Werther Santana/Estadão
Ricardo Lima, sócio e admisnistrador do restaurante Mocotó, encontra diariamente perfis clonados do estabelecimento no Instagram. Werther Santana/Estadão

Boom de vendas digitais pede reforço na segurança contra fraude de dados

Fraudes de dados pessoais crescem na pandemia assim como vendas online; pequenos negócios precisam reforçar atenção em aplicativos, e-mail e redes sociais

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2020 | 06h02

Empreendedor, o que você está fazendo para manter a sua empresa segura em ambiente digital? Você clica em todos os links que te enviam em sua conta do WhatsApp Business, seja no celular ou na versão web (para computadores)? Abre e-mails de remetentes desconhecidos? Conversa com os seus colaboradores sobre crimes e fraudes? Assim como passar o cadeado no portão e ativar o alarme, é preciso também adotar uma rotina de segurança para sua loja online, seu perfil nas redes sociais e ainda repensar a forma como sua empresa se comunica com o cliente. 

De acordo com o Mapa da Fraude do 1° semestre de 2020, estudo realizado pela ClearSale (empresa que oferece soluções antifraude para e-commerces e mapeia dados no País), entre 1º de janeiro e 30 de junho 760,3 mil pedidos foram classificados como tentativas de fraude. No mesmo período do ano passado, o número foi de 433,8 mil. A empresa analisou mais de 53,4 milhões de pedidos do e-commerce, todos com pagamento via cartão de crédito.

Sobre fraudes e golpes cometidos contra empresas, como roubo de dados, a  pesquisa global sobre Fraudes e Crimes Econômicos 2020 da consultoria PwC mostra que entre 5 mil empresas entrevistadas de 99 lugares diferentes do mundo, 47% sofreram algum tipo de fraude nos últimos 24 meses. O resultado é um rombo de US$ 42 bilhões retirado diretamente dos resultados financeiros das empresas.

Os números grandiosos podem passar a impressão de que os pequenos negócios estão seguros porque, geralmente, o valor transacionado nas vendas é baixo. Mas não se engane. "Qual é o tipo de fraude que dá mais dinheiro? A que envolve transação financeira. E há muita engenharia social e criatividade para cometer os golpes. Os dados da sua empresa estão na internet", diz Fabro Steibel, diretor executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade. "O golpe se dá pela repetição", completa. 

Segundo o especialista, há uma dificuldade central para os pequenos negócios estarem seguros na internet, principalmente para aqueles que gerem a empresa na palma da mão, ou seja, que fazem a maioria das transações pelo celular. "Temos um sistema fragmentado entre o de identificação e o de pagamentos. Por exemplo, como a empresa sabe mesmo que está falando com um cliente? Na China você tem o Wechat, aplicativo no qual o empreendedor sabe que aquele aparelho, com aquele número, é autenticado. Isso faz com que a empresa saiba exatamente de quem está recebendo o dinheiro e, ao mesmo, favorece que o cliente esteja dentro do aplicativo da empresa e faça o pagamento", diz Steibel. "Parece pouco, mas essa conexão entre o sistema de identidade, o canal de vendas e o sistema de pagamento, por ser fragmentada no Brasil, permite muita fraude", completa. 

O WhatsApp Pay é uma tentativa de unificar os sistemas. Anunciado em junho e com uma solução de transferência bancária dentro do aplicativo com parceiros como Visa, Mastercard, Banco do Brasil e Nubank, o Banco Central suspendeu a solução alegando a necessidade de avaliar questões de competição e privacidade. Não há previsão de liberação da solução até o momento. 

Para os empreendedores que optam pelos e-commerces e marketplaces, as plataformas se mostram ambientes mais seguros para a venda online. "Elas têm um pouco mais de know how sobre o tema. Quando o empreendedor tem uma URL, existem por trás várias empresas de segurança juntas, porque existe uma parceria entre os browsers e vários outros programas de forma que, quando uma delas descobre uma tentativa de golpe, por exemplo um site phishing (que busca o roubo de dados pessoais, senhas e números de cartão de crédito), uma avisa a outra. Existe um compartilhamento de inteligência para barrar o golpe. No WhatsApp e no telefone você não tem isso", diz. É sempre importante checar se a plataforma contratada garante a fraude ao empreendedor, ou seja, ele não terá a responsabilidade pelo estorno da operação ao cliente. 

