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Bitcoin: onda do futuro ou moda perigosa?

Moeda virtual ameça sistema monetário internacional e acende o debate sobre a segurança, funcionalidade e legalidade da novidade

James Rosen, McClatchy-Tribune,

14 de janeiro de 2015 | 21h11

Enquanto os fregueses almoçavam num popular restaurante do bairro de Adams Morgan, em Washington, poucos tinham consciência de estarem na linha de frente de uma guerra monetária que envolveu batidas do FBI, a Web profunda, alegações de lavagem de dinheiro e o desaparecimento de milhões de dólares numa fração de segundo. Para não falar nas previsões do fim do papel-moeda.

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O Diner, nome do restaurante em Adams Morgan, instalou recentemente os primeiros caixas eletrônicos de bitcoin - controvertida moeda digital defendida e atacada com igual ferocidade - na capital.

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Os fãs do bitcoin, que costumam ser de inclinação libertária, diz que essa moeda é uma maneira revolucionária de transferir dinheiro rapidamente e de maneira anônima de um ponto a outro - seja no mesmo quarteirão ou do outro lado de fronteiras internacionais - sem intermediários, nem bancos centrais, pouca regulamentação, nenhuma coleta de dados pessoais e segurança eletrônica praticamente impenetrável.

O deputado republicano Ron Paul, que concorreu à presidência pela primeira vez em 1988 como candidato do Partido Libertário, disse que o bitcoin era um recém-chegado bem-vindo ao "terrível sistema monetário” que vigora nos Estados Unidos.

“Temos um governo que falsifica e desvaloriza moedas intencionalmente, e acredito que essa alternativa funcionaria como concorrência”, disse Paul ao site de entrevistas online Quora no primeiro semestre do ano passado. “Tudo aquilo que se apresentar como substituto para o dólar americano deve ser permitido. Não deve haver proibições; não deve haver monopólios e cartéis administrando nosso sistema monetário, pois esse muitas vezes beneficia os poucos privilegiados. O bitcoin é uma introdução a isso.”

Como o bitcoin é uma “criptomoeda” criptografada, com cada transação associada a um código único de 32 dígitos formado por números e letras aleatórios, é impossível roubá-lo de uma bomba de gasolina como os ladrões fazem com um dispositivo simples usado para roubar números de cartão de crédito.

Seis “desenvolvedores centrais” - alguns dos melhores engenheiros de software do mundo - supervisionam a rede interna do bitcoin, ligada a 100 mil computadores.

Ajudados por centenas de “mineradores" anônimos, eles conservam uma “chave-mestra" pública, um registro digital de cada transação com bitcoin e seus códigos de 32 dígitos. Cada código público, por sua vez, é ligado a um código privado de 32 dígitos conhecido apenas pelo dono do bitcoin. Os mineradores usam equações matemáticas e algoritmos que ricocheteiam pelo globo instantaneamente para verificar a autenticidade de cada transação.

“Antes de conhecer o bitcoin, em julho de 2010, pensei que fosse impossível”, disse o engenheiro de software Jeff Garzik, de Atlanta, um dos desenvolvedores centrais. “Eles provaram que eu estava enganado.”

Início misterioso. Fazendo jus ao seu status enigmático, as origens do bitcoin são envoltas em mistério.

Em 2008, alguém usando o pseudônimo Satoshi Nakamoto publicou um livro branco descrevendo o conceito do bitcoin a um grupo eletrônico de especialistas em computadores. No ano seguinte, o gênio anônimo fez o upload de software de código aberto para a sua implementação na internet.

Garzik e os demais desenvolvedores centrais trocaram e-mails com ele durante dois anos enquanto expandiam a moeda digital inventada por Nakamoto, aprendendo como administrá-la. Mas, apesar de sua habilidade para rastrear tudo no mundo digital, eles jamais descobriram o nome verdadeiro de Nakamoto, nem seu gênero, nacionalidade ou localização. Então, mais ou menos em 2011, Nakamoto se calou. Ninguém nunca mais ouviu falar dele (ou dela). “Basicamente, ele interrompeu a comunicação alguns anos atrás”, disse Garzik.

