Davi Maia
Davi Maia

Castanha-de-caju, dólar alto e veganismo favorecem exportação de marcas

Empresas como NoMoo e Positive Brands exportam laticínios à base de castanha-de-caju para países como EUA, onde mercado vegetal é mais maduro; sustentabilidade é apelo

Juliana Pio, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2022 | 05h00

Depois das marcas de carnes à base de plantas (plant based) expandirem a atuação para outros países, a exemplo da Fazenda Futuro, chegou a vez das foodtechs (startups de alimentação) de leites e derivados vegetais brasileiros entrarem na mira dos mercados internacionais. Marcas como NoMoo e Positive Brands estão exportando produtos para locais como os Estados Unidos, pegando carona na alta global da indústria de proteínas alternativas e se destacando com matéria-prima nacional e produtos clean label (rótulo limpo). 

De acordo com relatório do The Good Food Institute (GFI), o comércio de produtos à base de plantas nos EUA cresceu três vezes mais rápido do que as vendas gerais de alimentos em 2021. O setor teve alta de 6% no ano passado, totalizando US$ 7,4 bilhões. As categorias leite e derivados vegetais foram as que apresentaram maior volume de vendas em 2021: US$ 2,6 bilhões para leites (alta de 4% de 2020 para 2021) e US$ 2,1 bilhões para outros derivados vegetais (alta de 14%).

“Nos EUA, hoje, predominam duas grandes bases de leite vegetal, a amêndoa e a aveia. Existe ainda uma janela de posicionamento nesse mercado para um leite do perfil da A Tal da Castanha, feito de castanha-de-caju, clean label, orgânico e que a gente ainda consegue chegar a um preço competitivo”, diz Felipe Carvalho, um dos fundadores da Positive Brands. A empresa acaba de iniciar a exportação de leites e cremes vegetais para os Estados Unidos e pretende expandir a fronteira para Austrália, Chile e Canadá ainda neste ano.  

Segundo o executivo, para a comercialização de produtos em solo americano, a fábrica precisou de certificação do Food and Drug Administration (FDA), espécie de Anvisa dos EUA, o que requer um investimento alto, por isso, os planos de expansão só vieram a se concretizar neste ano. A marca, fundada em 2015, manteve a mesma identidade visual dos produtos vendidos no Brasil, mas alterou o nome para PlantCo, com o intuito de facilitar a leitura em outros idiomas.

Inicialmente, os produtos serão vendidos apenas em mercados regionais da Califórnia. A ideia da empresa é alcançar cerca de 100 a 200 pontos de venda neste ano. Também será possível adquirir os leites vegetais em todo o território americano por e-commerce próprio da marca e pela Amazon.

“Na Austrália, no Chile e no Canadá, vamos operar com parceiros de distribuição. Mas nos EUA, por ser um mercado mais estratégico, a operação é toda nossa, o que inclui marketing, distribuição, contato com varejista etc.”, explica Carvalho, que precisará investir em torno de US$ 5 milhões nos próximos quatro anos para a expansão internacional. “Com a escala atual de produção, conseguimos atender a demanda ao menos para os próximos dois anos”, complementa.

Dólar em alta ajuda

Somente em 2021, a A Tal da Castanha vendeu 8 milhões de litros de leite vegetal e tem projeção para comercializar cerca de 12 milhões de litros em 2022. O faturamento subiu de R$ 45 milhões, em 2020, para R$ 94 milhões, em 2021. A expectativa é de alta de 45% neste ano. A empresa acredita que o percentual deve crescer ainda mais em 2023 com o avanço das exportações.

“A alta do dólar ajuda. Exportando nós conseguimos ter uma margem de lucro mais atrativa. Mas isso varia bastante. O grande diferencial é o perfil do produto como um todo”, afirma o fundador da Positive Brands. “Vimos, por meio de pesquisa, que o nosso leite de castanha-de-caju teve uma rápida aceitação pela preferência que o consumidor americano já tinha pelo alimento em forma de snack (lanche)”, complementa.