Cuidado com os links! 

Primeiro ponto de alerta para os empreendedores se manterem seguros é a atenção redobrada com os links. Transmitidos por WhatsApp ou mesmo por e-mail, não clique antes de conferir o remetente. "É muito comum pessoas que clicam em um link recebido por e-mail e têm todas as informações da empresa hackeadas. E o fraudador pede o resgate das informações em bitcoin, que é a moeda não rastreável. Já aconteceu clientes meus", conta o consultor do Sebrae-SP Eder Max. O consultor ressalta: "Tenha um bom sistema de backup de suas informações. Mesmo com uma denúncia em uma delegacia de crimes virtuais, é muito provável que não se recupere esses dados", diz. 

Além de verificar o remetente, ele ainda diz que é importante separar o e-mail pessoal do profissional e orientar os colaboradores a fazer o mesmo. O estudo Fast Facts, feito pela empresa global de cibersegurança Trend Micro, mostra que em maio o Brasil estava na 8ª posição entre os países que mais tiveram ameaças detectadas por e-mail, com 72,2 milhões de detecções. 

Para os casos de links enviados por WhatsApp, o consultor ressalta a importância de ativar a verificação em dois fatores, no qual é preciso senhas, pins ou reconhecimento de digital (a depender do aparelho) para acessar a conta, barrando assim a invasão da mesma.  

Segundo ponto: nunca se esqueça do antivírus. As ameaças por softwares maliciosos compilados em maio pelo relatório da Fast Facts mostram que 1,4 milhão de arquivos do tipo rodaram no País. "Faça uma limpeza semanal em todas as máquinas e passe o antivírus", diz Max. 

Clonagem de perfis e golpes em clientes 

A pandemia do novo coronavírus fez com que a digitalização dos negócios tivesse de acontecer de forma urgente, do dia para a noite. Com o baixo orçamento, as redes sociais se transformaram então em plataformas que garantiram a sobrevivência de micro e pequenos negócios. No início de junho, o Estadão PME noticiou um crescimento de 20 milhões de empresas utilizando pelo menos um dos aplicativos do Facebook em todo o mundo (Facebook , Instagram e WhatsApp) devido a pandemia.  

Com a possibilidade de integração com loja online, criação de uma espécie de vitrine virtual e meio de comunicação com os clientes, o Instagram se mostra uma ferramenta tão atrativa para as empresas que também conquistou fraudadores. Perfis empresariais, principalmente de restaurantes, são clonados e utilizados para entrar em contato com usuários da rede social e, assim, aplicar golpes que visam o roubo de dados por meio do compartilhamento de links

Ricardo Lima, sócio e gestor do restaurante Mocotó, ícone da zona norte de São Paulo, diz que sofre com o problema desde o ano passado. Porém, de acordo com ele, a partir de março o volume de perfis falsos aumentou. "No ano passado tivemos alguns episódios, mas algo bem pontual. Nada comparado ao que acontece agora. Praticamente todos os dias a gente acaba recebendo uma ligação ou uma mensagem decorrente disso", diz. 

Os perfis falsos são cadastrados com alguma variação do nome do local. O nome original é @mocotorestaurante. Há variações como @mocotobarerestaurante, @mocotobarrestaurante, entre outros. Os perfis falsos contém as mesmas fotos e geralmente entram em contato avisando que o cliente ganhou um sorteio ou cupom de desconto, e então precisam conferir os dados pessoais dele.

"Infelizmente algumas pessoas acabaram tendo as suas contas hackeadas, principalmente a do WhatsApp, alguns pedem dinheiro para os contatos da pessoa ou até pedem para a  dona da conta, como um sequestro. Isso nos causa um desconforto enorme", afirma Lima, que já movimentou 50 pessoas de seu círculo pessoal para fazer denúncias sobre as contas fraudulentas nos canais do Instagram. 

