa. “Em 15 dias, eu ia passar por cerca de 80 reuniões com bancos e fundos de investimento, 20 delas no Brasil e o restante no exterior”, conta o executivo. “Precisava mostrar a companhia de forma muito objetiva. Olga nos ajudou desde a organização do material à definição de como eu deveria me sentar.”

Perguntado se tem críticas ao trabalho da consultora, nem que seja ao preço, Simões não perde a linha. “Preço é custo-benefício. Você não reclama se vai a um restaurante caro e a comida é maravilhosa.” No mercado, especula-se que Olga cobra algo entre R$ 8 mil e R$ 10 mil por hora.

Trajetória. Há treze anos, Olga acabou levada para esse negócio pelas circunstâncias. Em 2000, após 15 anos na Rede Globo como diretora de jornalismo do Rio e do escritório de Londres, ela foi demitida da emissora. Dias depois recebeu um telefonema de uma agência de comunicação com o convite para fazer o gerenciamento de crise em uma empresa. “Eu nunca tinha feito isso e comecei trabalhando intuitivamente. Aos poucos fui criando meu método.”

Entre as técnicas usadas por Olga, está a ‘cadeira quente’, em que o executivo senta-se de frente a uma pessoa e dá suas explicações sobre determinada questão. Em seguida, o interlocutor repete o discurso. “Só ao escutar o que diz, muita gente se dá conta de que o que está falando não faz sentido”, explica. Os ensinamentos do aikidô permeiam todo o método. Nessa arte marcial, não há competição. “No tatame, se eu me colocar na frente do outro, na defensiva, ele vai me controlar. A única maneira de sair é me aproximar dele e identificar seu interesse. Isso é processo de comunicação puro!”, diz Olga, faixa preta no aikidô.

Nos trabalhos de prevenção, ela procura antecipar – e simular – as situações de perigo e diz que quase 90% das crises surgem dentro das empresas. Por isso, clima bom dentro da empresa é a melhor prevenção. Pessoas que trabalham satisfeitas não processam, não denunciam, não revelam segredos da empresa.

Perguntada sobre a pior crise que já enfrentou, Olga não titubeia: a queda do avião da TAM, em 2007. Ela foi  chamada às pressas, logo após o acidente. Marco Bologna, presidente da companhia, voltava de uma viagem a Miami. “Já existiam várias empresas trabalhando no processo e eu estava no centro dele, mas sem o controle. Aprendi que, num momento de grande comoção, as informações se perdem. E você tem que estabelecer o controle da divulgação da informação ”, explica. Segundo ela, nesses momentos, não adianta só esclarecer. A empresa precisa escrever sua mensagem e falar diretamente com o público, sem intermediários.

Na época, a TAM foi alvo de diversas reportagens que criticaram a atuação da companhia, do número de telefone de auxílio aos parentes das vítimas que não funcionava à demora da empresa a convocar a entrevista coletiva. Em hora como essas, Olga também tem ao que recorrer nas técnicas do aikidô. “Um dos maiores ensinamentos dessa arte é treinar para saber cair.” / COLABOROU DAVID FRIEDLANDER 

:: TREINADOS POR OLGA ::

Razão e emoção. Para treinar Sérgio Chaia, ex-presidente da Nextel, Olga Curado recorreu à análise das microexpressões faciais, técnica desenvolvida pelo psicólogo americano Paul Ekman.

Sem detalhes. Em 2012, o presidente Eneas Pestana e outros funcionários do Pão de Açúcar receberam o treinamento. A empresa diz apenas que o trabalho faz parte do programa de desenvolvimento dos executivos.

Aprendizagem. Segundo Olga, a queda do avião da TAM foi uma grande lição. O presidente da empresa, Marco Bologna, no entanto, não tem restrições ao trabalho da consultora. “Ela tem a sensibilidade de orientar no que é necessário”

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