Werther Santana/Estadão-19/1/2021
Gilson Rodrigues, líder comunitário em Paraisópolis e presidente do G10 Bank.  Werther Santana/Estadão-19/1/2021

Banco comunitário em Paraisópolis provê crédito para micronegócios

Sem moeda social, bairro da periferia de São Paulo tem desde 2020 banco de fomento a empreendedores de favelas; até agora, 87 receberam apoio do G10 Bank Participações

Giordanna Neves e Shagaly Ferreira, Especiais para o Estadão

24 de novembro de 2021 | 05h00

O bairro de Paraisópolis, comunidade da zona oeste paulistana, ainda não tem uma moeda social, mas desde novembro de 2020 conta com um banco  comunitário que pretende ser a maior rede de apoio aos pequenos e micronegócios de favelas do Brasil. O sonho de empreender, somado à dificuldade de acesso à crédito, motivou o surgimento do G10 Bank Participações.

“Se você olhar o perfil das pessoas que têm mais acesso a crédito negado pelos grandes bancos, são pessoas de favela, mulheres e negras. A melhor forma de ajudar o Brasil nesse momento é ajudando as pessoas a empreender, a ter acesso ao crédito, a montar a sua empresa, porque não existe combate à pobreza sem dinheiro no bolso”, afirma Gilson Rodrigues, líder comunitário em Paraisópolis e presidente do G10 Favelas e do G10 Bank Participações. 

Estima-se que Paraisópolis tenha cerca de 100 mil habitantes e 14 mil estabelecimentos comerciais, sendo a maioria pertencente aos moradores. Até o momento, 87 empreendedores locais receberam aporte financeiro do G10 Bank e mais de 500 pessoas estão inscritas para terem acesso à linha de crédito. A taxa de juros é de 0,99% ao mês.

A Favela Brasil Xpress, uma rede logística de entregas de encomendas fundada em setembro do ano passado, foi um dos negócios alavancados com o suporte do banco. “Eu tive muita dificuldade para conseguir empréstimo em dois grandes bancos por ser um processo demorado e por eu ser um empreendedor jovem com uma ideia que parecia muito distante. O empréstimo do G10 Bank foi muito importante para dar um impulso inicial a esse empreendimento”, relata o CEO e fundador da Favela Brasil Xpress, Giva Pereira, de 21 anos.

A proposta do Favela Brasil Xpress é fazer com que os produtos comprados na internet cheguem nas casas dos moradores de regiões periféricas. “Além das residências não terem uma numeração em sequência, muitas encomendas não chegam por causa do preconceito. Os aplicativos e as empresas consideram as áreas periféricas como áreas de risco e bloqueiam a entrega”, explica Giva.

Além do suporte financeiro, o banco forneceu acesso a mentorias sobre como utilizar o dinheiro e como trazer bons retornos à empresa e à comunidade. Hoje, o Favela Brasil Xpress tem a sede em Paraisópolis, seis unidades em São Paulo e no Rio de Janeiro e já está com plano de expansão para outras 50 bases no Brasil. São, ao todo, 90 funcionários, entre operadores e entregadores.

No último dia 19 de novembro, na esteira do movimento pelo empoderamento financeiro das comunidades, foi inaugurada em Paraisópolis a “Bolsa de Valores das Favelas”, autorizada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e que conecta investidores às startups criadas em favelas. Ao todo, 18 negócios foram selecionados para os primeiros IPOs (oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês), incluindo a Favela Brasil Xpress.

“Qualquer pessoa, seja da favela seja investidor, pode aportar recursos nessas empresas a partir de R$ 10. Para estar apto ao IPO, a empresa precisa apresentar um plano de negócio e de investimento para termos garantias aos investidores. Poucas empresas da favela estão faturando R$ 10 milhões, mas muitas têm potencial para chegar lá, precisam apenas de um impulso”, explica Gilson Rodrigues.

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Moedas sociais impulsionam empreendedorismo em bairros populares

Circulação de cédulas em comunidades populares reduzem vulnerabilidade social e econômica; segundo pesquisa, Brasil tem ao menos 150 bancos comunitários

Giordanna Neves e Shagaly Ferreira, Especiais para o Estadão

24 de novembro de 2021 | 05h01

Primeira moeda social a circular no Brasil, a Palma foi criada em 1998, em Fortaleza, e duas décadas depois começou a fazer parte da história de Márcia Rodrigues, de 50 anos, moradora do Conjunto Palmeiras, região periférica da capital cearense. Com dificuldade de obter crédito em grandes bancos para abrir sua loja de salgados e doces, a empreendedora foi em busca de uma das linhas de crédito oferecidas pelo Banco Palmas, que opera a moeda social e cedeu um empréstimo de R$ 5 mil para Márcia inaugurar sua primeira unidade. Desde então, o estabelecimento passou a aceitar a Palma como forma de pagamento e a integrar a rede de fortalecimento da economia local.

