Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Como abrir uma empresa e ter sucesso no negócio; veja dicas de especialistas

Se dedicar a uma atividade que dê satisfação, reconhecer competência para o ramo e entender de finanças são os passos iniciais

Felipe Siqueira, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2022 | 05h00

Pode parecer romântico ou até mesmo poético, mas não é. Um aspirante a empreendedor quando começa a pensar na empresa que pretende montar precisa responder às seguintes perguntas, de acordo com os especialistas consultados pelo ‘Estadão’: Quem eu sou? Para onde vou? Como chego lá? O que eu gosto de fazer?

Partindo da última pergunta, é primordial saber o que a pessoa gosta de fazer porque, com isso, existe uma tendência maior em dar certo no mundo dos negócios se o indivíduo exercer algo que lhe satisfaça. Mas, claro, não é apenas isso. Além de gostar, é preciso avaliar se, de fato, é competente naquele tema. E, além da especialidade do empreendimento, é obrigatório conhecer as finanças.

O gerente de relacionamento com o cliente do Sebrae Enio Pinto explica que existem alguns processos que podem ser seguidos, antes mesmo de embarcar de vez nos negócios. Primeiro, a pessoa pode listar o que gosta de fazer e, dentro desses temas, avaliar onde é competente. “Onde eu sou melhor que a média?”, afirma Enio. A partir daí, deve-se estudar se existe demanda da comunidade para aquele produto ou serviço, ou seja, será que as pessoas pagariam por isso? Pode parecer óbvio, mas é bom ressaltar que qualquer empresa só existe se ela tiver clientes.

Além disso, o ideal é sempre testar. “A recomendação é: sonhe grande, comece pequeno e cresça rápido”, diz Enio. Antes de sair efetivamente para a rua ou de montar um ponto físico, faça um protótipo. Se a pessoa gosta de cozinhar, ressalta ele, vale montar algo em casa, vender para vizinhos, dentro do próprio quintal. Isso ajuda a praticar habilidades e ver se pode dar certo. “No papel, a pessoa precisa de um planejamento. Fazer um plano de negócios. E depois colocar na rua”, completa o gerente do Sebrae.

Essa etapa do plano de negócios é essencial para que uma estrutura seja montada. A professora do Senac São Paulo Giovana Cunto, que dá aulas em curso especializado em empreendedorismo para pequenos negócios, pondera que o plano é o que vai diminuir a distância entre o sonho do empreendedor e a implementação do negócio. A partir do momento que a pessoa consegue traçar um mapa do percurso que irá percorrer, descrevendo o passo a passo, é possível minimizar as chances de erro.

 “Um bom plano de negócios aperfeiçoa a ideia, tornando-a clara. Facilita a apresentação da empresa a sua equipe, aos fornecedores e potenciais clientes. Além de analisar os pontos fortes e fracos do negócio e avaliar o empreendimento por meio da comparação entre o que foi previsto e o que efetivamente foi realizado.”

Segundo Giovana, essa é uma das grandes dificuldades ao se tornar “pessoas jurídica” é o planejamento – ou a falta dele. Quando o empreendimento é iniciado por necessidade e não por um desejo, como acontece em casos de demissões, por exemplo, o tempo para planejamento é escasso e a pessoa física quer poder tirar o mais rapidamente possível um sustento daquele negócio.

Um cenário parecido com esse aconteceu com Pryscilla Tavares da Costa Matos, de 31 anos, e o marido, Thiago Macedo da Costa, de 38 anos. Ele perdeu o emprego durante a pandemia, em meados de 2020, e ela, em 2021. Além disso, na mesma época, Pryscilla engravidou. Com tudo isso, decidiram empreender. Ela conta que o casal sempre gostou de tortas doces.