"É muito difícil pra gente criar uma ferramenta de combate. Toda semana a gente tenta fazer uma comunicação ativa sobre isso. Mas é uma situação bem desconfortável porque você denuncia uma e no outro dia tem um perfil falso novo. O processo de denúncia, da própria checagem de conta pelo Instagram, muitas vezes demora. A grande vedete do momento é essa, é um golpe de um valor menor, então acaba sendo muito mais fácil de executar", completa Lima. 

O perfil do Mocotó no Instagram tem entre os destaques um especial com o nome 'GOLPES', para alertar os clientes. "A gente tem que contar com o acaso de naquele momento o seguidor checar se há promoção e ver esse post. Não fazemos sorteios e sempre buscamos ver se o cliente que entrou em contato conosco pode passar o celular, para ter um contato mais próximo", esclarece. 

Para o consultor do Sebrae-SP Eder Max, procurar a delegacia de crimes virtuais é uma saída. "É importante procurar a delegacia de crimes virtuais e registrar boletim de ocorrência. A delegacia tem autoridade para entrar em contato com a rede social e mandar excluir o perfil. Porque mesmo com grande número de denúncias, a rede social ainda vai avaliar e não é garantido que ela exclua", diz.

O especialista Fabro Steibel, do ITS, diz que a checagem de perfis clonados deve entrar na rotina dos empreendedores. "É igual lavar o chão. Toda segunda ele vai dar uma busca no Instagram com o seu nome ou vai pegar as suas fotos e vai buscar no Google Imagens para ver se acha em outros lugares, e então fazer a denúncia. Não é um problema com solução fácil, infelizmente." 

Procurado, o Facebook inicialmente respondeu da seguinte forma. "Se você encontrar qualquer violação das nossas políticas, você pode denunciá-las através de nossos canais dedicados. Se você encontrar qualquer violação de direitos autorais ou marca registrada sua, também pode denunciar através de nossos canais dedicados para Instagram e Facebook." 

Questionados novamente para saber se realmente não há uma forma mais simples e efetiva de ajudar os empreendedores, pois muitos estão sozinhos no dia a dia da empresa, o Facebook afirmou que não é possível rastrear e identificar se tal conta é um clone ou não e que não podem excluir perfis sem que haja denúncias formais.

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'Não basta só vender no marketplace, precisa dar o processo', diz gerente do Magalu

Criado em março, Parceiro Magalu reúne 60 mil pequenos negócios; iniciativa faz parte da operação digital do Magalu, que cresceu 214% no segundo trimestre

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2020 | 06h01

Para além dos sites próprios e das vendas pelas redes sociais, criar um perfil em um marketplace tem sido um dos caminhos para o início da digitalização de pequenos negócios que estão com as portas fechadas há meses devido a pandemia do novo coronavírus. A dinâmica pode ser benéfica para ambos os lados: os pequenos pegam carona na segurança e na visibilidade das grandes e elas, por sua vez, expandem seu leque de produtos e regiões de atuação. 

Criado em março pela Magazine Luiza, o Parceiro Magalu já reúne mais de 60 mil pequenos negócios cadastrados durante a pandemia. A plataforma ajudou a impulsionar a operação digital do marketplace, que cresceu 214% no segundo trimestre. Com as lojas da rede fechadas, o e-commerce passou a representar 78,5% das receitas totais da companhia entre abril e junho. 

A gerente de marketplace do Magalu, Mariana Castriota, explica que o projeto acoplou funcionalidades online e offline para ajudar os pequenos negócios que não tinham familiaridade com o mundo digital a se digitalizarem. “Queríamos sair do ponto de partida do lojista pequeno, que bota uma vida e um sonho em uma empresa e não sabe o que fazer. Nós fomos para a rua e entendemos que pequenos empresários muitas vezes não têm sequer uma educação para formar e montar uma empresa de forma estruturada”. Confira a seguir a entrevista.

O Magalu já operava como marketplace antes da pandemia. Qual a diferença do Parceiro Magalu?