“Eles apostaram em mim e com essa oportunidade eu cresci bastante. Em 2020, eu consegui abrir outra loja. Eles têm essa preocupação de que as pessoas invistam no bairro e que o dinheiro circule aqui dentro”, relata a microempreendedora. “A gente tanto recebe a moeda (no estabelecimento) como compra com ela (no bairro).”

Até colecionar histórias como a de Márcia, a comunidade de Palmeiras vivia um panorama econômico desolador. Joaquim de Melo Neto, diretor do Banco Palmas e coordenador da Rede Brasileira de Bancos Comunitários, explica que a motivação para o fortalecimento do comércio do bairro surgiu frente a um cenário de baixo desenvolvimento da região, fundada por pescadores em 1973. “Tudo de que a gente precisava tinha que ser comprado fora, seja um sapato, uma roupa, material de limpeza. A partir daí, tivemos a ideia de criar o banco, com fundo de crédito, que pudesse emprestar dinheiro para pequenas empresas produzirem localmente.”

Além do suporte financeiro aos negócios, ao longo dos anos o banco passou a oferecer à população a moeda Palma e o cartão de crédito Palma Card, que circulam apenas na comunidade. A carteira de crédito ganhou volume por meio de doações de voluntários, de pequenos empresários e até de organizações filantrópicas internacionais. Atualmente, 360 empreendimentos aceitam a moeda social e 10 mil pessoas são clientes do banco.

“O banco empresta para quem quer consumir por meio da moeda social. Isso gera emprego e gera renda porque aumenta o volume das vendas no comércio local. O propósito é criar uma rede de ‘prosumidores’: todo mundo no bairro produz e consome uns para os outros”, comenta Melo Neto. Ao longo de 20 anos, foram gerados, no Conjunto Palmeiras, mais de 4 mil postos de trabalho formais e informais, foram criadas seis empresas comunitárias e houve um aumento de 30% nas vendas do comércio, relata ele.

Moedas pelo País e novas apostas

Alavancar projetos locais, impulsionar o consumo e ampliar oportunidades de emprego nas próprias comunidades são o mote das moedas sociais. Com nomes e características próprias, elas surgem como solução transformadora para empreendedores que enfrentam as barreiras da vulnerabilidade socioeconômica no Brasil. O pioneirismo do modelo implementado pelo Banco Palmas está ramificado em variadas iniciativas pelo País.

Segundo dados da Rede Brasileira de Bancos Comunitários, hoje existem 150 bancos comunitários com moedas sociais próprias. O levantamento, feito pela pesquisadora e doutoranda em Geografia Humana da USP Carolina Gabriel de Paula Pupo, mostra que essas moedas circulam em 24 Estados atualmente.

Para a pesquisadora, as moedas locais são um instrumento fundamental de atuação dos bancos comunitários, pois são disponibilizadas para "o crédito de consumo e possuem juro zero, o que estimula sua circulação". "É importante ressaltar que, com a falta de auxílio por parte do governo federal, os bancos comunitários enfrentam dificuldades de manter suas atividades. Essas organizações locais  são fundamentais para a sobrevivência daqueles que necessitam de políticas do Estado", completa ela.

Outras localidades já planejam criar seu banco próprio, como é o caso da ONG Associação dos Amigos (Aban) de Juiz de Fora (MG), que atua nos bairros Dom Bosco e Jardim Casablanca. A entidade quer oficializar as operações da moeda local, chamada Digna, que foi criada em 2007 para desenvolver mulheres em situação de vulnerabilidade econômica. Em 2014, a ONG passou a dar suporte ao empreendedorismo feminino, e hoje são movimentadas mais de 7 mil Dignas por mês.

“Nós entendemos que era preciso criar um mecanismo de estímulo para que as mulheres começassem a definir passos. A pobreza acaba se configurando como um foco nas questões imediatas, em torno de metas de curtíssimo prazo. Então, como estimular as pessoas a traçarem metas de longo prazo? O papel da moeda social é dar o benefício de curto prazo para metas de médio e longo prazos”, explica Renato Lopes, diretor da Aban.

A cada uma hora de participação em reuniões e atividades semanais de capacitação e de desenvolvimento, as integrantes do projeto recebem 10 Dignas. No fim do mês, por meio de monitoramento por um aplicativo, o saldo é somado e o montante é entregue a elas. Para conhecer possibilidades de utilização da moeda em operações cotidianas e aprender a lidar com investimentos, as mulheres contam com aulas sobre educação financeira.