Empregando o tipo de eufemismo que os mais brilhantes engenheiros de software costumam usar, Garzik acrescentou: “Ele era acima da média em se tratando da proteção ao próprio anonimato. Não deixou nenhum rastro de dados”.

A esta altura, o bitcoin já atraiu seguidores dedicados, embora pouco numerosos. “Vou lhe dizer por que o bitcoin é uma das maiores invenções de todos os tempos”, disse Andy Mahoney, que procura empreendimentos interessados em receber caixas eletrônicos bitcoin. “Pela primeira vez, uma pessoa pode enviar dinheiro a outra a partir de qualquer lugar do mundo, simultaneamente, sem incorrer em virtualmente nenhum custo. Trata-se de algo absolutamente seguro e criptografado, o que significa que o dinheiro é enviado anonimamente.”

Os detratores respondem que as supostas virtudes do bitcoin, atualmente negociado ao preço de US$ 298 cada - existe uma pequena variação nas diferentes bolsas - são na verdade vulnerabilidades.

“A tecnologia subjacente possui grande potencial, mas sou cético em relação ao formato cru, anônimo e desregulado do bitcoin”, disse Mark Williams, ex-examinador do Federal Reserve que ensina finanças na Universidade de Boston. “O sistema evita os controles criados pelo nosso sistema bancário, e não conta com nenhuma proteção ao consumidor. Se a sua 'carteira de bitcoins' for furtada, não há como identificar o culpado. Perde-se tudo.”

Williams se tornou alvo da ira dos defensores do bitcoin, que fizeram montagens usando a foto dele e o personagem Dr. Evil publicadas na internet. No ano passado ele prestou depoimentos críticos ao congresso e fez uma apresentação cética ao Banco Mundial. Também enfrentou Marc Andreessen, fundador do Netscape e grande investidor no bitcoin, em colunas opinativas.

“Chamo os caixas eletrônicos de bitcoin de ‘máquinas de aposta automática’”, disse Williams. “É a única máquina na qual inserimos dinheiro de verdade e recebemos dinheiro de mentira.”

Transações difíceis de rastrear. A maioria das pessoas que usa as máquinas BTM - gíria dos entendidos para descrever os caixas eletrônicos bitcoin - possuem um aplicativo que funciona como “carteira bitcoin” em seus celulares, contendo um código de barras que pode ser mostrado à tela da BTM no momento da transação.

Os bitcoins, ou frações digitais deles, fluem para dentro ou para fora da carteira digital dependendo da transação em questão, se é de compra ou venda. Noventa porcento das transações realizadas nas cerca de 310 BTMs distribuídas pelo mundo, com cerca de 60 delas nos Estados Unidos, envolvem a troca de dólares por bitcoins.

Diz-se que o total de bitcoins em circulação chega a aproximadamente US$ 4 bilhões, mas apenas parte desse total é utilizada - em parte porque os especuladores estão açambarcando a moeda, mas também porque poucos estabelecimentos a aceitam.

A maioria das transações de bitcoin não envolve BTMs nem compras, consistindo em vez disso em transferências de indivíduo para indivíduo. Quer enviar algum dinheiro para a filha na faculdade? Abra a carteira de bitcoins no seu celular, informe a quantia e insira o código de identificação da carteira dela. O dinheiro será recebido momentos após o botão ENVIAR ser pressionado.

Mas Williams e outros críticos acham que o bitcoin foi feito sob medida para a pornografia na internet, jogatina, lavagem de dinheiro e outras atividades ilícitas, pois é difícil rastrear a moeda virtual, que opera fora das instituições fiscais tradicionais.