Temos uma mudança no perfil do consumidor. Hoje, o comércio eletrônico ainda tem uma fatia muito pequena, ele é de apenas 5% de tudo que é transacionado no comércio. Mas o número já estava crescendo mesmo antes da pandemia. Nós já sabíamos que o processo seria rápido, ainda mais na pandemia. Quando olhávamos para esse Brasil analógico, de comerciantes, ficávamos preocupados. Já tínhamos o nosso marketplace, que já tem algumas dezenas de milhares de vendedores, mas ele acontece normalmente para uma empresa já digitalizada. E queríamos sair do ponto de partida do lojista pequeno, que bota uma vida e um sonho em uma empresa e não sabe o que fazer.

Nós fomos para a rua e entendemos que pequenos empresários muitas vezes não têm sequer uma educação para formar e montar uma empresa de forma estruturada. No começo da pandemia mesmo, o Sebrae levantou que MEIs tinham 9 dias de capital de giro para manter a loja fechada. Quando fomos para a rua, começamos a entender que antes de falar de marketplace, precisávamos entender a dor e não adiantava falar palavras difíceis. Vimos que não era somente vender no marketplace, precisava dar o processo.

 

Na prática, o que a ferramenta oferece para o pequeno empreendedor?

Como fizemos correndo, antes do previsto, ainda não colocamos todas as funcionalidades. Nós criamos a plataforma, que é uma ferramenta de gestão simplificada de lojas, na qual uma das funcionalidades é vender no Magalu. O empreendedor pode usar a ferramenta para gerir a loja, para subir produto no estoque, para colocar as vendas da loja física, por exemplo. Acabamos de lançar uma funcionalidade para quem está vendendo via rede social mandar o link de pagamento através do Magalu. Também oferecemos 100% da logística por conta do Magalu. Se antes ele estava restrito a rua que atua, agora ele passa a vender para o Brasil inteiro.

Aqui no Magalu a gente obriga a ter nota fiscal eletrônica, então tem o faturador na plataforma. Temos quatro formas de subir os produtos de forma rápida. Demos as condições e, principalmente, subsidiamos essa entrada para ajudá-lo a entender o processo. Não cobramos nada para estar na plataforma. Eu plugo a minha loja no Magalu e só pago se eu vender (até o dia 31 de outubro, os pequenos que aderirem à plataforma pagam 3,99% de taxa sobre as vendas). Se o empreendedor quiser usar só para gerir a loja, sem vender, ele pode, sem pagar nada. Fizemos tudo para que o empreendedor consiga vender sem ter nenhum tipo de conhecimento digital. 

Qual o benefício da ação para o Magalu? 

A gente olha muito para a China, que tem processo parecido com o nosso em relação à logística. Nos EUA, para a Amazon enviar um produto de Seattle a Orlando é barato. Para a gente, enviar do sudeste para o Acre é caro. A logística é um desafio no Brasil. Com as pequenas no Magalu, ganhamos presença, espalhamos os nossos produtos pelas mais diversas regiões do país. Tenho parceiros no interior do Acre, por exemplo. O nosso portfólio aumentou bastante. Subimos mais de 50 parceiros de café, pequenos produtores que vendem café especiais. Vamos além do nosso core business de bens duráveis, como geladeira, fogão e smartphones. 

 

Depois desse primeiro passo na digitalização, quais têm sido os desafios das pequenas empresas que entram para o Magalu?

Quando fomos para a rua, vimos que a maior dificuldade desses empreendedores não era o acesso à internet em si, a maioria tem um bom smartphone. Mas faltava certificado digital, um contador. A forma que eles administram é a mesma há 15 anos. É uma repetição de processos. A menos que ele seja forçado, ele segue repetindo o protocolo. A pequena empresa é totalmente diferente de uma loja que já é digitalizada. Ela não vai ter profundidade de estoque, as formas de vender esse produto e trazer o cliente são diferentes

Então agora, já digitalizados, eles estão tendo que lidar com o estoque e comprar de acordo com a demanda do online. Estavam acostumados a vender de acordo com o processo da região que atuam e agora têm mais clientes. Uma coisa que percebemos que é desafio é a mudança que eles têm feito ao aumentar a demanda. Quem é MEI geralmente atinge rápido o patamar da quantia que é permitido vender. Então estão tendo que lidar com essa transição. Entendemos que a medida que se empoderam, eles começam a crescer e precisam mudar, ter assistente contábil por exemplo. 

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