Felipe Rau/Estadão
Délcio Klem da Silva e Sandra Raquel Horsts, pequenos produtores de café especial do Sítio Serra dos Lopes, localizado em Manhumirim (MG). Na safra de 2018, o casal produziu 80 sacas de café especial Felipe Rau/Estadão

Cafeicultores das Matas de Minas aprimoram pós-colheita de olho em qualidade

Novas práticas no campo, como seleção, separação em lotes e secagem do café em terreno suspenso, resultaram em cafés com mais de 84 pontos de qualidade

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2019 | 05h09

MANHUMIRIM (MG) - É com voz mansa que o casal Délcio Klem Lopes e Sandra Raquel Horsts conta a curta trajetória da produção de cafés especiais na propriedade, localizada em Manhumirim. Da terceira geração de cafeicultores da família, Délcio herdou do pai pouco mais de um hectare de terra, no qual cultiva 16 mil pés de café em altitudes que vão de 915 m a 1.030 m.

Mesmo com a fama antiga de ‘produtor de café bom’, foi apenas no ano passado que começaram a produção do grão especial. “No começo pensamos que seria possível produzir entre uma e duas sacas no máximo”, conta Sandra. Da produção de 130 sacas, 80 atingiram classificação de café especial, com 84 e 87 pontos (o último, um microlote de 28 sacas). 

“Pedimos a ajuda de um técnico do Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural). Ele nos auxiliou na coleta do solo, leitura dos laudos e informou o que a terra estava precisando”, conta Sandra. Com a lavoura preparada, os passos seguintes foram iniciar o processo de seleção e separação dos grãos e a construção de terreiros suspensos para a secagem do café. Por fim, o casal mergulhou no universo da bebida e fez cursos de degustação e classificação, para entender a diferença da bebida na xícara. Ela ainda conta também fez um curso de torra e pretende um dia torrar o próprio ‘cafezinho’. 

Apesar de aceitar o desafio de produzir cafés especiais, Délcio faz comentários com a racionalidade de quem produziu commodity a vida toda. “Para cada saca de café, utilizamos seis de adubo. Além disso, ainda há a barreira da comercialização. Vendemos 30 sacas de café 84 pontos como commodity no ano passado”, lembra. “Estamos em busca de parcerias, desses compradores”, completa Sandra. 

De acordo com o casal, o técnico do Senar avaliou que, tendo a produção total como referência, o valor da saca especial do casal chegou a R$ 518, cerca de R$ 120 mais caro que o commodity.. “Se tivesse sido um ano bom de preço de commodity, nosso ganho teria sido maior ainda”, diz Sandra. Para o microlote de pontuação 87, um comprador chegou a pagar R$ 700 a saca, e levou o grão para a Austrália. 

Para a venda direta ao consumidor, o casal comercializa o café torrado e moído com o selo das Matas de Minas pelas redes sociais. Ao lembrar de todo o processo, Délcio afirma que a única coisa que sabia fazer era colher café. “Foi uma virada muito grande. Estamos nos adaptando.”

Até 1.200 m de altitude em Alto Caparaó 

A lavoura de 13 mil pés de café do casal Renato e Joice Aguiar fica em frente ao Pico da Bandeira, ponto mais alto do Estado. Das 130 sacas produzidas em 2018, 20 foram de café especial com 85 pontos. O casal despertou para este universo ao observar o boom do mercado na região, entre 2015 e 2016, quando começaram a participar de concursos. 

“No concurso de 2016 ficamos em 16°. No ano seguinte, pulamos para o 12° e ano passado ficamos em 8°.’, orgulha-se Renato. Em dezembro de 2018, os cafeicultores tiveram o primeiro café certificado com o selo das Matas de Minas. O foco das vendas é o mercado interno, em supermercados da cidade, e também direto ao consumidor, pela internet.

“Mesmo a região sendo conhecida pelas lavouras de café, quase não se encontrava café local para a venda. Apostamos nesse mercado”, diz Renato.  Uma pequena quantidade foi para a região de Saragoça, na Espanha, com saca a R$ 600, negócio que teve ajuda do parceiro de torra do casal.

