Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Casa Santa Luzia, a mãe dos pequenos empreendedores

Dentre seus 31 mil itens cadastrados, tradicional empório de São Paulo agrega grandes marcas ao lado de minúsculas, que crescem e ganham corpo no mercado com a consultoria do local

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2019 | 17h01

O comportamento de uma mãe – que acolhe, dá conselhos, dedica tempo para o desenvolvimento da cria, comemora seu crescimento e, não menos importante, sabe dizer “não” – pode ser a analogia perfeita para explicar a relação da Casa Santa Luzia com seus pequenos fornecedores. O clássico empório da cidade de São Paulo completará 93 anos no dia 13 de dezembro e é o ponto de venda mais citado por pequenas empresas do setor de alimentação, seja para abrir mercado ou expandir o negócio. A loja, que é filha única, abre as portas para qualquer tipo de produto, no melhor estilo “coração de mãe”. Basta ter CNPJ e estar com a legislação (sanitária e tributária) em dia. 

Dos 31 mil itens cadastrados no Santa Luzia, que fica no bairro dos Jardins, em São Paulo, não há dados sobre quantos são de pequenos fornecedores. Mas Ana Maria Lopes, diretora-geral da loja e membro da terceira geração da família que criou e permanece na administração do negócio, garante que em todos os setores há pequenas marcas nas gôndolas, lado a lado com as grandes. 

“Por ser uma única casa e por estarmos tão perto na operação, temos condições de receber o produto do pequeno produtor com atenção e cuidado. Tenho um pátio de recebimento em um dos metros quadrados mais caros da cidade. O mesmo digo para o estoque. Dessa forma, eu posso dizer os melhores horários e dias para ele me entregar o produto”, conta Ana Maria. Segundo ela, essa é a maior vantagem do Santa Luzia em relação a lojas de rede. “Recebo queijo minas frescal, por exemplo, até quatro vezes na semana. Isso, em termos de perecíveis, faz muita diferença”, completa.

As condições diferenciadas de recebimento e armazenamento são apenas uma das pontas de um trabalho de consultoria feito pelo empório. Bem antes de chegar à loja, ainda no desenvolvimento do produto, a empresa entra com planilhas e profissionais para “fazer junto” com o pequeno, como diz Ana Maria.

“Tenho oito nutricionistas na empresa. Tenho funcionários com mais de 51 anos de casa. Um colaborador que cuida de um setor há 40 anos sabe mais daquele produto do que qualquer outra pessoa. A gente pode chegar com segurança para esse fornecedor e falar: olha, não é por aí”, orgulha-se a diretora. 

Ana Maria anda pelos corredores da Casa Santa Luzia com a reportagem do Estadão PME como se estivesse mostrando álbuns de família. Faz questão de contar pílulas de histórias de pequenas marcas. Mas os detalhes quem sabe mesmo são os vendedores e o gerente da loja. Ao redor de uma mesa, como se estivéssemos em uma conversa após o almoço de família, o gerente Geraldo Lima dos Santos e os vendedores Renato Lima, Eliane Domingues e Juliano Soares contam as histórias das pequenas marcas com intimidade e algumas risadas.

Geraldo, 39 anos de Casa, começou como balconista de frios. Atrás do balcão, viu o mercado de queijos nacionais se desenvolver e destaca um fornecedor, o Serra das Antas, de Minas Gerais. “Dei várias dicas para eles de que no mercado brasileiro não existia o queijo taleggio, variedade que só tínhamos importado da Itália. Faz uns cinco anos que eles desenvolveram esse tipo de produto. O mesmo aconteceu com o gorgonzola.”

Renato, há 26 anos na Casa, relembra passo a passo da história de dona Antonia, que faz, de acordo com todos eles, a melhor batata palha de São Paulo. “Ela era governanta de muitas famílias aqui nos Jardins. Como está com mais de 70 anos de idade, não trabalha mais com isso e encontrou em sua receita de batata palha uma forma de renda”, diz.

A batata de dona Antonia é vendida com o selo Seleção Santa Luzia, o que significa que o time do empório entrou com auxílio de embalagem, rotulagem e código de barras. No caso de dona Antonia, também aconteceu auxílio na abertura e na manutenção do CNPJ.

“Quando a gente acredita no produto, a gente investe mesmo e ajuda. Essa consultoria não tem custo”, afirma de forma categórica Eliane, há 15 anos na empresa e responsável pelo setor de produtos especiais. Ela explica todo o caminho da equipe na seleção e no cadastro de novos fornecedores. “As amostras de produtos chegam para o comitê de compras. As etapas seguintes são análise sensorial e de rótulo, degustação com os gerentes e equipe responsável pelo setor (repositores e compradores).”

Ana Maria ressalta que a degustação da empresa é a melhor pesquisa de mercado para os pequenos. “Temos um público formador de opinião e nossos funcionários os conhecem muito bem.”

Depois da etapa de análises, há mais reuniões para saber se o produto se encaixa ou não no Santa Luzia, se o preço está de acordo, quais são os concorrentes e se há espaço na gôndola para ele.

Renato completa dizendo que existe uma planilha, enviada aos pequenos fornecedores, que explica como ele deve fazer a conta do custo para vender o produto ali. O funcionário ainda ressalta que toda essa consultoria também forma o fornecedor para o mercado, não apenas para a Casa. “A gente não amarra o pequeno. Queremos o produto dele aqui, mas ele precisa vender para mais empresas e ficar forte. Assim, se eu aumentar o pedido, ele vai conseguir me entregar.”

De chocolate artesanal a kefir, de novos comportamentos alimentares, como produtos veganos e sem lactose, a proteínas isoladas. A Casa Santa Luzia não parou no tempo. Ana Maria destaca que o endereço tem “bibliotecas” de produtos, como azeites e cafés especiais. Mas também tem produtos quase esquecidos pelo público, como geleia de mocotó e até groselha (essa, no caso, é orgânica).

“O importante é o cliente pedir e encontrar. E os pequenos fornecedores nos ajudam nessa missão”, finaliza.

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