Cemitério do Piauí brinca com a morte e triplica as vendas

Antes da campanha na rede social, negócio fechava 30 contratos por mês e, agora, são 80 ou 90

Alessandro Lucchetti, Especial para O Estado de S. Paulo

16 de março de 2017 | 19h06

Recentemente, Diogo Oliveira pegou a foto de um homem com uma pá, cavando o chão, e escreveu: 'Mandou enterrar o passado. Logo eu, o coveiro'. A bricadeira rendeu algumas curtidas, comentários e compartilhamentos, exatamente como outro post que traz a foto de um pão francês e o texto 'o pão a gente fornece. Só precisa trazer o presunto'. Tudo isso assinado pelo Cemitério Parque Jardim da Ressureição.

É assim todo santo dia. Lançada há um ano e meio no Facebook, a campanha do cemitério localizado em Teresina, cria um meme atrás do outro em cima de um assunto tido como tabú para quase todo mudo. E dessa forma pouco ortodoxa, Oliveira vai consolidando o nome do negócio da família, aumentando o volume de vendas.

Segundo Maria das Dores Rocha, gerente administrativa do cemitério, o número mensal de jazigos comercializados há 18 meses raramente passava de 30. Hoje, gira em torno de 80 a 90. Mesmo com os resultados positivos, há certa dificuldade em mensurar qual é o impacto isolado da campanha no Facebook, uma vez que, em paralelo, são desenvolvidas outras estratégias de venda, como a missa campal dominical e o trabalho de 12 vendedores externos, que percorrem a capital piauiense em busca de clientes.

"Acho que (as campanhas no Facebook) têm uma função estratégica, e desperta, desde já, interesse de um público jovem, que curte o humor. Talvez isso represente um impacto futuro de vendas. No momento, é um público mais velho que de fato compra os jazigos", diz Maria das Dores.

Diego Oliveira, filho de Geraldo e seu sócio no empreendimento, pondera que o benefício proporcionado pela campanha no Facebook é suavizar o tema. "Não é fácil trabalhar um cemitério em mídias sociais. É um tabu, e a gente consegue mitigar o peso dele", diz o empresário, formado em administração com especialização em gestão de negócios pelo Instituto Camilo Filho, de Teresina.

A área do cemitério é de 11 hectares, e apenas 50% dele já foi comercializado. O preço dos jazigos varia em ampla faixa. Os mais baratos saem por R$ 4050; os mais caros, com seis gavetas, são comercializados por R$ 19 mil.

O crematório é líder de mercado no segmento em Teresina, segundo Maria das Dores, e há planos de construção de cinco salas de velório e de um columbário, estrutura em que são depositadas urnas com cinzas.

Onildo Filho, o redator publicitário que responde pela campanha no momento, até agora não entende como foi possível obter tamanha repercussão. "Foi surpresa até para a gente. Tivemos  108 mil curtidas na página e 2 milhões de compartilhamentos".

Onildo diz que a campanha original, em maio de 2014, tinha tom mais sério. Era executada por Leonardo Santos, que redigia os textos e trabalhava como designer. Como o engajamento foi considerado decepcionante, Santos alterou o tom da campanha. O pai da campanha deixou a agência incumbida do trabalho, a CJ Flash, de Piauí, no ano passado. Desde então, Onildo assina o trabalho. O publicitário diz que tenta manter uma postura discreta, mas o sucesso da campanha o tirou do anonimato. 

"Tento me esconder, pois o social media não pode aparecer mais do que a campanha, mas é difícil". 

O sucesso se alastra por outras empresas do grupo Geraldo Oliveira. "A gente brinca que o grupo trabalha com toda a cadeia da morte, pois fabrica caixões e realiza os funerais, por meio da empresa Pax Funerais", diz Onildo.

 

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