Sobre o despertar da região para a produção de grãos especiais, Renato afirma que essa produção está nas mãos dos pequenos. “Aqui na região, por conta do solo e da altitude, quem cuidar um pouco mais da lavoura vai fazer um café especial”, acredita Renato, que lembra que a maior dificuldade é vender o grão, e não produzi-lo. 

O casal não abre mão do processo artesanal. "Não dá pra explodir demais. Estamos administrando isso. A intenção é continuar artesanal", afirma Joice. Sobre o selo das Matas de Mina, eles acreditam que foi fundamental para fomentar e estimular a produção dos cafés especiais. "Ajuda demais. A pessoa que está comprando o nosso café quer saber de onde ele vem, quer conhecer nossa história. Com a industrialização, o café perdeu a referência do regional. Estamos voltando para isso." 

Investimento em café de alta pontuação para prêmios 

João Luis Vianna é a terceira geração de cafeicultores da família do Sítio Sapucaia, em Manhumirim. Com cerca de 300 mil pés de café que chegam a altitude máximo de 960 m (a média é de 800 m), o produtor demorou para se abrir para esse mercado.

"Eu sempre me esquivava. Participava de grupos e associações, mas nunca me animei a começar de fato”, conta. Porém, o cafeicultor já desconfiava da vocação para o grão especial da lavoura. "Sempre separamos o melhor café da safra para nosso consumo e para alguns amigos. Todos diziam que eu precisava investir mais nele", diz. 

Foi a criação do selo das Matas de Minas que o pontapé inicial aconteceu. "Antes, eu não tinha um laudo, não tinha certeza da nota. Depois do selo, você pode mostrar o café com o certificado de origem e qualidade e isso traz uma segurança muito maior pra gente. Foi fundamental para eu me animar mais", conta. 

Em 2018, das 2.500 sacas produzidas, 20 foram de cafés especiais: 10 com nota 83 e 10 com  nota 84. Os lotes foram selados em fevereiro deste ano. João acredita que, mais do que o mercado de especiais, o selo também dá visibilidade para o commodity. "Novos compradores se aproximaram. Isso faz com que a gente consiga melhorar o preço médio." Para produzir café especial, ele diz gastar 50% a mais do valor que gasta para fazer o commodity. 

Mesmo com um pouco de receio, novas empreitadas estão no radar do produtor, como a produção de cafés fermentados, o chamado 'honey'. “Pretendo fazer nanolotes, entre 30 e 40 quilos, para me inscrever em concursos.  Isso é uma forma de divulgar e fazer marketing."

Cafeteria e torrefadora no castelo

Os irmãos Davi e Salomão Charbel seguiram o curso natural de trabalhar com o café, mas com um pequeno desvio de rota. Filhos de produtores de Manhuaçu, os irmãos deixaram as lavouras para atuar na outra ponta: a torra e a comercialização do grão pronto para o consumo. 

Quando Davi foi estudar relações internacionais em Belo Horizonte, vendia para professores e amigos alguns lotes de cafés especiais que garimpava na cidade. Foi então que enxergou uma fatia do mercado. “Decidimos fazer cursos para nos especializar e, no fim de 2016, criamos a marca e o clube de assinaturas Café Salomão”, conta Davi, que é a ponta operacional enquanto Salomão se dedica às avaliações de amostras e à torra dos cafés selecionados. Apenas cafés acima de 85 pontos são comercializados por eles. 

O próximo passo foi conquistar a xícara dos turistas e moradores da região. No fim do ano passado, inauguraram o Castelo do Café, cafeteria e torrefadora com 1.400 m² e que prepara a bebida em seis diferentes métodos de extração. “Nossa estrutura também comporta o beneficiamento do café, passando pela torra até a xícara. Em breve vamos fazer todos os processos aqui”, conta Davi. O local recebe cerca de 300 pessoas por dia.

