Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Clubes de assinatura de vinil têm alta e prolongam vida do nicho

Segmento com venda física de disco cresce na pandemia, apesar de falta de matéria-prima; modelo de fidelidade traz vantagens para empreendedores, clientes e artistas

Felipe Tringoni, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2020 | 14h00

Especial para o Estado

Em pleno 2020, no auge dos serviços de streaming, ainda há espaço para consumo de música em formato físico? O aumento de vendas de lojistas, a retomada da produção de vinil em duas fábricas brasileiras e uma tendência que tem ganhado força no contexto da pandemia – a dos clubes de assinatura – mostram que sim. De quebra, dão estabilidade ao mercado do disco de vinil, movido por entusiastas em meio a dificuldades, que vão da falta de insumos para a produção dos discos às embalagens.

Até setembro, o mercado de clubes de assinatura no Brasil teve aumento de 10% no faturamento em relação ao ano passado e deve fechar 2020 com alta de 12%, segundo dados da plataforma de e-commerce Betalabs. No segmento dos discos de vinil, números positivos dos dois principais clubes, Noize Record Club (NRC) e Três Selos, e o surgimento de um terceiro em novembro, a fábrica paulistana Vinil Brasil, confirmam a tendência.

“Sem cinema, barzinho ou viagens, as pessoas estão buscando mais opções de lazer em casa. Quem tem alguma segurança financeira neste momento está consumindo”, diz Rafael Cortes, de 40 anos, um dos fundadores do Três Selos. 

O clube, formado em São Paulo em 2018, uniu EAEO Records, Assustado Discos e Goma Gringa para lançamentos exclusivos no modelo de assinatura – mensal, por R$ 120 ao mês e frete não incluso, ou anual, por R$ 1.440 com entrega –, mas que também disponibiliza cópias avulsas em seu site (por R$ 150) e em outras lojas.

Tulipa Ruiz, Chico César, Jards Macalé, Kiko Dinucci e Lia de Itamaracá estão entre os artistas com discos de vinil lançados pelo coletivo, que aposta em produtos de luxo, com alto padrão de acabamento gráfico.

O sócio João Noronha, de 28 anos, lembra que “em março, quando começou a pandemia, pensamos que o projeto tinha ido para o saco. Tínhamos acabado de ampliar a equipe e achamos que ninguém compraria mais vinil. Mas as vendas cresceram muito, para nossa surpresa”. 

Segundo ele, o faturamento do Três Selos em 2020 cresceu 150% em comparação com o ano passado, mas o lucro permaneceu praticamente o mesmo, por conta de ampliação da equipe e do aumento de custos na cadeia de produção.

Referência no mercado

O Noize Record Club, primeiro e maior negócio do tipo no Brasil, enfrenta as mesmas dificuldades. Os dois clubes prensam seus LPs na Polysom, fábrica localizada em Belford Roxo (RJ), que ficou parada entre março e maio.

“Além dos meses de produção acumulados, os recursos estão escassos. Neste momento falta níquel, que está sendo usado na indústria automotiva. O papelão para as embalagens também está desaparecendo. Tudo subiu de preço. E estamos segurando nossos valores”, diz Pablo Rocha, de 38 anos, um dos fundadores do clube de Porto Alegre, criado em 2014 a partir do site e da revista Noize.

Sem detalhar seu número de assinantes ou tiragem dos lançamentos, ele diz que o faturamento cresceu cerca de 30% em 2020 e que hoje suas prensagens representam “cerca de 40% da produção da Polysom”.

Diferentemente do Três Selos, o Noize Record Club não disponibiliza vendas fora de seu marketplace. Além disso, seus lançamentos chegam acompanhados por uma publicação impressa, focada no universo do artista e do álbum em questão, que “é o grande diferencial”, segundo Rocha. 

O NRC opera com modelos de assinatura mensal (R$ 75) e bimestral (R$ 85), além de disponibilizar uma parcela de suas tiragens para vendas avulsas (R$ 125; nenhuma das modalidades inclui frete). Gilberto Gil, BaianaSystem, Céu, Paralamas do Sucesso e Marcelo D2 estão entre os artistas com discos produzidos para o clube.

Benefícios do modelo de clube

O “modelo fidelidade” da assinatura propõe benefícios para as diversas partes envolvidas. Do ponto de vista dos negócios, são vendas fixas e garantidas por um determinado período. Para o consumidor, assegura a compra e a chegada em casa de discos com tiragens limitadas; e para os artistas, além da materialização física do trabalho, oferece distribuição e avaliza uma cota de vendas. “A venda por recorrência é interessante porque dá uma previsibilidade boa”, diz Pablo Rocha.

“Com um bom número de sócios e constância de lançamentos você tem capital de giro para planejar, colocar energia no projeto e lançar mais coisas. Para nós, significa estabilidade, sequência de trabalho e programação de curadoria”, completa Michel Nath, de 43 anos, fundador da fábrica Vinil Brasil, que deu início a seus próprios selo e clube em novembro.

Ali, são duas opções de assinatura: mensal (R$ 125) e anual (R$ 1.250), ambas com frete incluso. Embora tenha atravessado um ano de menor produção “por conta da pandemia e da situação em que nosso País se encontra”, ele afirma: “Nunca tive um fim de ano tão lotado de pedidos entrando”.

“Talvez o mercado especificamente para clubes de vinil já esteja saturado”, opina Rocha. “Você tem uma barreira de entrada forte, que é o toca-discos. Apesar disso, vejo que tem se criado uma rede mais sustentável de produção, lojas, clubes e vendas”.

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