Ivany Chaves/Clínica Beleza Phyna
Ivany Chaves/Clínica Beleza Phyna

Bronzeamento natural com fitas adesivas vira febre em Manaus

Clínicas de bronzeamento natural de Manaus faturam com prática que não é avalizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária nem por qualquer outro órgão de saúde

Alessandro Lucchetti, Especial para o Estadão PME

30 de abril de 2017 | 05h13

No final do ano passado, descobrimos a Erika Romero, empreendedora que conquistou fama nacional bronzeando as clientes com óleo e biquíni de fita isolante, na laje de sua casa, no Rio. Agora, constatamos que essa inovação ganhou grande escala em Manaus, uma das cidades brasileiras com maior incidência de raios solares.

A capital do Amazonas, por sinal, requer para si o status de capital do bronzeamento natural. A moda do bronzeamento com biquíni de fita adesiva é disseminada por todos os bairros manauaras. A secretaria de saúde local não tem uma estimativa do número de clínicas hoje em atividade.

Segundo a esteticista goiana Luana Toledo, que trabalha há 12 anos com bronzeamento natural, Erika Romero foi sua aluna. "A Erika Bronze fez o curso à distância comigo", conta a empresária, que teve papel importante na transmissão da técnica para as empresárias manauaras desse segmento. "Antes de a mídia do Rio, que é muito forte, fazer matérias sobre ela, já havia muitos lugares em Goiânia oferecendo esse serviço. Hoje, Manaus tem uma demanda forte, mas não apenas. Mato Grosso e parte de Minas são lugares em que muitas mulheres buscam esse tipo de bronzeamento."

Há dois anos, Luana visita quadrimestralmente Manaus para ministrar cursos de bronzeamento natural a classes com 20 a 30 alunas. "Do total de alunas, observamos que 80 a 90% abrem clínicas de bronzeamento. Algumas se inscrevem no curso apostando que terão facilidades para oferecer o serviço no quintal de casa e montar os biquínis com fitas, mas é mais complicado do que isso. Elas temem expor as clientes a queimaduras. É preciso estudar os tipos de peles, utilizar produtos de qualidade, observar os horários."

Essa modalidade de bronzeamento não é avalizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) nem por qualquer outro órgão de saúde, e não é recomendada por dermatologistas. Não são incomuns os episódios de insolação e queimaduras pelo corpo em clínicas que trabalham com menos zelo.

Os empresários envolvidos nesse segmento não se queixam da falta de clientes. "Tenho duas unidades da Espaço Pink, na zona sul e na zona norte. Na soma dos dois, atendo 60 clientes nos meses de verão. Na estação chuvosa (que se desenrola por seis meses) esse número cai para cinco ou seis. Não dependo apenas do bronzeamento: oferecemos depilação, limpeza de pele e massoterapia", diz Eriany Souza, que cobra R$ 80 pelo "bronze completo" (que inclui descoloração de pelos) e R$ 60 pelo serviço que não inclui a descoloração. 

A esteticista Ivany Chaves, que já tinha uma clínica de estética em sua casa, no bairro da Cidade Nova, distribuiu 15 cadeiras no seu quintal. As clientes pagam R$ 80 por duas horas de bronzeamento (distribuídas igualmente entre a parte da frente e a posterior do corpo). Trabalhando de segunda a sábado, Ivany atende de dez a 15 clientes diariamente. O bronzeamento só é permitido até 11h30. "Não permito que uma cliente fique por mais de duas horas se bronzeando, e não trabalho à tarde, porque o sol aqui é muito forte."

Ivany não tem dificuldades para citar os motivos que, em seu entender, explicam a febre local por bronzeamento natural. "O nosso clima é propício, a marquinha eleva a autoestima e os homens gostam."

A frase "os homens gostam" tem dois significados: segundo Ivany, apreciam o efeito em suas namoradas ou companheiras, e alguns deles querem as valorizadas marquinhas em seus próprios corpos. "Eu diria que 20% da minha clientela é formada por homens. Alguns têm vergonha e preferem ser atendidos em horários especiais, exclusivos."

No centro de Manaus é fácil encontrar biquínis feitos de fita isolante para o bronzeamento natural. A Sociedade Brasileira de Dermatologia adverte que a exposição excessiva ao sol em lajes ou quintais pode resultar em queimadura de segundo grau, insolação e câncer em forma crônica. Quando a técnica consiste na utilização de ativadores (óleos) em vez de filtros solares, obviamente é mais danosa à pele.

Luana vende kits com oito produtos, fabricados em Goiânia, por R$ 500. Segundo Cleomar, marido dela, também envolvido no empreendimento, a empresa vende quatro mil parafinas específicas por mês.

Nos primórdios do bronzeamento natural, os biquínis eram feitos com esparadrapos. Esse modelo ainda é utilizado, sendo recomendado para clientes com pele mais sensível, segundo Luana. As fitas isolantes caíram no agrado graças ao grau de qualidade da marquinha que proporcionam. "Quando se toma sol usando biquini, entram água, bronzeador e suor por baixo da alça, e o contraste fica menos evidente. O esparadrapo proporciona uma boa marca, mas  a fita isolante é ainda melhor, porque adere e não solta. Nós a indicamos às clientes com pele mais resistente."

Keila Roberta Lima, proprietário do espaço Bronze da Nega, do bairro Praça 14, acredita que sua atividade ajude a melhorar os casamentos manauaras. "A gente fica perplexa com os resultados e comentários. Os homens adoram. Chegamos à conclusão de que uma marquinha não é apenas uma marquinha".

No esforço para cativar as clientes, Keila oferece sucos e frutas, prática comum nas clínicas e espaços de bronze de Manaus mais aparelhados para concorrer nesse segmento.

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