* VIAGEM A CONVITE DO SEBRAE-MG

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Café de altitude em Minas Gerais ganha selo de origem

Região das Matas de Minas foca em café especial de alta pontuação para agregar valor, estimulando pequenos agricultores a seguirem no campo

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2019 | 05h10

MANHUAÇU (MG) - A paisagem bucólica de montanhas com delicadas pinceladas de vermelho e amarelo, cores que representam variedades de grãos de café, é o clichê que melhor ilustra a região das Matas de Minas, no leste do Estado. Ao percorrer as estradas curvilíneas que levam aos 63 municípios da região, o cenário se estende por 278.811 mil hectares.

As lavouras de café de altitude (chegam a 1.200 metros) representam a segunda maior região produtora da variedade arábica em Minas Gerais: foram 7,5 milhões de sacas em 2018 (23% da produção do Estado). Mais do que commodity, nos últimos seis anos, com a criação de selos e marcas coletivas, a região busca se posicionar no País com a produção de cafés especiais. 

A região conta com 36 mil produtores. Cerca de 80% deles são pequenos, com lavouras que não ultrapassam 20 hectares. Como o café é de altitude, não há como mecanizar a colheita. Essa composição, que exalta a vocação para a agricultura familiar, também mostra a dimensão do desafio de conversão para novas práticas de cultivo e pós-colheita, responsáveis por transformar o grão de commodity em especial.

“Para o pequeno produtor, principalmente o de montanha, a saída viável para sobreviver da lavoura é produzir café de qualidade. No commodity, o valor de venda está muito baixo”, diz Vanusia Nogueira, diretora da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA). Segundo a entidade, em 2018 o País produziu 10 milhões de sacas de cafés especiais, das quais 9 foram exportadas. A entidade estima maior retenção para consumo interno no País em 2019, com 1,2 milhão de saca.

O Brasil é o maior produtor mundial de café. De acordo com o IBGE, a safra total de 2018 foi de 3,6 milhões de toneladas.

Para corroborar qualidade

Para fomentar o empreendedorismo na região, em 2013 foi fundado o Conselho das Entidades do Café das Matas de Minas, que reúne 14 entidades (entre cooperativas de crédito e órgãos de assistência ao produtor rural) e é o responsável pela criação do selo Matas de Minas. No ano passado, o conselho entrou com pedido de Indicação Geográfica no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) para o Matas de Minas, já liberado em caráter preliminar.

Na região, para receber o selo, o café deve atingir classificação mínima de 80 pontos de acordo com avaliação de um qgrader (especialista em classificação de cafés). Além de permitir a rastreabilidade do grão e chancelar a qualidade, o selo leva um QRCode, que mostra ao comprador a história do produtor, as características sensoriais do café, premiações em concursos e a pontuação. 

Desde a implementação do selo, 150 produtores foram cadastrados para vender o café com a certificação e 500 produtores foram atendidos pelas equipes técnicas. O Conselho estima que 30% deles passaram a se dedicar a café especial após a iniciativa. 

Em 2018, foram vendidas mil sacas de café verde (não torrado) selado. Para a venda de café já embalado, torrado e moído, foram confeccionados 13.900 selos. O Conselho ainda estima que 1,2 milhão de sacas de cafés especiais foram produzidas na região das Matas de Minas, cerca de 20% de toda a produção da região

O diretor da organização, Ari de Oliveira Filho, diz que o trabalho de convencimento com os produtores foi o maior desafio nesses seis anos. “São gerações que cultivam o café do mesmo jeito há décadas.” O diretor ainda diz que a maior mudança tem de ocorrer da “porteira para fora”. “Os cafeicultores estão abertos para melhorar as práticas no pós-colheita, com maior cuidado na seleção e na secagem. Mas ainda é difícil pensar na comercialização.” 

A analista do Sebrae-MG para a microrregião de Manhuaçu Ereni Constantino diz que a expectativa é aumentar em 30% a comercialização de café selado em 2019. “Também queremos aumentar a qualidade, fazendo com que os produtores participem de prêmios e concursos para ganhar certificações e aumentar a visibilidade da região.”