Ainda segundo o executivo, as certificações que atestam a saudabilidade do produto também são vantagens competitivas para a entrada no mercado americano. “Conseguimos chegar com uma base vegetal que o americano gosta, nutritiva e sem aditivos (clean label), além de todas as outras certificações que são muito valorizadas, como USDA Organic (selo orgânico), Big Corporation (B-Corp), Non-GMO Project (sem transgênicos) e Glúten Free (livre de glúten).”

Boas práticas de ESG são diferenciais 

Com mais experiência em exportação, a NoMoo já está presente nos Estados Unidos, além de Portugal, Colômbia, Uruguai, Paraguai e, a partir do segundo semestre deste ano, ampliará atuação para a China e os Emirados Árabes, totalizando cerca de 50 pontos no exterior.

A foodtech brasileira, também especializada em alimentos à base de castanha-de-caju, principalmente queijos vegetais, investiu em torno de R$ 400 mil para iniciar a internacionalização, o que inclui custos com certificações, logística, embalagem, produção etc. Para a China e os Emirados Árabes foram gastos mais R$ 300 mil.

A empresa recebeu aporte de R$ 10 milhões no segundo semestre do ano passado e ampliou a fábrica própria, no Rio de Janeiro. O espaço agora tem capacidade produtiva mensal de até 1.200 toneladas, o que permitirá a aceleração dos planos de exportação. As vendas internacionais representaram 3% do faturamento em 2020 e a previsão é que aumente para 10% em 2022.

Na visão de Marcelo Doin, um dos fundadores da NoMoo ao lado de sua mulher, Nathália Pires, os estrangeiros voltaram os olhos para o Brasil nos últimos anos. “O açaí foi o primeiro a explodir e, agora, a castanha-de-caju está em destaque. Há a impressão de que tudo o que vem do Brasil é mais saudável e tem relação com a Amazônia. É muito positivo surfar essa onda, desde que seja uma proposta autêntica e haja um envolvimento claro da companhia com a sustentabilidade”, afirma. 

Atualmente, 88% dos clientes da foodtech não são veganos, mas pessoas que procuram um estilo de vida mais saudável, os chamados flexitarianos, e intolerantes à lactose. “Além de entregar um alimento nutricionalmente superior e brasileiro, estamos alinhados às boas práticas de ESG – do inglês, environmental, social and governance (ambiental, social e governança), que são muito valorizadas pelo consumidor estrangeiro”, salienta Doin. 

A título de exemplo, os produtos da NoMoo são clean label e contam com selo eureciclo. Para cada embalagem gerada, um volume idêntico de resíduo é reciclado, o que neutraliza a pegada de carbono no meio ambiente. Por mês, a empresa ainda gera uma economia de mais de 31.804 toneladas de CO2* e 10.354 milhões de litros d´água. “Não basta apenas ser um alimento plant based, o consumidor quer saber qual a história da companhia e o que ela faz em prol do planeta”, finaliza o executivo. 

3 dicas para começar a exportar

Por Marcelo Doin, fundador da NoMoo

1. Certificações internacionais

Entenda quais as certificações que o seu público-alvo demanda. Enviar produtos para outro país requer embalagens adequadas, adaptadas ao idioma, e regulações perante o órgão governamental local. Lidar com questões regulatórias é fundamental para não ter o produto retido. Existe burocracia e requisitos no setor de alimentos, como selos e ISO

2. Participação em feiras

Participar de feiras nacionais é importante para fazer networking com players estratégicos do Brasil, como Carrefour e Grupo Pão de Açúcar. Antes de pensar em entrar no mercado externo é preciso olhar para dentro e ver o que já se conquistou entre o público nacional

3. Foco e estratégia

Nem todas as oportunidades precisam ser abraçadas. É muito importante ter foco e estratégia para a longevidade do negócio. A companhia precisa ter caixa para suportar uma operação de internacionalização, que envolve muitos custos

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