Numa batida, realizada em San Francisco no dia 21 de outubro de 2013, agentes do FBI invadiram os escritórios da Silk Road, um mercado negro online que usava bitcoins. Suas operações foram interrompidas, e o proprietário, Ross William Ulbricht, foi detido.

Sob o pseudônimo Dread Pirate Roberts, Ulbricht é acusado de vender drogas ilegais por meio de um serviço oculto da internet chamado Tor, que funciona na chamada Web profunda, ou Deepnet, por estar configurada para iludir os mecanismos de busca tradicionais. O julgamento dele começa em 13 de janeiro.

Para Williams, da Universidade de Boston, a grande flutuação no valor dos bitcoins - que chegou ao ápice de US$ 1.200 um ano atrás, mas caiu para a cotação atual de aproximadamente US$ 298 - torna essa moeda muito mais arriscada do que o dinheiro comum e até as ações e o ouro.

“No seu formato atual, o bitcoin é extremamente perigoso”, disse Williams. “É preciso que a ideia seja testada em larga escala antes de permitirmos que seja solta na nossa economia global.”

Williams reconhece que Andreessen, o investidor Tim Draper e outros nomes de peso do Vale do Silício estão investindo pesado em empresas ligadas ao bitcoin.

“Há muita gente inteligente e rica apostando no bitcoin, mas até os ricos e inteligentes tomam decisões equivocadas”, disse Williams.

Praça bitcoin. Até Garzik, grande defensor do bitcoin e um dos maiores especialistas mundiais no tema, disse que no futuro a moeda pode não ser usada amplamente por todos, em vez disso contemplando a adaptação de sua tecnologia para outras finalidades úteis e rentáveis.

Garzik vislumbra o dia em que o software e a tecnologia subjacentes serão usados para transferir outros artigos de valor entre indivíduos, quase instantaneamente e com transparência total.

“Há muitos projetos envolvendo o uso dessa tecnologia, não para propósitos monetários, mas para rastrear o histórico de posse de ações, carros e imóveis”, disse ele. “Podemos associar um milionésimo de centavo em bitcoins a uma escritura, ao documento de um carro ou a um certificado de compra de ações, transferindo sua posse com a chave mestra. Nesse caso, o próprio bitcoin seria apenas uma etiqueta. Seu valor monetário seria inexistente do ponto de vista funcional.”

Seguindo esse raciocínio, Cameron e Tyler Winklevoss, remadores da equipe americana da Olimpíada de 2008 que se tornaram grandes empreendedores da internet, avaliam o valor do sistema geral de bitcoins em US$ 400 bilhões - 100 vezes superior ao valor de todos os bitcoins em circulação.

Independentemente do seu destino final, enquanto moeda o bitcoin tem poucos usuários até o momento - entre consumidores e comerciantes - fora de alguns locais de maior atividade, como Portland, em Oregon, Nova York, Colúmbia Britânica, no Canadá, Europa, Hong Kong e alguns outros.

No mês passado, os reguladores de serviços financeiros em Nova York, primeiro estado a criar regras para as moedas digitais, disseram que as startups e demais pequenas empresas interessadas em usar o bitcoin receberiam BitLicenças com dois anos de validade.

Em Haia, sede do governo holandês, que almeja se tornar a capital mundial do bitcoin, 100 BTMs estão sendo instaladas no distrito central. Em março, nove restaurantes e uma galeria de arte em duas ruas em margens opostas do canal começaram a aceitar bitcoins como pagamento, e o local logo foi apelidado de praça bitcoin.

Evan Rose é diretor executivo da Genesis Coin, de San Diego. A firma dele programou o software usado na BTM instalada no restaurante Diner em Adams Morgan e em vários outros caixas eletrônicos bitcoin espalhados pelo mundo.

Embora não saiba ao certo se o bitcoin vai se tornar amplamente usado como moeda, ele acha que o número de pessoas usando o dinheiro eletrônico atualmente é maior do que aparenta ser.