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Cacau na Bahia vive renascimento após 30 anos com vassoura-de-bruxa

Região, que ganhou selo de Indicação Geográfica em 2018, vê potencial para ampliar porcentual de cacau superior na produção e desenvolver o mercado de pequenos empreendedores de chocolate

Ana Paula Boni, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2019 | 05h08

ILHÉUS (BA) - No ano em que se completam 30 anos da introdução da doença vassoura-de-bruxa em lavouras de cacau no sul da Bahia, a região - que segue convivendo com o fungo - vive uma fase de renascimento. Com produção reduzida a quase um quarto do volume que se produzia na década de 1980, é constante a busca por um produto de maior qualidade e maior valor agregado. Em 1986, ano recorde da produção, a Bahia fez 395,5 mil toneladas de cacau, segundo dados do IBGE, numa época em que o Brasil era o segundo maior produtor mundial (atrás da Costa do Marfim); já na última safra, de 2018, foram 122 mil toneladas na Bahia (e o Brasil segue em sexto no ranking de produção, segundo dados da FAO).

Diversos atores vêm contribuindo nos últimos anos, com laboratório de análises de cacau e selo de Indicação Geográfica, para ajudar a estimular a região, aprimorar o beneficiamento do cacau e desenvolver a cena de muitas e pequenas marcas de chocolate bean to bar (feitos da amêndoa à barra).

Impulsionados por uma crescente demanda mundial desse tipo de chocolate feito em menor escala, com cacau de origem e maior qualidade no processo, cacauicultores do sul da Bahia têm a oportunidade de ampliar o percentual das amêndoas de cacau superior que saem das terras nos arredores de Ilhéus. Hoje, dentre os estimados 25 mil produtores da região, 97% do cacau ainda é commodity, segundo dados de estudo realizado pelo Sebrae da Bahia em parceria com o Instituto Arapyaú, divulgado em fevereiro deste ano.

O estudo levou quatro meses para ser feito com análise de dados, além de entrevistas com produtores locais e material recolhido em viagem de uma comitiva para a costa oeste dos Estados Unidos, onde a cena do chocolate bean to bar é referência. E, se o mundo está de olho em produtos gastronômicos cada vez mais rastreáveis, com origem e características sensoriais preservadas, a Bahia quer pegar carona.

“O consumidor está demandando produtos mais naturais, saudáveis, com menos ingredientes. Isso acontece no café, no vinho, no azeite e também no chocolate. Mas somos empresas pequenas e a grande cadeia varejista tem de entender isso. Não dá para cobrar da gente o que se cobra da Nestlé”, defende Pedro Magalhães Neto, presidente da Chocosul (Associação de Produtores de Chocolate do Sul da Bahia), que viajou para os EUA em janeiro com o Sebrae ao lado de outros produtores.

Neto de cacauicultor, Pedro deixou o emprego como tesoureiro em grande empresa de peças automotivas para voltar, em 2009, à fazenda da família, a Lajedo do Ouro, em Ibirataia. Em 2012, fez a primeira exportação de cacau fino para a França. Em 2015, com o aprimoramento de seus cultivos e depois de fazer cursos de chocolate, lançou a marca VAR, cuja pequena fábrica foi construída dentro da fazenda num espaço de 60 m2.

Hoje, sua fazenda produz 75 toneladas de cacau por ano, sendo ao menos 30% de cacau de alta qualidade, que vale pelo menos o dobro do commodity e alimenta o mercado dos pequenos empreendedores de chocolate. Exporta metade disso e a outra parte vende para marcas como Casa Lasevicius, de Bruno Lasevicius, em São Paulo - os dois são parceiros também na Associação Bean to Bar Brasil.

Com o cacau que vai para a sua marca VAR, Bruno faz em média 110 kg de chocolate por mês - seu faturamento em 2018 como chocolateiro ficou em torno de R$ 150 mil.

Indicação geográfica

Apesar de já estar alguns passos à frente da média dos produtores da região, Pedro integra um grupo cada vez mais crescente em busca de cacau de qualidade superior. Alguns deles agora apostam também no selo de Indicação de Procedência (IP) concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), em 2018, para as “amêndoas de cacau do sul da Bahia”.

