José Vendrame, motorista que abandonou o táxi para ingressar no Uber em SP
José Vendrame, motorista que abandonou o táxi para ingressar no Uber em SP

Conheça o compartilhamento da economia e saiba por que ele chegou para ficar

Polêmica envolvendo 'aplicativo de caronas' no Brasil e em outras partes do mundo é apenas o início de uma profunda transformação na forma como os empreendedores atuam

Renato Jakitas,

28 de outubro de 2015 | 07h02

Há duas semanas, o paulistano José Alcino Vendrame abandonou o trabalho como taxista para ingressar no Uber, aplicativo que conecta carros de luxo a passageiros e que, nos últimos meses, ocupa o centro de um debate público por bater de frente com as regras atuais que regulam os serviços de transporte coletivo e individual nas cidades e, de quebra, ainda interfere no sistema de concorrência que há tempos vigora nesse setor.

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Imediatamente rechaçado pelas associações de taxistas, que acusam o Uber de promover competição desleal, já que os motoristas não são tributados como taxistas e nem sequer estão submetidos à fiscalização do poder público, o serviço foi considerado irregular nas quatro praças brasileiras em que opera: São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte. 

Nem por isso, o Uber para de ampliar sua base de usuários e motoristas, que já são mais de seis mil, por aqui. A explicação pode estar na percepção do ex-taxista Vendrame, que guarda na ponta da língua os números de sua última semana com um táxi nas ruas da capital paulista. “Eu, que trabalhava como segundo motorista em um táxi, faturei R$ 2.074 em uma semana. Mas no meu bolso sobraram apenas R$ 789,10. É caro ser ‘motorista de praça’. Uber dá mais dinheiro”, diz ele, que planeja acumular R$ 8 mil por mês com o aplicativo em algum tempo. “A Prefeitura vai ter de regulamentar. O cliente gosta e o motorista ganha um pouco mais”, opina.

Fronteira. Essa história envolvendo um aplicativo para smartphone e uma categoria de profissionais é emblemática, mas essa polêmica é apenas a ponta de um iceberg chamado economia colaborativa, novo conceito que estimula o compartilhamento de bens e serviços, quase sempre usando a internet como espaço para as negociações.

Trata-se de um novo formato de se empreender e que, a sugerir pelo poder de disseminação de novas ideias pelo mundo, tem tudo para virar de ponta-cabeça o mercado como conhecemos.

Segundo levantamento realizado pela revista Forbes no ano passado, a economia colaborativa cria receita anual de US$ 3,5 bilhões com os usuários desses serviços, valor que deve crescer 25% ao ano. “Resumidamente, estamos falando de empresas que têm uma quantidade muito pequena de ativos aplicados na operação. Elas operam na intermediação de negócios. Vendem serviços de hospedagem sem terem imóveis. Trabalham no transporte, mas não possuem carros. São negócios altamente escaláveis”, observa Marcelo Nakagawa, professor de empreendedorismo da Fiap e também do Insper. 

Dono de um escritório de contabilidade há 28 anos, Vicente Sevilha Jr. (foto abaixo) é exemplo de uma outra categoria que começa a sentir os impactos desse tipo de empreendimento. Desde o surgimento de serviços como o curitibano Contabilizei, lançado por Vitor Torres em 2013 e que oferece serviços básicos a partir de R$ 49,90, o empresário conta que a demanda pelo seu trabalho se dividiu. “Nosso serviço começa em R$ 300, a diferença de preço para quem quer fazer algo mais básico ou mesmo burocrático é grande”, afirma Sevilha. O empresário afirma, inclusive, ter “reduzido bastante” o tamanho de seu escritório nos últimos meses. “Esse é um novo mundo e não acredito que adiante alguma coisa bater de frente, temos de nos adaptar. Um caminho que encontrei é focar na consultoria, algo que os sites não poderão fazer.”

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Entrevista. Para o professor de empreendedorismo do Insper e Fipe, Marcelo Nakagawa, é absolutamente certo que o futuro do mercado passa pelas plataformas e empresas de economia compartilhada. Para ele, é perda de tempo por parte das instituições ligadas aos negócios tradicionais tentar suspender os serviços como Uber no Brasil. Leia abaixo trechos da entevista com o especialista.

Qual o futuro da economia colaborativa?

O futuro é que não dá para frear essa tendência, que eu julgo parte da evolução do mundo. Ondas de inovação sempre chegam e modificam o setor. Esse é um modelo que vem sendo gestado há anos e, agora, com o sucesso de algumas plataformas, ele se solidifica.

Como você vê a tentativa de algumas entidades em suspender serviços compartilhados?

Acho que é uma perda de tempo, mas historicamente todas as ondas de inovação sofreram resistências. A caixa registradora, quando lançada, foi alvo de ataques das pessoas, por exemplo, mas nem por isso ela não se consolidou.

Quais áreas devem sofrer mais rapidamente com a concorrência desse modelo?

Sobretudo as áreas de serviços onde a percepção de valor ou a satisfação dos clientes são consideradas baixas. Áreas como a advocacia, serviços de locação de casas e carros, psicologia e nutrição já são atingidas por essa nova corrente.


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