Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Catalisadora de negócios negros, Feira Preta chega aos 18 anos

Na semana da Consciência Negra, Adriana Barbosa faz um balanço do evento e do empreendedorismo movimentado em torno dele; 18ª edição acontece em 7 e 8 de dezembro em São Paulo

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2019 | 18h37

A pujante cena cultural negra e urbana que agregava música, arte e eventos na Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo, no final dos anos 1990, foi o cenário para a criação de um dos maiores eventos de cultura e empreendedorismo negro da América Latina, a Feira Preta. “Esse contexto fez com que eu me inserisse em um ambiente favorável para conseguir pautar a Feira”, conta a fundadora, Adriana Barbosa. 

A primeira edição do evento aconteceu em 2002, na Praça Benedito Calixto, e contou com 40 expositores negros e público de 5 mil pessoas. Hoje, após 18 anos, a Feira Preta já reuniu 120 mil pessoas, 600 artistas nacionais e internacionais, 700 expositores e soma mais de R$ 5 milhões movimentados com a venda de produtos e serviços.

Para que o evento completasse a maioridade, Adriana conta que enfrentou de tudo: recebeu muito não de empresas na procura por patrocínio, encarou um abaixo-assinado de moradores da Vila Madalena que não queriam que a feira ocorresse no bairro e quebrou financeiramente. Hoje, tem parcerias com Facebook, Mercado Livre, Google e British Council. 

No último dia 2 de novembro, em diversos pontos de São Paulo, foi dada a largada para a 18ª edição do evento, com rodas de conversa, apresentações musicais e culturais, como a festa Afropunk, nesta semana, feita em parceria com o maior festival de cultura negra do mundo. Nos dias 7 e 8 de dezembro, a Feira Preta ocupará o Memorial da América Latina com estandes de produtos, comidas, apresentações culturais e feirão de empregos, com entrada gratuita (programação pelo site do evento).

Abaixo, confira a conversa que o Estadão PME teve com Adriana sobre os 18 anos da Feira Preta e os novos negócios que o evento gerou.

Como você conseguiu formatar a Feira Preta não apenas como evento, mas também um negócio? 

Depois da primeira edição, em que consegui público de 5 mil pessoas sem ter investimento nenhum, entendi que essa era uma oportunidade. Comecei a frequentar o Sebrae e ter acesso a uma rede de agentes culturais da cidade. Com isso, aprendi como escrever um projeto, o que era lei de incentivo, fomento cultural, patrocínio. Foi assim que escrevi um projeto e bati na porta da Unilever, que estava lançando o lux pérola negra (sabonete) na época. Ela foi a nossa primeira patrocinadora, com um valor mínimo. Mas o fato de a Unilever ter entrado ajudou a trazer credibilidade para o projeto.

Já em 2006, quando fiz uma edição em que tivemos que cobrar bilheteria, vi que não sabia fazer gestão. Foi quando recebi um e-mail da Artemisia (organização de fomento ao empreendedorismo de impacto social) e me inscrevi em um processo de aceleração deles. Recebi um aporte de R$ 40 mil e então desenvolvi o plano de negócio da Feira Preta.

Essa virada fez abrir mercado para a Feira? 

A Feira foi para outro nível. Fizemos uma edição no Centro de Exposições do Anhembi e lá só podia entrar empreendedor que emitia nota fiscal. Então, começamos um novo processo, que era investir na formação dos fornecedores. Fiz uma parceria com o Sebrae e decodificava tudo o que o Sebrae falava para os empreendedores. Ficamos cerca de dois, três anos fazendo essa formação. Marcas consolidadas hoje no mercado começaram com a gente, como o Ateliê Xongani. 

Além dos empreendedores, como o evento contribuiu para a projeção da população negra?

O primeiro ponto é que a cultura negra não precisa estar só na periferia, ela pode estar em qualquer lugar. E a Feira Preta foi um catalisador de muitos processos: de desenvolvimento do empreendedor, de empresas, de artistas. Em uma edição, fizemos um encontro com youtubers negras para falar sobre transição capilar e a Salon Line (empresa de cosméticos) participou com uma plataforma de conteúdo, a “Tô de cacho”. Depois desse encontro, eles passaram a enxergar o potencial e criaram uma linha de produtos específica para cabelos crespos. A Feira sempre teve um processo de não ser só música, só teatro, só comida. Mas ser tudo isso ao mesmo tempo. 

Hoje a Feira Preta se transformou em um hub de inovação, o PretaHub. Como foi essa migração? 

Percebi que gostaria de desenvolver a minha própria metodologia, porque entendo que os empreendedores negros carregam um saber ancestral, que passa de geração para geração em seus negócios. Por meio de um recurso de fomento para economia criativa do British Council, desenvolvi a plataforma PretaHub, baseada em uma atuação sistêmica que envolve criação, produção, distribuição e consumo. 

Como é a metodologia? 

Trabalhamos no primeiro dia com o autoconhecimento do empreendedor ou futuro empreendedor. No segundo e terceiro dias, fazemos uma imersão criativa. No quarto dia olhamos para o negócio, focamos em conhecimento de gestão. No quinto dia fazemos um plano de negócios que vai desaguar na Feira Preta. Já formamos 350 pessoas neste ano.

Na prática, como é a atuação do PretaHub? 

Temos cinco programas. O Afrolab, programa de formação para mulheres negras que já rodou 10 Estados. O Afrohub, programa feito em parceria com o Facebook para trazer conhecimentos em relação a internet, auxiliando na utilização de ferramentas para comercializar ou escoar a produção, porque percebemos que boa parte dos empreendedores não têm espaço físico. O Pretas Potências, no qual conversamos com jovens de 18 anos para entender como eles se enxergam como homens e mulheres negras no Brasil. Chamamos 18 jovens de 18 anos para pensar no futuro e que nos deu muitos insights para pensar a Feira neste ano.

Temos também o “Conversando a gente aprende”, que é um mergulho profundo para entender a dificuldade de captação de recursos por pessoas negras nas empresas. Na real, não há negros em departamentos com poder de caneta. Criamos uma metodologia para falar de equidade racial nas empresas pela ótica dos recursos humanos, é o nosso braço de consultoria, em parceria com a Mandacaru Consultoria. E, por fim, a Feira Preta.

Mesmo com formação recente, em 2018, há planos futuros para o PretaHub?

O licenciamento de produtos está em nossos planos. Já fizemos uma coleção colaborativa com a Cavalera. Fizemos um concurso cultural em que dois designers fizeram estampas. E a Cavalera vai lançar uma linha de camisetas com elas. No futuro, quero que o Afrolab possa formar criativos, designers e criadores de conteúdo para licenciar produtos com grandes marcas. Quero desenvolver chinelo com a Havaianas, óculos com a Chilli Beans, linhas de prato com a Spoleto. Como a gente pode incluir essas pessoas junto com as grandes marcas e gerar escala de produção? 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.