Uma empresa online chamada coinforcoffee.com, por exemplo, permite que os fregueses do Starbucks usem bitcoins ao convertê-los em cartões digitais Starbucks. Com funcionamento mais geral, a gyft.com converte bitcoins ao vender cartões virtuais de presente para celulares a dúzias das maiores redes de varejo do país.

“Há muitos serviços de terceiros que integram bitcoin e comerciantes”, disse Rose. “Starbucks, Best Buy, Wal-Mart e outras lojas podem estar aceitando bitcoins mesmo sem sabê-lo.”

Apesar do lento crescimento na popularidade do bitcoin, a Alemanha é o único outro país a tê-lo classificado como moeda.

Muitos países impõem numerosas restrições ao uso de bitcoins, enquanto China e Rússia fazem parte dos que determinaram que a moeda é ilegal. Durante anos o governo americano regulamentou o comércio envolvendo bitcoins por meio da Rede de Policiamento de Crimes Financeiros do Departamento do Tesouro - longe de consistir numa demonstração de confiança na moeda digital.

Onze anos atrás, Mahoney convenceu Constantine Stavropoulos, proprietário do Diner, a instalar um caixa eletrônico no restaurante. Este ano ele convenceu o empreendedor greco-americano (dono de seis restaurantes e cafés em Washington) a instalar uma BTM.

O caixa eletrônico de bitcoins, ao lado da entrada do restaurante, realizou 74 transações desde quando foi instalado, em 24 de novembro.

John McKee, proprietário e operador de ambas as máquinas, teve de enfrentar muitos obstáculos regulatórios para instalar sua BTM. Foram oito meses de negociação até que os funcionários do departamento de seguros, valores mobiliários e bancos do distrito federal aprovassem o plano.

“Eles tinham muitas perguntas”, recordou McKee. “Podemos dizer que o assunto não foi tratado por eles como prioridade. Trata-se de uma tecnologia nova. Os advogados tentaram entendê-la, os reguladores tentaram entendê-la, todos estão tentando compreender seu funcionamento. Muitas mãos erguidas para fazer perguntas na tentativa de tomar uma decisão do tipo sim-ou-não.”

McKee precisa transportar dezenas de milhares de dólares para reabastecer os caixas eletrônicos tradicionais na região metropolitana de Washington. Em comparação, o BTM instalado no Diner, seu único até o momento, exige apenas alguns milhares de dólares, pois registra movimentação menor.

Parte do motivo pode ser o próprio Stavropoulos, cuja contraditória abordagem para o bitcoin simboliza o debate mais amplo envolvendo a moeda digital.

Apesar de ficar animado por abrigar a primeira BTM da cidade, Stavropoulos não aceita bitcoins como pagamento em seus seis estabelecimentos.

“Vamos descobrir se essa será a onda do futuro ou apenas uma moda”, disse Stavropoulos recentemente enquanto tomava um café no balcão do Diner. “Vamos esperar para ver. Se muitos habitantes da cidade passem a usar o bitcoin para fazer pagamentos, provavelmente passaríamos a aceitar a nova moeda.”

Como o bitcoin funciona? Os bitcoins são uma “criptomoeda" criptografada para a qual cada transação é associada a um código único de 32 letras e números gerados aleatoriamente.

Seis “desenvolvedores centrais” supervisionam a rede interna do bitcoin. Auxiliados por centenas de “mineradores" anônimos, eles controlam uma "chave-mestra" pública, um registro público contendo cada transação envolvendo bitcoins e seu código de 32 dígitos. Por sua vez, cada código público é associado a um código particular de 32 dígitos conhecido apenas pelo dono dos bitcoins.

Os mineradores usam equações matemáticas e algoritmos que ricocheteiam pelo globo instantaneamente para verificar a autenticidade de cada transação. (Tradução de Augusto Calil)

 

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