Danny Ghitis /The New York Times
Danny Ghitis /The New York Times

Casal de brasileiros faz sucesso em NY vendendo artesanato indígena

Vinicius e Carolina, de 33 e 20 anos, esperam faturar US$ 550 mil com plataforma Incausa em 2017; lucro aferido com artigos indígenas é revertido para tribos

Daniel Lisboa, Especial para O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2017 | 05h00

Do movimento Occupy Wall Street, passando por uma cerimônia espiritual que incluia comer cogumelos, a um negócio que espera faturar US$ 550 mil este ano. Eis a história, pouco usual, do casal de brasileiros Vinicius e Carolina Vieira. 

Vivendo em Nova York, eles são os responsáveis pela Incausa, plataforma de transações online com mais de dois mil itens de diversas etnias e tribos. Hoje presentes em cerca de 350 lojas nos Estados Unidos, ano passado os produtos renderam ao casal um faturamento de US$ 275 mil. Agora acomodada em um espaço novo e mais adequado no bairro do Brooklyn, a empresa se prepara para o desafio de dobrar esse número. 

Há até poucos dias, Vinicius e Carolina dividiam um minúsculo quarto de 20 metros quadrados com todo o estoque. Uma matéria do The New York Times descreveu em detalhes o quanto o casal precisou levar um estilo de vida minimalista para se adaptar. Eles tinham um banheiro só para eles, mas a cozinha era compartilhada com o amigo de Vinicius que morava no andar de cima. Por US$ 1.200 dólares por mês de aluguel.  

O quarto era quase todo ocupado pelas mercadorias e sobrava tão pouco espaço para os itens pessoais que o casal chegou até mesmo a dividir a escova de dentes. Para o The New York Times, Vinicius admitiu que trabalhou tanto ano passado que mal viu a luz do dia. Mas ele não reclama dos esforços para concretizar o sonho que começou depois de um mochilão pela Europa. 

"Vim para Nova York estudar em 2005 e acabei casando. Me divorcei depois de sete anos e saí de carona pela Europa por quatro meses, vivendo do que tinha dentro da mochila. Quando voltei para cá, estava acontecendo o movimento Ocupy Wall Street e, depois de pensar muito e participar, tive a ideia de uma empresa com propósito e função social", conta Vinicius. 

O brasileiro começou o Incausa em 2012. Em uma ida ao Brasil, conheceu Carolina, hoje com 20 anos, em Itamambuca, São Paulo. Ele estava lá para a tal cerimônia e, apesar da distância, o relacionamento se manteve até ela também partir para Nova York em 2014. Eles se casaram em outubro do ano passado e, depois de viverem tanto tempo apertados entre as mercadorias, acabam de se mudar. Agora o casal tem um quarto só para eles e outro imóvel, de 55 metros quadrados, para a Incausa.  

 "Aqui no novo espaço temos quatro divisões. A frente para a rua funciona como showroom, e no centro dele os produtos para entrega são estocados e encaixotados para envio", explica Vinicius. 

A Incausa trabalha hoje com artesanato das etnias Q'eros (Peru) e  Krahô, Kayapó, Mehinako, Yawalapiti e Xavantes, do Brasil. Porém, sem fins lucrativos, segundo Vinicius. O valor conseguido com a revenda desses produtos, com os descontos dos impostos, é revertido diretamente para as tribos que os confeccionaram. O que traz lucro para a empresa é a linha de cerâmicas, tigelas tibetanas, sabonetes, incensos, livros e óleos corporais. A maioria é revendida para lojas dos Estados Unidos, mas já chegaram pedidos do Japão, Taiwan, China e Bahrein. 

A relação com as tribos varia, mas normalmente o contato é feito sem intermédio de associações ou representantes. "No caso dos índios Yawalapiti e Mehinako, por exemplo, existe agora uma liderança com a qual nos comunicamos via e-mail ou Facebook", esclarece Vinicius. "Estabelecemos lideranças locais como base. Elas ajudam a iniciar a colocação das tribos no mercado internacional, conectando o trabalho artesanal com lojas de alto padrao que valorizam o trabalho indigena e continuam o projeto de maneira sustentável." 

Outro exemplo de como funciona o contato entre a Incausa e os artesãos é o dos índios Xavantes. A empresa tem um colaborador, que não é indígena e vive dentro da aldeia, que ganha R$ 500 por mês para empacotar e ajudar na distribuição e catalogação das peças. Trabalho parecido é feito com os índios Fulniôs e Kayapós, enquanto com os Q'eros, do Peru, uma amiga da empresa, que desenvolve um trabalho social com os locais, ajuda na intermediação. 

"A questão que nos leva à frente é qual é a função do capital, o sentido de trabalho e trabalhar. Temos muita energia para construir algo que possa ser um exemplo", diz Vinicius. "Nosso objetivo final é o desenvolvimento de uma plataforma de arrecadação coletiva para fins sociais com comissionamento para arrecadadores e apoiadores."

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