Viviane Vaz/AE
Viviane Vaz/AE

Conheça a história do empresário que levou franquias internacionais para a Palestina

A saga do empresário criado no Brasil que conseguiu convencer KFC e Pizza Hut a abrir lojas na Palestina

VIVIANE VAZ, ESPECIAL PARA O ESTADO,

02 de maio de 2012 | 13h23

 O Conselho de Segurança da ONU ainda não se decidiu sobre o reconhecimento do Estado Palestino e os governos israelense e palestino tampouco alcançaram um acordo mútuo de paz. Um empresário brasileiro-palestino, porém, conseguiu contornar o conflito político e fazer o que parecia impossível: abrir pela primeira vez uma franquia internacional na Cisjordânia.

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Adeeb Musa Al Bakri acaba de inaugurar seu segundo Kentucky Fried Chicken (KFC) e a primeira loja Pizza Hut em Ramalah, onde fica a sede da Autoridade Palestina. A unidade pioneira do KFC foi inaugurada em setembro do ano passado.

Além dos restaurantes em Ramalah, Bakri possui três rádios, vários edifícios comerciais e o magazine Al Bakri Stores, com três lojas, que vendem de eletrodomésticos e panelas a roupas e material escolar. Ao todo, trabalham em seus negócios 400 funcionários.

Segundo Bakri, sua experiência empresarial foi conquistada com os anos de vida no Brasil. Ele chegou a Lajeado, a 100km de Porto Alegre, aos 15 anos, sem falar uma palavra de português. O ano era 1968 e a família Bakri começava a se estabelecer no Rio Grande do Sul com o comércio de roupas. "Nossa família não sabe trabalhar com outra coisa que não seja roupa. É como um peixe que se tirarmos da água, morre", conta, com um forte sotaque gaúcho.

A ideia de passar do comércio têxtil para o setor alimentício veio do amigo Saleh Tariff, palestino-americano que retornou à Ramalah em 1998. Juntamente com mais um amigo empresário, Aref Bashir, o trio conseguiu driblar a política internacional e convencer o KFC e a Pizza Hut a reconhecerem a Palestina no mundo dos negócios. "Ser brasileiro me ajudou muito. Ser brasileiro ajuda em qualquer lugar", explica Bakri.

Gênero. O gerente de marketing no KFC de Ramalah, Josef Musallam, diz que se orgulha em trabalhar em um projeto que, além de colocar a Palestina no mapa mundial da franquia de restaurantes, respeita a igualdade de gêneros. "Há poucos postos de trabalho para mulheres na Cisjordânia. O Sr. Bakri estabeleceu como política empresarial que metade dos funcionários seja mulheres", diz.

Bakri tem uma relação próxima com os funcionários e abre espaço até para conselhos amorosos. A vendedora Muna, do magazine Bakri, conta que passou a infância e adolescência em Goiânia e está agora de casamento marcado com um noivo que "só viu uma vez na vida", devido a insistência da mãe, muçulmana tradicional. "Mas, ó Muna, ele não entrou nem um pouquinho no seu coração?", pergunta Bakri, dando uma de cupido. Ela ri e acena que sim, "um pouquinho, sim".

O empresário recorda que gostou do Brasil desde Bruxelas, quando embarcou em um avião da Varig rumo a São Paulo e em seguida, Porto Alegre. " Eu era um garoto e eles me receberam, me acolheram, me levaram para o avião... Comecei a gostar do Brasil já ali", conta.

No Brasil, Bakri aprendeu a evitar falar sobre política e religião. Hoje se limita a dizer que não gosta dos muros, das cercas e dos checkpoints na Cisjordânia. "Tenho esperança de ver os dois povos aqui em paz. Vivi com eles (os judeus) em paz em Porto Alegre e não posso viver aqui?", resume.

Ouvinte assíduo das rádios Guaíba e Gaúcha na época de Brasil, Bakri decidiu criar sua emissora na Palestina. Hoje possui três rádios: Tarab 103,8 FM, Ajyal 103,4 FM e Angham 92,3FM. "Sempre tive adoração por rádio. Tenho 60 jornalistas e 72% de participação do mercado", diz Bakri. Suas ondas alcançam ouvintes em Israel, Palestina, Síria, Jordânia, Líbano e Egito. A programação se divide em música, jornalismo e programas de serviço à população.

A volta à terra natal não estava nos seus planos. "Conheço São Paulo mais do que Ramalah. Mas em 1994 meu pai ficou doente e vim para cuidar dele. Pensei que ia ficar duas semanas, mas a doença do meu velho se prolongou", conta. Depois que o pai faleceu, os cinco irmãos e as cinco irmãs de Bakri quiseram permanecer no Brasil. "Eu já tinha deixado a firma há dois anos e acabei ficando", explica. Bakri mantém o apartamento em Porto Alegre e boas lembranças do país que forjou sua maneira de fazer negócios. "Garanto que sou um produto 60% brasileiro e 40% palestino", brinca o empresário.

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