EFE/Fernando Bizerra
EFE/Fernando Bizerra

Cai o número de empreendedores iniciais na pandemia, diz pesquisa de Sebrae e GEM

Saldo leva em conta que, enquanto empresas nasceram na esteira do desemprego, outras fecharam com crise; avanço de vacinação faz crescer empreendedorismo de oportunidade

Juliana Pio, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2022 | 18h03

Relatório anual Global Entrepreneurship Monitor 2021 (GEM), realizado no Brasil com apoio do Sebrae e pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), mostra que a taxa de empreendedores iniciais caiu entre 2020 e 2021. A última pesquisa, feita antes da pandemia, indicava que em 2020 o Brasil teria a maior taxa de empreendedores iniciais em 20 anos

De acordo com o estudo, divulgado nesta quinta-feira, 24, a Taxa de Empreendedorismo Inicial é composta por empreendedores ‘nascentes’ (quem realizou alguma ação visando ter um negócio ou abriu um em até três meses) e ‘novos’ (com até 3,5 anos de operação). O indicador geral sofreu queda de 2,4 pontos percentuais, entre 2020 e 2021, passando de 23,3% para 21%. Por outro lado, é que os brasileiros nunca estiveram tão interessados em abrir o próprio negócio

“Toda vez que há uma crise econômica, os empreendedores iniciais tendem a crescer. Mas a pandemia da covid-19 trouxe um cenário de dimensão não imaginada, diante das restrições de circulação, com lockdown e paralisações das atividades econômicas”, diz Marco Aurélio Bedê, economista e analista de Gestão Estratégica do Sebrae, em entrevista ao Estadão. “Tínhamos a informação de que muita gente queria empreender, baseada nos últimos 22 anos de pesquisa. Mas, diante de um quadro de profundas restrições, isso não se viabilizou”, complementa.  

Enquanto o grupo de negócios nascentes manteve o recorde de crescimento alcançado em 2020, com uma taxa de 10,2%, o dos novos caiu de 13,4% para 11%, entre 2020 e 2021. Isso significa que há muitas pessoas procurando o empreendedorismo como alternativa de ocupação, na chamada ‘porta de entrada’, seja formal ou informal. Mas, ao mesmo tempo, metade das que abriram um negócio nos últimos anos não conseguiu se manter no mercado. 

“Entre 2017 e 2019, muitas pessoas começaram um empreendimento. Com as restrições impostas pela covid, algumas foram duramente impactadas e fecharam seu negócio. Outras, conseguiram se manter e pularam para a faixa de empreendedores estabelecidos (com mais de 3,5 anos de operação)”, explica o economista do Sebrae. 

Os números refletem bem o impacto da pandemia: entre 2019 e 2021, houve uma redução de 4,7 pontos porcentuais entre os empreendedores novos, a maior queda bienal da série histórica da pesquisa, iniciada em 2000. Vale ressaltar ainda que a queda no total de iniciais também puxou a taxa geral de empreendedorismo no País, pelo segundo ano consecutivo, de 38,7% para 30,4%, no mesmo período, valor semelhante ao de 2012. Com isso, o número de empreendedores reduziu de 44 milhões para 43 milhões, entre 2020 e 2021. 

“Está ocorrendo uma grande reestruturação. Muita gente entrando, muitas saindo e outras conseguindo crescer, o que confirma uma acomodação do empreendedorismo”, afirma Bedê. “A pandemia está trazendo um volume enorme de pessoas para começar um novo negócio como opção de emprego e renda, porque foram dois anos com a maior taxa de empreendedorismo nascente”, avalia. 

Cresce número de negócios com mais de 3,5 anos no País

O GEM 2021 foi realizado em 50 países. No Brasil, foram feitas duas mil entrevistas com pessoas entre 18 e 64 anos e com 46 especialistas, no período de julho a outubro de 2021. De acordo com o relatório, o número de empreendedores brasileiros à frente de um negócio com mais de 3,5 anos voltou a crescer no País, passando de 8,7%, em 2020, para 9,9%, em 2021. Porém, ainda distante do total de 2018 (20,2%), quando atingiu seu auge. 

Atualmente, 14 milhões de pessoas adultas podem ser classificadas nessa categoria. Com esse aumento, o Brasil subiu da 13ª para a 7ª posição no ranking de Empreendedores Estabelecidos, entre outros 50 países, em relação a 2020. “Muitos dos empreendedores nascidos entre 2017 e 2019 conseguiram superar a crise sanitária e pular para a faixa de estabelecimentos”, afirma o economista do Sebrae.

Segundo ele, o dado é reflexo de medidas como maior acesso a crédito, por meio do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), e de programas como Auxílio Emergencial e Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda (BEm). “Essas medidas adotadas ao longo de 2020 e 2021 colaboraram bastante para que metade dos empreendedores nascidos a partir de 2017, principalmente os pequenos, conseguissem permanecer no mercado”.

Necessidade versus oportunidade

Embora o empreendedorismo por necessidade tenha caído entre 2020 e 2021, ainda é a terceira maior taxa da série histórica. Ano passado, 48,9% dos empreendedores iniciais abriram um negócio por necessidade, frente a 50,4% em 2020, por motivos como desemprego e o grande número de restrições.

Por outro lado, com o avanço da vacinação e do arrefecimento das medidas restritivas, o chamado empreendedorismo de oportunidade cresceu 10 pontos percentuais, entre 2020 e 2021, chegando a 76%, voltando a motivar mais da metade dos empreendedores iniciais. Estes são compostos, em sua maioria, por: homens (54,4%); com menos de 3 salários mínimos (57%); entre 25 e 44 anos (62%); e ensino médio completo (47%). 

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