“Nós fizemos uma pesquisa há alguns anos e vimos que mais de 90% das mulheres nunca tiveram oportunidade de amadurecer a própria vocação. A hora de empreender é a oportunidade de fazer aquilo que lhes dá prazer”, afirma Lopes. 

Jaqueline Aparecida Nascimento, de 36 anos, moradora do bairro Dom Bosco, por exemplo, encontrou na produção de sabão um meio de geração de renda. Desempregada e com três filhos, ela resolveu abrir, em 2020, uma pequena empresa para monetizar o que era, até então, uma atividade de lazer. “Eu fiz cursos sobre empregabilidade e empreendedorismo. A moeda social serviu como um incentivo para eu empreender, abrir meu próprio negócio. A Digna me ajuda muito nas economias”, comemora ela.

Moeda unificada em quatro bairros de Salvador

Implementar uma moeda social que atenda aos interesses de uma comunidade exige conhecimento, estratégia e diálogo com os moradores. Foi assim com a criação da moeda Umoja, que circula em quatro bairros de Salvador, com concentração no bairro Uruguai, onde está situado o Banco Comunitário Santa Luzia. O agente de crédito do banco, Tiago Muniz, conta que moradores e empreendedores estiveram envolvidos nas discussões que culminaram na criação do banco próprio, no qual a Umoja (que significa “estar junto” na língua africana suaíli) pudesse ser gerenciada.

“Todo esse diálogo de construção do banco foi feito com a comunidade, foi apresentado aos empreendedores, aos comércios locais, aos moradores, não somente a criação e a implementação”, pontua Muniz, explicando que a força da moeda, atualmente, está nos setores do varejo. “Hoje, o nosso nicho é a rede de alimentação e vestuário.”

O empreendedor Clívio de Aragão, de 55 anos, é um dos integrantes do ramo de alimentação que se beneficiaram com a implementação da Umoja. Com seu mercadinho em funcionamento desde 2015, ele passou a receber a moeda social em 2017, com o objetivo de incrementar vendas, fomentar a economia do bairro e manter o dinheiro em circulação na comunidade. O resultado foi o aumento do número de clientes.

“Vários clientes ficaram procurando os estabelecimentos que aceitavam (a Umoja) e, como eu estava aceitando, eu passei a ter uma clientela maior. Então, para mim isso foi interessante não só pelo fato de eu estar colaborando com essa moeda e ao mesmo tempo está sendo ajudado, mas também para fomentar mais a economia e para que o dinheiro circule aqui no bairro. Ajudou a alavancar mais meu comércio”, diz.

Além de confirmar os benefícios citados por Aragão em relação ao uso da Umoja, Tiago Muniz destaca a valorização da moeda social quando comparada ao real. Segundo ele, as famílias têm dificuldade na manutenção alimentar. Então, o empréstimo da moeda social facilita elas conseguirem se estabilizar sem comprometer seu orçamento.

”Isso contribui para que a moeda se supervalorize frente ao real, uma vez que é mais fácil ele vir ao banco solicitar um empréstimo do que pedir ao vizinho para comprar algo para dentro de casa. Se ele pega 100 Umojas, ele vai devolver 100 Umojas, a gente não cobra juros. Isso também é o grande benefício da moeda”, explica.

Iniciativas com moedas comunitárias, como as que ocorrem no Ceará, em Minas Gerais e na Bahia, são exemplos de estratégias de impacto social. Para Maure Pessanha, presidente do Conselho da Artemisia, organização que fomenta negócios de impacto social no Brasil, tais mecanismos funcionam como soluções para o empreendedor em situação de vulnerabilidade econômica e promovem a cidadania empresarial.

“A partir do momento em que essa moeda é criada com o objetivo de fortalecer a economia local, educar financeiramente, sendo uma peça superimportante para a cidadania empresarial, ela é sim uma solução que poderia ser vista como uma tecnologia social a ser replicada em outras regiões. O que essas organizações precisam é de toda uma série de apoio para se profissionalizar, os funcionários (precisam) se capacitar, elas precisam de acesso a financiamento”, ressalta. 

A especialista também pontua a relevância dos bancos comunitários no processo de educação financeira. “Cidadania financeira não é só a pessoa ter acesso a produtos e serviços financeiros, é ela ter acesso e fazer o uso com qualidade desse serviço. Então, (os bancos) são peças importantes porque atuam em regiões que não têm serviços financeiros, são organizações que têm um forte envolvimento com as demandas sociais das comunidades e são uma rede de apoio muito importante, uma fonte de capacitação para esse empreendedor”, enfatiza Maure. 

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