Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Camiseta com causa: um negócio que nunca saiu de moda

Che Guevara e Rolling Stones dão lugar a campanhas atuais, que vão desde Marielle Franco a representatividade negra e feminismo, em marcas como Piticas, Chico Rei, El Cabriton e Negrei; cultura geek ainda é hit

Fernando Victorino e Nathalia Molina, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2020 | 14h00

Especiais para o Estado

Imortalizada pela lente de Alberto Korda, em 1960, a clássica foto de Che Guevara é uma das mais reproduzidas mundo afora. Ícone tão presente em camisetas quanto a língua e os lábios desenhados por John Pasche para os Rolling Stones, uma década mais tarde. O semblante firme do guerrilheiro e o deboche da sexagenária banda de rock inglesa ainda traduzem o comportamento de quem os veste e geram dividendos a quem os vende, ao lado de novos ídolos e causas.

De feminismo a lances de futebol, de negritude a super heróis: tem sempre uma camiseta para estampar e alguém para levá-la como bandeira. “Eu gosto de cultura brasileira, de literatura. A Chico Rei tem grandes parceiros, como Milton Nascimento, Alceu Valença, Lenine, SOS Mata Atlântica. Quando estou conectado com isso, sei do que quero falar por meio das camisetas. A gente espera que a Chico Rei seja um caminho para a expressão dos nossos clientes”, afirma Bruno Imbrizi, criador da marca.

Nascida em 2008, a Chico Rei une congado com pop art. “Como estilo, eu buscava Andy Warhol e mesclava com o que encontrava da cultura mineira.” Atualmente, a empresa contabiliza 40 artistas convidados, que já desenvolveram mais de 1,2 mil estampas – preços a partir de R$ 59,90. “O primeiro ano foi só venda para loja física, e não recebi de nenhuma.”

A inadimplência empurrou a marca para a internet. “De lá para cá, a Chico Rei saiu do meu quarto para virar uma empresa com pouco mais de 100 pessoas trabalhando. Somos líderes no mercado online brasileiro.” Cerca de 400 mil clientes de 3,7 mil cidades botaram fé na Chico Rei. “A gente espera vender neste ano R$ 22 milhões. Em 2019, foram R$ 11,5 milhões.” Os consumidores compraram 58 mil camisetas só em agosto de 2020.

A empresa nasceu sob o signo da liberdade conquistada pelo príncipe do Congo trazido ao Brasil como escravo, no século 18. A lenda de Chico Rei e sua luta para alforriar a si mesmo e a outros negros inspiraram a marca e as primeiras estampas. Serviram de base ainda para o selo Camisetas Mudam o Mundo, iniciativa que levou parte da unidade fabril para dentro de uma penitenciária em Juiz de Fora. “Eles são assalariados e, a cada três dias de trabalho, ganham um de liberdade”, explica o diretor da confecção.

Na marca paulistana El Cabriton, “Defenda o SUS” é uma das estampas mais vendidas. Faz parte da coleção Cesta Básica, lançada em abril, na qual 10% das vendas vão para o projeto Acesso às Famílias, em Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo. “Nossa empresa tem a sorte de trabalhar com artistas tão talentosos. Por sua sensibilidade aflorada, conseguimos estampas que comunicam bem o sentimento das pessoas nessa situação doida por que estamos passando”, diz Érica Abud, à frente da marca com o marido, Leandro Domenico. Outro sucesso de público também é novidade: o modelo com a frase feminista “sabe oq cairia bem hj? o patriarcado” (R$ 68).

O casal sempre viu camisetas como expressão. “Você tem de gostar muito daquilo que está levando no peito. A gente criou a El Cabriton há 14 anos porque não achava nada que tivesse a cara da gente”, conta Érica. Aberta três anos depois, a loja na Rua Augusta trocou muito de roupa — a fachada já recebeu cerca de 150 grafites de convidados. As tribos da rua paulistana também encontram diversidade nos cabides, em modelos sobre filmes (caso de Bacurau), de inspiração gay pride ou com ironia, como “Quem não odeia ninguém não tem coração”, da coleção Craque Daniel.

Nicho

O segmento de camisetas no Brasil de fato nunca saiu de moda. E virou um bom negócio com marcas autorais e fabricantes licenciados, trabalhando de modo artesanal ou em escala industrial. “O processo ainda é de serigrafia, mas é feita por uma máquina alemã que roda 700 camisetas por hora, em até 24 cores, o que é uma coisa bizarra para esse mercado”, afirma Felipe Rossetti, CEO da Piticas.

