Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

‘Brasil de hoje não tem mais espaço para grandes shows’, diz organizador da Tomorrowland

Para se adequar a nova realidade econômica, empresa adia festivais de porte e demite funcionários; PwC revisa de US$ 280 mil para US$ 199 mi faturamento do setor em três anos

Renato Jakitas ', O Estado de S. Paulo

21 de dezembro de 2016 | 05h00

Nos últimos dois anos, a agência Plus Talent, produtora do festival Tomorrowland e do extinto Skol Beats, viu-se arrastada para dentro da história mais inusitada do negócio de shows na atualidade: a meteórica ascensão e queda da SFX Entertaiment, que comprou a empresa paulista para construir uma rede global de festivais de dance music, disposta a brigar de igual para igual com gigantes como Live Nation e AEG Live, mas acabou tropeçando na própria ambição e entrou em recuperação judicial em fevereiro deste ano, nos Estados Unidos.

A negociação movimentou pouco menos de R$ 10 milhões e teve os sócios da produtora brasileira, encabeçados pelo ex-DJ Luiz Klotz, mantidos na direção como exigência do controlador. Nesse período, Klotz viveu na corda bamba, sem saber se teria a empresa que fundou há 20 anos vendida para ajudar a quitar uma dívida de quase US$ 400 milhões, ou até liquidada pelos credores norte-americanos. Na primeira semana de dezembro, contudo, a história encontrou um fim. Os ‘bondholders’ (detentores de títulos de dívidas) comunicaram o mercado sobre o saneamento das pendências financeiras, a troca no comando do fundador Robert F.X. Sillerman por Randy Philips, ex-executivo da AEG Live, e até um novo nome, LiveStyle, para abandonar a herança negativa da SFX. 

No Brasil, o comunicado foi uma senha para implementar modificações que vinham sendo preparadas há quase um ano. Segundo os executivos, a ambição global mantêm-se inalterada. O que muda é a forma como o projeto de expansão será conduzido. No que tange a operação brasileira, a Plus Talent também foi rebatizada, virou Plusnetwork. A empresa também colocou em curso um plano de reestruturação de gestão e corte de gastos para se adequar ao que Luiz Klotz diz ser “a nova realidade nacional”. Após reduzir o número de funcionários de 48 para 36 em 2016, Klotz anunciou um novo portfólio de eventos, todos de pequeno e médio porte, suspendendo temporariamente festivais maiores como o Tomorrowland, que teria uma edição no ano que vem e foi adiada para 2018, condicionada a uma reação da economia. Nos últimos anos o festival aconteceu no Parque Maeda, na cidade de Itu (SP), e consumiu cerca de R$ 100 milhões de caixa cada um, sem nunca trazer lucro. Pelo mundo, o Tomorrowland terá sua 12ª edição na cidade de Boom, na Bélgica. A variação nos Estados Unidos batizada de TomorrowWorld está suspensa até segunda ordem. 

No lugar da super festa, a agora Plusnetwork vai investir em eventos para até 10 mil pessoas, a maioria deles dentro de espaços fechados, como será uma edição reduzida do festival Eletric Zoo, que acontece originalmente por dois dias em Nova York. O cardápio para o ano também inclui novidades como o Welcome to the Future, da Holanda, e o Awakenings Festival, que é recorrente nos Países Baixos e na Inglaterra. 

De acordo com Klotz, a ordem é reduzir desembolsos e ao mesmo tempo ampliar os 20 eventos de 2016 para 28 no ano que vem, tentando com isso não perder o poder de atração junto às empresas anunciantes, que dividem com a receita de bilheteria a importância no resultado final. 

“O Brasil de hoje não comporta um festival do porte do Tomorrowland”, conta Klotz. “Em 2015, na primeira edição, nós colocamos 180 mil pessoas em três dias, e como era esperado não tivemos lucro. Já neste ano, vendemos 150 mil ingressos. Repetir o evento agora neste ano que vem não seria uma ideia inteligente”, conta ele que começou a empreender no ramo da música na década de 90 e nos anos 2000 foi sócio da boate U-Turn, no bairro da Vila Olímpia, zona sul da cidade de São Paulo. 

Novos tempos. A Plusnetwork registrou nos últimos dois anos um faturamento de R$ 100 milhões. A expectativa mais otimista para 2017 contempla a repetição dessa cifra. Uma posição conservadora, mas que reflete o atual momento do setor de eventos musicais no Brasil. O mercado vinha aquecido há pelo menos uma década impulsionado por uma economia atraente e na carona do frisson causado pelos preparativos da Copa do Mundo e dos jogos olímpicos. Um relatório da PwC divulgado em junho de 2015 projetava expansão de US$ 165 milhões em 2010 para US$ 280 milhões em 2019. A consultoria, entretanto, refez as contas, levando em consideração o impacto da recessão e, agora, espera no máximo US$ 199 milhões para daqui a três anos. 

Na opinião do especialista Frederico Turolla, sócio da consultoria Pezco Economics, o setor de espetáculos musicais é fortemente impactado pela redução do poder de compra dos brasileiros. “A despesa dos consumidores de grandes cidades com shows é relativamente pequena. Mesmo em grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro o porcentual do orçamento familiar gasto com shows de música é de 0,05%”, destaca o consultor, que compara essa frequência com o cinema, que ocupa quatro vezes mais espaço no orçamento familiar. “Alguns compram mais ingressos de shows em momentos de crise como uma auto compensação pelos tempos difíceis, mas esse fenômeno não chega a compensar a queda de vendas devido à falta de dinheiro”, destaca.

Rock in Rio. Turolla aponta o desafio de empresas como a Plusnetwork, que não só precisa viabilizar um festival, mas torná-lo rentável e recorrente. Segundo ele, o ciclo de vida desses eventos é direcionado por duas forças opostas, construção de marca e atração de concorrência. É preciso tempo de maturação para ganhar dinheiro nessa área. “A cada nova edição bem-sucedida, consolida-se a marca do evento, atraindo mais público. O caso do Rock in Rio é emblemático em termos de construção de valor de produto”, conta. 

Com um início difícil, o Rock in Rio realizou apenas sete edições em 31 anos no Brasil. As primeiras duas vezes, em 1985 e 1991, quase levaram o fundador Roberto Medina à falência. O resultado financeiro veio somente depois de levar o produto para o exterior, principalmente na Espanha e em Portugal, antes de retornar ao Brasil em 2011 para três edições bianuais, tendo a quarta programada justamente para setembro de 2017. “É claro que a situação econômica vai tornar o negócio de shows mais difícil, mas o Rock in Rio já criou a sua própria demanda”, diz Roberto Medina, que em novembro vendeu os 120 mil ingressos que colocou para a pré-venda na internet. “Geralmente, temos uma demanda não atendida de 4 milhões de clientes. Neste ano, deveremos ter 1,5 milhão.” O custo de produção de uma edição do Rock in Rio é de R$ 250 milhões. 

O festival de Medina serve de inspiração para a Plusnetwork, apesar de seus produtores concordarem que se trata de públicos diferentes. “Nosso expertise é música eletrônica, que atende os mais jovens, a geração do milênio. Estamos em busca de consolidação, de deixar para atrás o estigma de ser coisa de maluco e se firmar como um gênero de massa”, aponta Klotz.

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