O selo é uma das duas modalidades de Indicação Geográfica no Brasil (a outra é a Denominação de Origem), que juntas somam 61 selos desde 2002, reconhecendo produtos como os vinhos do Vale dos Vinhedos (RS) e o queijo da Serra da Canastra (MG).

Mas não é só estar no sul da Bahia para ter o direito ao selo do cacau: critérios de origem e qualidade são analisados a cada lote pela Associação dos Produtores de Cacau do Sul da Bahia (ACSB), detentora do selo no Inpi. A ACSB, que reúne 16 entidades e representa mais de 3 mil produtores, é a responsável por formulários e visitas técnicas às fazendas.

Para receber o selo, o produtor deve cultivar o cacau em sistema cabruca (em meio à mata) ou agroflorestal, com baixa carga de defensivos, e deve ter amêndoas com fermentação mínima de 65%, umidade de até 8% e aroma livre de odores como fumaça, entre outros quesitos. Ou seja, aqui não entra o commodity.

“Os produtores estão reaprendendo a fazer. Porque, em 30 anos, a gente tem uma geração perdida, que desaprendeu a fazer cacau bom por causa da vassoura-de-bruxa”, conta o engenheiro agrônomo Cristiano Santana, diretor-executivo da ACSB.

Segundo ele, em um ano, 18 produtores entraram com o pedido do selo de Indicação Geográfica na associação, e 11 deles já o receberam, como Lucas Arléu (que vende amêndoas para marcas como Gallette) e Henrique Almeida (que faz o próprio chocolate, da marca Sagarana).

Depois de passar pela validação da ACSB in loco, o produtor tem sua saca lacrada e ganha um QR code com todas as informações de origem e qualidade do cacau. Também a partir de validação da associação, marcas de chocolate podem levar esse QR code até a embalagem, novidade estreada pela Sagarana neste mês, em Ilhéus.

“Quando o produtor pede o selo, ele melhora a imagem dele e ajuda a fomentar a região. Porque passa de commodity para cacau premium”, comenta Ana Carolina Menezes Argolo, analista de negócios do Sebrae-BA e gerente do projeto “Cacau e derivados da mata atlântica”.

Na região, estima Carolina, são cerca de 30 pequenas marcas de chocolate, que podem receber a ajuda do Sebrae para validação de planos de negócios, consultoria de gestão e práticas agrícolas, além de criação de marca e rotulagem. 

* VIAGEM A CONVITE DA ASSOCIAÇÃO BEAN TO BAR BRASIL

 

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Análises laboratoriais impulsionam produção no sul da Bahia

Inaugurado em 2017, Centro de Inovação do Cacau (CIC) ajuda produtores e chocolateiros com cursos e instalações; primeiras máquinas de chocolate bean to bar na região remontam a 10 anos

Ana Paula Boni, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2019 | 05h07

ILHÉUS (BA) - A chegada do Centro de Inovação do Cacau (CIC), em 2017, foi determinante para um grande impulso que a região recebeu na melhora do beneficiamento do cacau, dizem vários atores do mercado no sul da Bahia. “A gente começou a trabalhar a qualidade do cacau antes de sair a Indicação Geográfica. Quando chega o CIC, isso estourou. As análises do CIC mostraram que a região ainda não estava fazendo a melhora da qualidade como achava que estava fazendo”, conta Ana Carolina Menezes Argolo, do Sebrae-BA.

A partir de testes de corte, técnicos do CIC analisam índices de fermentação e secagem da amêndoa, entre outros quesitos, e consegue pagar a mais pelo cacau quanto mais alta for sua qualidade. Além de ser uma espécie de certificador, o CIC também dá cursos e terceiriza serviços para pequenas marcas.

Segundo Cristiano Villela, diretor científico do CIC, em dois anos foram atendidos mais de 300 produtores focados em cacau especial, além de terem sido formadas 115 pessoas nos cursos de chocolate bean to bar - hoje são 15 marcas fazendo barras nas instalações do centro.