Ele e o irmão, Vinicius, passaram a adolescência em Cincinnati, nos Estados Unidos, onde o pai foi trabalhar. Da cultura americana, trouxeram na volta para o Brasil a paixão por “comics” e as graduações em empreendedorismo e finanças. A dupla viu o universo pop como um nicho no País, mas teve dificuldade em negociar com as licenciadoras, devido à pirataria de personagens no Brasil. A história mudou no acordo com a Nickelodeon, em 2012. “A gente licenciou Bob Esponja, Patrick e Lula Molusco. Até então a gente vivia de camisetas autorais”, conta o CEO.

Referência geek, a Piticas virou um dos players da Comic Con, a maior feira brasileira de cultura pop, realizada desde 2014. No ano seguinte, fechou contrato de licenciamento com a Disney. “A gente percebeu que tinha um baita negócio nas mãos e que era preciso profissionalizar.” Isso exigiu estruturação da empresa, que atingiu R$ 210 milhões em faturamento de sell-out em 2019.

As duas fábricas em Guarulhos, na Grande São Paulo, produzem 22 mil camisetas por dia, com referências que vão do game League of Legends ao bruxo Harry Potter – preços desde R$ 49,90. “Estamos em todos os Estados. São 460 lojas, sendo 280 quiosques”, diz o CEO. Segundo ele, o fechamento de 95% dos pontos de venda por causa da pandemia do novo coronavírus mudou o foco. “Nosso e-commerce explodiu, está fazendo dez vezes o que fazia antes.”

Desde o acordo entre Piticas e Disney, detentora de marcas como Star Wars e Marvel, o Hulk tem emprestado sua força incrível aos negócios dos irmãos Rossetti. Lançado em 2015, uma estampa do personagem vendeu até hoje 200 mil unidades, média de 2,6 mil por mês. “A gente é muito marcado no Instagram com as pessoas fazendo a pose do Hulk. Elas se sentem representadas.”

Representatividade é a essência da carioca Negrei, criada em 2018 para a Feira Preta. “Todos os nossos produtos são pensados para os negros. O protagonismo tem a pele preta, do desenvolvimento à tomada de decisão”, afirma Rafael Lima, conhecido como Don. Frases tipicamente racistas têm sua lógica invertida e estampada sobre malha branca ou preta; o preço é único, R$ 69,90. Microempreendedor individual, ele vende em torno de 100 camisetas por mês e tem faturamento anual médio de R$ 80 mil.

A estampa que mais sai é “Não sou racista, tenho até 1 camisa branca”. “Tem uma pegada sarcástica. Você pode ter relacionamento com um negro e ainda sim, quando é pego tendo atitude racista, usa essa pessoa como álibi”, diz Don. A série com a expressão #ÉCoisadePreto usa verbos para falar de trabalho, por exemplo, “advogar” e “lecionar”. “É coisa de preto você desempenhar com excelência sua profissão”, afirma.

Formado em design de produto, Don encara a Negrei como um espaço de produção de conteúdo. “Por mais que alguns textos do Instagram da Negrei sejam densos, é um feed harmônico. Não queremos que o perfil seja um encarte, em que você vê só camisa.” 

Artesanal

O conteúdo das estampas de Hamilton Alem e de Rogerio Andrade refletem a história profissional de seus donos. Andrade era diretor de arte da revista Placar quando virou sócio da Quatro Linhas, três anos atrás. “Eu via aquelas camisetas inglesas com temas de futebol e achava que não era um mercado explorado no Brasil”, conta. Lances decisivos, que deram ao São Paulo e ao Corinthians os títulos mundiais de 2005 e 2012, respectivamente, foram imortalizados pelo cartunista Milton Trajano, autor de dois modelos populares. As peças da Quatro Linhas custam a partir de R$ 78.

Já a ligação com movimentos populares levou Alem a produzir estampas revolucionárias. Criada em 1989, a Dom Camisetas é um estúdio que desenha 90% dos modelos e terceiriza a confecção. “Estivemos em todos os fóruns e congressos de trabalhadores. O último grande evento neste ano foi o Dia Internacional da Mulher, na Avenida Paulista com a nossa banquinha”, afirma Alem, formado em Comunicação Social. “Estamos segurando preços há uns cinco anos. Na internet, o nosso produto é o mais barato.” A camiseta tradicional sai desde R$ 38.

Inspirada por Dom Quixote, a marca produz um modelo com personagem de Cervantes há 30 anos, assim como outro com a imagem de Che. Na militância, Alem virou amigo de Marielle Franco. Camisetas com a vereadora do PSOL, assassinada no Rio em 2018, e do educador Paulo Freire vendem cerca de 30 unidades por mês. “Quando começou essa perseguição recente ao Paulo Freire, fiz mais duas estampas dele, que estão entre as mais vendidas.”

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