Start-Up Chile/Divulgação
Start-Up Chile/Divulgação

Chile dá lição de inovação para o mundo

Ao mirar o empreendedor, país mostra que são as pessoas, e não os avanços de infraestrutura, a chave para o avanço das startups

Vivek Wadhwa, THE WASHINGTON POST,

27 de junho de 2014 | 07h20

Em 2010 o Chile iniciou um grande experimento inovador: pagou para empreendedores estrangeiros virem ao país e ali permanecerem durante seis meses. Ofereceu a eles US$ 40.000, um espaço de escritório grátis, acesso à internet, conselheiros e uma rede de contatos. O que o Chile pediu em troca era que os estrangeiros interagissem com os empreendedores locais e pensassem em fazer do país sua base permanente.

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Parece bom demais para ser verdade, não? De fato, muitas pessoas acharam a ideia maluca. Mas o Chile estava fazendo uma aposta – de que os empreendedores transformariam a cultura neste campo, ensinando aos nativos como assumir riscos, colaborar mutuamente e criar conexões globais.

O experimento, chamado Start-Up Chile, obteve tanto sucesso que, num artigo publicado em outubro de 2012, a revista ‘The Economist’ apelidou-o de “Chilecon Valley”.

Hoje em Santiago há uma atividade empresarial frenética; estudantes universitários procuram trabalho em startups e não nas grandes empresas; o Start-Up Chile conquistou reconhecimento nos círculos de inovação pelo mundo; e os empreendedores locais estão mais ambiciosos, buscando oportunidades no exterior.

O Start-Up Chile recebeu uma infinidade de candidaturas, mais de 12.268, de 112 países. De acordo com o diretor executivo do projeto, Sebastian Vidal, 810 startups de 65 países foram admitidas ao programa até agora. As primeiras 199 companhias que visitaram o Chile e retornaram aos seus países levantaram US$ 72 milhões em financiamento. Um grupo de 192 empresas que decidiu permanecer no país conseguiu levantar US$ 26 milhões.

Tudo isto é muito bom no campo do empreendedorismo, considerando que o Chile investiu apenas US$ 35 milhões no experimento. Outros países aplicaram centenas de milhões, até bilhões de dólares para criar centros de tecnologia.

Legiões de consultores vêm assessorando regiões na construção de parques de ciências próximas a universidades e oferecendo incentivos financeiros a setores selecionados para se estabelecerem ali, seguindo a teoria dos clusters de Michael Porter, professor de Harvard. Porter observou que concentrações geográficas de empresas interconectadas, fornecedores especializados, provedores de serviços beneficiam determinados setores em termos de custo e produtividade.

Os seguidores de Porter postularam que quando reunimos esses ingredientes podemos fomentar artificialmente a inovação. Mas não podemos. A fórmula não funciona. Os clusters ‘top-down’ neste setor (criados não por iniciativa do empreendedor, mas por incentivo de governos) é uma panaceia dos tempos modernos. E o Chile nos prova que são as pessoas, sobretudo elas, que impulsionam a inovação.

Dezenas de bilhões de dólares têm sido investidos coletivamente por centenas de regiões em todo o mundo nessas iniciativas para desenvolver clusters com apoio governamental. Mas não observamos nenhum sucesso comprovado em alguma parte do mundo. Os clusters se formam com base nas vantagens econômicas e geográficas de uma região e no trabalho duro dos empreendedores. A inovação nasce não da indústria, mas daqueles que assumem riscos – pessoas motivadas.

O objetivo do experimento chileno era saber se conseguiria fazer surgir um centro de tecnologia a partir da importação de empreendedores, oferecendo a eles o adequado apoio em termos de networking e orientação.

O problema do Chile, contudo, é que, como muitas regiões fora do Vale do Silício, o país não tinha uma cultura empresarial que tolerasse o fracasso e incentivasse a partilha de informações e a experimentação. A sugestão, portanto, era que o país importasse o que precisava; procurasse se beneficiar da estupidez dos EUA dando as costas para os mais inovadores empreendedores do mundo.

O Start-Up Chile sobreviveu a duas mudanças de governo e será a base de importantes iniciativas no campo da inovação, segundo Eduardo Bitran, que foi designado recentemente para dirigir a agência de desenvolvimento econômico do Chile, CORFO. O sucesso com certeza serve de lição para todas as regiões do mundo. Para fomentar o crescimento econômico e a inovação, o foco deve ser sobre as pessoas. É preciso oferecer a elas possibilidades, oportunidades e conexões. (TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO)

 

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