E, como ela já havia vendido salgados anteriormente para ter um complemento de renda, resolveu arriscar e começou a vender banoffees. “Comida não para de vender. No primeiro momento, ensinei meu marido a fazer a torta e, quando eu também perdi o emprego, passei a trabalhar junto no negócio. Começou como necessidade, mas essa é a nossa única fonte de renda atualmente”, conta Pryscilla.

Pryscilla já tinha feito um curso de confeitaria no Senac São Paulo, o que a ajudou para a confecção das tortas. Mas a produção não era nem de longe a maior dificuldade do início. Para ela, as partes administrativa e de marketing eram muito complicadas. “Tudo eu cuidava e sem base fica difícil.” Para isso, ela também procurou outro curso na mesma entidade.

Esse é outro ponto destacado por especialistas ouvidos pela reportagem: a educação continuada. O ideal é sempre ter uma capacitação que possa ser aplicada ao negócio que está sendo iniciado. Caso tenha montado um restaurante, por exemplo, não basta apenas saber e gostar de cozinhar. É necessário fazer fluxo de caixa. E é primordial separar as contas pessoais do empreendimento.

Empecilho esse que apareceu na vida de Pryscilla. De início, ela não conseguia investir no negócio. O dinheiro das vendas era usado para despesas da casa. “Não repunha estoque para pagar dívida pessoal.” Mas, com os cursos que ela buscou e a experiência que foi adquirindo, os problemas foram sendo sanados. Hoje eles  estão às vésperas de inaugurar um ponto físico em São Paulo. Essa parte financeira acaba sendo um dificultador também na vida do empreendedor, tanto do negócio quanto no lado pessoal.

Para o empreendimento, há duas possibilidades mais óbvias inicialmente. A primeira, de acordo com os especialistas, é tentar uma linha de crédito que não seja muito cara para viabilizar o negócio. Mas em um momento em que inflação e juros estão em patamares elevados, isso talvez seja difícil de ser encontrado. A segunda tentativa pode ser encontrar um sócio, que vá contribuir com verba e administração – o que faria também com que o empreendedor dividisse lucros, mas também riscos.

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No âmbito pessoal, é preciso também cuidado. Isso porque, por muitas vezes, o faturamento do primeiro ano é o que pode decidir o que será necessário para a manutenção do empreendimento, como explica o vice-presidente de Crescimento da Contabilizei, Guilherme Soares. “O negócio não começa exatamente como a gente quer. O faturamento aumenta gradualmente”, diz ele.

Nos primeiros passos do empreendedor, o que acaba pesando muito é a insegurança pessoal. Soares comenta que muitas pessoas acabam desistindo do negócio porque a parte pessoal fica atrapalhada. “Nos primeiros três meses, a receita é irregular. Aí a pessoa se desespera e quer arrumar renda de qualquer maneira. Uma dica importante é tentar se preparar para o período.”

Depois de tudo isso, temos tópicos mais práticos do dia a dia para olhar também: Quem são os fornecedores? Quem são os concorrentes? Quem é o mercado consumidor? “Qualquer uma das respostas pode inviabilizar o produto. Qualquer uma dessas perguntas pode acabar com o negócio ainda no papel”, ressalta Enio, do Sebrae.

Para finalizar, Enio aponta três tópicos essenciais para que um negócio dê certo: foco no cliente, já que a empresa só existe porque existem clientes com problemas para serem resolvidos; capacitação continuada, porque tudo pode mudar com o tempo; e inovação. Entre tantos CNPJs no Brasil, sempre há concorrência. O ideal é fazer algo diferente para conseguir se destacar.

Outro ponto é a experiência. Giovana, do Senac São Paulo, explica que as pessoas não compram apenas uma sobremesa, mas, sim, uma experiência degustativa. Não querem uma peça de roupa, mas uma experiência de autoestima, beleza e conforto. “Isso deve se iniciar no momento da apresentação do produto até a entrega do pacote. Seja pela embalagem atrativa, pelo odor que o produto exala, por um presente que o cliente receba, fazendo-o se sentir especial.”

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