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Cerveja zero álcool tem fatia de mercado disputada por pequenas cervejarias

No caso das paulistas Blondine e Dádiva, variedade em rótulos de cerveja sem álcool diversificam cardápio para além da 'opção única' das grandes cervejarias

Sabrina Gabriela, Especial para o Estadão

01 de setembro de 2021 | 10h00

Na contramão da disparada do consumo do álcool durante a pandemia, ou justamente para oferecer uma opção mais saudável num momento crítico de isolamento social, negócios apostam em versões de cerveja sem álcool.

A tendência não é novidade, com grandes marcas investindo em versões álcool zero há anos. Porém, seja por conta de um público mais jovem, como a geração Z, que opta com mais frequência por produtos mais saudáveis e menos calóricos do que seus pais, seja pelo aperfeiçoamento do sabor do produto com novas tecnologias, o mercado cresceu e atraiu novos empreendedores.

Entram na jogada, ao lado de grandes cervejarias, pequenas e médias empresas que querem um pedaço do nicho, como as paulistas Blondine e Dádiva, que lançaram suas versões zero álcool do ano passado para cá.

Mundialmente, a fatia do mercado de cervejas sem álcool pulou de 1,5%, na década passada, para 2,4% atualmente, segundo o Euromonitor. Grande parte desse crescimento foi constatado inclusive em regiões onde o consumo de álcool é alto, a exemplo da Europa. Segundo projeções da gigante AB InBev, ao menos 20% das vendas da empresa devem ser de cervejas com menos de 2,5% de álcool até 2025 - o triplo das vendas atuais.

“O mercado de cervejas sem álcool é uma grande tendência mundial que deve ser explorada por produtores da bebida”, diz Karyna Muniz, consultora de negócios do Sebrae-SP. “Quanto mais nichado o público e mais ousada a inovação, maior a curiosidade despertada na parcela do público que busca novidades. E essas pessoas estão sempre muito ansiosas por inovações.”

A cervejaria brasileira Dádiva começou a investir no mercado lançando, em 2020, opções de cerveja sem álcool e até mesmo sem glúten. “É muito importante para nós conseguirmos atender um público cada vez mais diverso”, diz Luiza Tolosa, sócia-fundadora da Dádiva. “Queremos aprimorar a experiência de quem opta ou precisa optar por um estilo de vida diferente do tradicional.”

A cerveja produzida pela empresa não é exatamente 0,0% de álcool, o que é comum nesse mercado (com álcool residual abaixo de 2%, por exemplo). Um dos empecilhos para as pequenas empresas é que o equipamento necessário para a produção dessa bebida custa cerca de R$ 150 milhões. Assim, a Dádiva desenvolve, por meio de uma fermentação mais longa, produtos com até 0,5% de volume alcoólico, que, de acordo com a legislação brasileira, são considerados zero álcool.

No caso da Blondine, por meio de testes e pesquisas que duraram dois anos, a marca conseguiu colocar de pé bebidas de fato 0,0% álcool por meio de um método próprio que envolve leveduras especiais.

“Quebramos o paradigma de que apenas grandes corporações conseguem chegar ao zero álcool, mostrando que os pequenos produtores são os principais responsáveis por inovações, por criar tendências de consumo”, diz Aloísio Xerfan, CEO e fundador da Blondine. “Nossa principal motivação foi disponibilizar aos consumidores seus estilos preferidos de cervejas artesanais também na opção 0,0%, ou seja, abrir o leque de opções e, ao mesmo tempo, participar de um segmento de nicho até então dominados pelos grandes players.” A marca tem planos de lançar mais seis rótulos de cervejas 0,0% até o ano que vem.

Novo fôlego para o mercado

Para a especialista Fernanda Bressiani, sommelière de cerveja e professora da Escola Superior de Cerveja e Malte, o mercado brasileiro de cervejas sem álcool pode estar prestes a passar por uma ascensão. Segundo ela, a longo prazo, o nicho pode representar um novo fôlego para o mercado, o que sinaliza para a importância de pequenas cervejarias brasileiras apostarem na tendência.

“Quando se fala de experiências sensoriais, apresentar opções diferenciadas e voltadas para públicos específicos pode ser uma boa opção”, afirma Fernanda. “É importante lembrar que o consumidor de cervejas artesanais está sempre disposto a provar novidades e, se essa novidade atender a uma necessidade dele, melhor ainda.” 

Na opinião do professor Otávio Roberto Martins Dantas, do curso de Business do Centro Universitário de João Pessoa, trata-se de fato de uma chance única para pequenos empreendedores. “No Brasil, esse segmento será muito bem-vindo, aliado a alguns aspectos como a grande população religiosa abstêmia que temos aqui, sem falar na Lei Seca”, afirma. “Imagine quando o consumidor descobrir que ele pode consumir essa outra modalidade, baseada em produtos de qualidade e com todas as características da cerveja com álcool?”

Mesmo com a tendência de crescimento do nicho, é preciso notar que ainda há, no Brasil, certo estigma em relação a esses produtos. “Muitas pessoas percebem a cerveja zero álcool como destinada a pessoas com alcoolismo”, diz Douglas Salvador, sócio-fundador do Clube do Malte, site de venda e assinatura de cervejas. “Na Europa, é diferente: a Erdinger Sport, por exemplo, é comumente usada como isotônico após a prática de esportes.”

De acordo com o especialista, o consumidor que entra em seu site procurando por bebidas sem álcool, low carb ou sem glúten apresenta um comportamento peculiar, incluindo diversos produtos do tipo em sua cesta de compras em vez de apenas uma ou duas garrafas. Segundo ele, é um sinal de que o mercado ainda não está bem abastecido de boas opções e há espaço para empreender.

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