Neste ano, o CIC também criou um prêmio, em parceria com entidades locais, para escolher as melhores amêndoas do País. Foram seis premiadas, três em cada categoria (varietal e blend). Os primeiros lugares não ficaram com produtores baianos, mas, no caso da categoria varietal, os produtores João Tavares e Rogério Kamei (do chocolate Mestiço) subiram ao pódio.

Segundo Villela, nesta semana o Salão de Paris, prestigioso concurso de cacau mundial, informou que dois dos vencedores do prêmio do CIC, João Tavares (BA) e Elcy Gutzeit (PA), vão concorrer entre as 20 melhores amostras de cacau do mundo em outubro. “Isso fortalece a imagem do cacau brasileiro, como uma origem especial.”

Um dos pioneiros do cacau fino no Brasil, João Tavares ainda não faz nem quer fazer chocolate, mas vende amêndoas para pequenas marcas de chocolate bean to bar como Cacau do Céu (BA), de Marcela Carvalho, e Maria Brigadeiro (SP).

O caminho para o chocolate bean to bar na Bahia

Remonta a cerca de 10 anos a chegada do que podem ser consideradas as primeiras melanger - pequenas máquinas usadas na produção de chocolate bean to bar - de que se tem notícia no sul da Bahia: uma da chocolateira Marcela Carvalho e outra do cacauicultor Fernando Botelho Lima, da fazenda São José, em Barro Preto (BA).

De tradicional família de cacauicultores, Marcela ganhou o equipamento (da marca Cocoa Town) que seu Romildo Tavares, o já falecido pai do produtor João Tavares, trouxe em 2008 dos Estados Unidos. Foi quando ela começou a flertar com o chocolate, quando a cena bean to bar era ainda inexistente por aqui.

Lançou a marca Cacau do Céu em 2011 e, desde lá, adquire amêndoas de produtores de cacau fino como João Tavares. Apenas em 2018, resolveu ir para o campo e fazer cursos para entender de beneficiamento de cacau.

Já Fernando queria usar a melanger (também Cocoa Town) para testar (e atestar) a qualidade do seu cacau, que vinha desenvolvendo inclusive com certificações orgânicas. Tempos depois de ele e sua mulher, Aurea Maria Viana Lima, tocarem sozinhos a fazenda, a filha Patrícia Viana Lima vem se juntar aos dois e lança, em 2012, a marca de chocolate Modaka.

Cacau do Céu e Modaka têm outras coisas em comum: ambas são colegas desde 2014 na Chocosul (Associação de Produtores de Chocolate do Sul da Bahia) e depois, desde 2017, na Associação Bean to Bar Brasil.

Outros associados são coincidentes nas duas entidades, como Pedro Magalhães (VAR), Juliana e Tuta Aquino (Baianí) e Rogério Kamei (Mestiço), essas últimas três marcas compostas por baianos fazendo chocolate com amêndoas de suas fazendas (tree to bar). São nomes como esses pequenos empreendedores que ganharam reconhecimento no País para impulsionar não só a melhora do beneficiamento do cacau, mas também chocolates de alta qualidade - porque não adianta apenas ser bean to bar.

Hoje, são 20 associados na Chocosul, com marcas como também Benevides, Maltez, Coroa Azul e Maia. Já na Bean to Bar Brasil hoje são 18, incluindo Luisa Abram, Mission, Gallette, Chokolah, Amma e Dengo. Em dois anos, as marcas da Bean to Bar abocanharam, com suas barras de alta qualidade, 63 prêmios nacionais e internacionais.

“A gente tem levado essa paixão pelo bean to bar na coragem, porque não há um retorno financeiro condizente com essa paixão e com a dedicação profissional de todos. A gente também é movido pela tradição da região, pelas famílias, pela infância nas fazendas de cacau”, conta Juliana Aquino.

* VIAGEM A CONVITE DA ASSOCIAÇÃO BEAN TO BAR BRASIL

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