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Como ganhar dinheiro para não fazer absolutamente nada

Guardar lugar à fila ou encurtar caminho dentro da burocracia já é profissão na Itália, África do Sul, EUA e, claro, no Brasil

Tom Hodgkinson, The New York Times

16 de julho de 2016 | 05h00

A burocracia italiana é lendária. Os italianos passam muito da vida em filas – cerca de 400 horas/ano por pessoa –, a ponto de alguns estarem pagando freelancers para esperar em seu lugar. Quem tem dinheiro pode pagar um codista, neologismo que designa “fileiro” treinado, que guarda o lugar na fila do correio ou do banco enquanto o contratante ocupa o tempo com algo mais importante. 

Não sei bem que habilidade é necessária para ficar de pé e de vez em quando andar um pouco; deve haver nisso alguma aptidão, que ainda não percebi qual. E parece que a Itália não é a única nação burocraticamente sobrecarregada a ter sua indústria de espera.

O Brasil tem seus despachantes, ou expedidores. A Venezuela tem os coleros (“fileiros”); e a Espanha tem os gestores, ou agentes. Já a África do Sul tem uma empresa chamada Q4U, que cuida especificamente do extenuante negócio de tirar passaportes britânicos.

 

Em Nova York, os ricos de dinheiro e pobres de tempo usam o serviço Same Ole Line Dudes, que se apresenta como “os únicos fileiros profissionais de Nova York”. Os Dudes cobram US$ 25 pela primeira hora e US$ 10 a cada 30 minutos adicionais durante o tempo necessário para conseguir cobiçados ingressos para concertos ou tênis de grife no dia do lançamento. Seu slogan é “Esperamos para realizar seus desejos”. Soube que eles também esperam no equivalente americano aos Detrans.

Não vai demorar muito para que a atual indústria da espera na fila seja sacudida pela chegada de uma nova startup digital com um nome do tipo LineRabbit (“coelho da fila”), operando sob um slogan como “Esperamos para que você curta a vida”. Seu aplicativo teria um passo a passo muito simples: 

1. Aperte a tecla “espere na fila em meu lugar”.

2. Um de nossos LineRabbits especialmente treinados esperará em seu lugar na fila escolhida. 

3. Pague agora. Aceitamos todos os cartões. 

Na Grã-Bretanha, onde vivo, não há, que eu saiba, nenhum serviço do tipo Q4U. Os super-ricos, que compraram todas as mansões de Londres que ainda não haviam sido compradas pelos muito ricos, obviamente não ficam em filas. Mas nós, gente comum, ficamos. Segundo uma pesquisa, os britânicos passam 67 horas/ano “filando”, como dizemos aqui. 

Claro que isso é apenas uma fração do tempo que os italianos ficam em filas no correio e nas prefeituras. Mas, mesmo assim, é um bocado de tempo potencialmente produtivo que vai pelo ralo. Analistas da Economist sem dúvida acham isso ineficientemente irritante e devem se sentir compelidos a quantificar o fenômeno: “Milhões da indústria britânica são perdidos em filas”.

 

Eu, de minha parte, uso essas longas horas para estudar a arte de esperar na fila e identificar algumas tendências que emergem da cultura filística. Por exemplo, a fila múltipla. Quando há muitos caixas ou guichês de serviço, forma-se uma fila para cada. Isso é também receita segura para nos irritarmos – já que uma lei da natureza estipula que sua fila parece ser sempre a mais lenta. Nos supermercados, na revista em aeroportos e nas bilheterias de metrô o processo geralmente é organizado pela separação com cordas. 

Mas o sistema também é atingido pela informalidade. Tenho notado que as pessoas, graças a alguma forma de comunicação telepática, vão organizar desordenadamente a própria divisão de filas já na calçada, enquanto esperam para chegar às filas “oficiais” dos caixas. Esse princípio de auto-organização espontânea é um feliz exemplo de anarquia em ação. 

Esperar se tornou menos tedioso com a chegada do smartphone. Agora, enquanto esperamos no supermercado, podemos receber e mandar e-mails e ler o jornal. 

Embora essas medidas reduzam a chatice e frustração de esperar na fila, há uma outra solução para o problema – que é não ver o tempo gasto em fila como totalmente desperdiçado. 

Vivemos reclamando de estar sempre ocupados demais. Aí, quando temos a chance de não fazer nada por alguns minutos, também reclamamos. Por que não aproveitar a oportunidade para praticar um pouco de meditação? Respire, ilumine-se, alegre-se. 

É claro que isso é mais fácil de dizer que de fazer. Se você já esteve na anarquia menos festiva de uma turba indisciplinada em um bar sexta-feira à noite, tentando pedir uma rodada de cerveja artesanal, sabe o que estou dizendo. 

Esse tipo de espera põe à prova até a calma interior do dalai-lama. Bartenders não parecem ter o senso de respeito a filas, e, que eu me lembre, são sempre os mais ruidosos, espaçosos e exuberantes os primeiros a serem atendidos. Se você esperar pacientemente e confiar na justiça, corre o risco de ir para casa sóbrio. 

Como membro típico da criativa classe média – ou seja, medianamente preguiçoso em tempo integral –, vejo que minha renda encolheu nos últimos anos. Tem algo a ver com internet e Facebook. Por isso, venho pensando que ser um [ITALIC]codista [/ITALIC]pode não ser tão ruim. Acho que me daria muito bem nesse trabalho. 

TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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