Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Bancas de revistas ganham releitura com novos negócios

Serviço de bebidas e venda de livros dão novo significado a bancas, que sofreram redução de 25% nos últimos 10 anos na cidade de São Paulo

Mateus Apud, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2019 | 06h10

As bancas de jornais e revistas, que sofreram uma baixa no mercado com a digitalização da informação, viram nos últimos anos a sua ressignificação a partir de novos negócios. São empreendimentos como Banca do Kiro, Banca Tatuí, Banca Curva e Combo Café & Cultura, que vendem produtos editoriais de outro jeito - ao lado até do serviço de bebidas.

De acordo com a Secretaria Municipal das Subprefeituras, hoje há 2.371 termos de permissão de uso (TPUs) cadastrados para bancas de jornais e revistas na cidade de São Paulo. Em 2010, eram 3.178, uma queda de 25,4% em 10 anos.

Na Banca do Kiro, aberta há menos de um mês em Pinheiros (R. Cônego Eugênio Leite, 825), o espaço é alugado e funciona como um ponto de venda da bebida switchel (não alcoólica) e de livros com curadoria da editora Inesplorato. Segundo o sócio da Kiro Roberto Meirelles, o empreendimento nasceu por meio da literatura e por isso a ideia de abrir um espaço físico em uma banca. 

“Desde que abrimos a marca Kiro, em 2017, sempre tivemos interesse em criar um espaço de exposição da bebida e para as pessoas mergulharem na literatura. A banca de jornal engloba tudo isso, pois é um ponto ativo na rua e é um centro de cultura”, diz ele.

Antes vendido apenas em restaurantes, o switchel (feito de gengibre, vinagre de maçã, mel e água) pode ser levado em garrafas fechadas ou tomado direto de uma chopeira. Além dele, a curadoria de livros se lança a “entender o cenário atual social, econômico, político e cultural do País”, com títulos como Sintomas Mórbidos, de Sabrina Fernandes, e O Bem Viver, de Alberto Acosta.

“Foi uma decisão super acertada (de abrir a banca), pois conseguimos manter a origem da banca, que é promover cultura, e ao mesmo tempo ressignificando o espaço que estava se tornando obsoleto”, acrescenta o empreendedor. “Além disso, a banca é uma fachada ativa por si só. Faz parte do caminho do pedestre.”

Essa visão da banca de jornal como ponto de interação com os passantes também é compartilhada pelo dono da Banca Tatuí, João Varella. “A banca é um espaço muito democrático. Como ela faz parte da rua, ela tem esse caráter de estímulo, de convite, de acessibilidade para todas as pessoas.”

Uma das pioneiras nessa onda das novas bancas, a Tatuí (R. Barão de Tatuí, 275, Santa Cecília) foi fundada em 2014 como complemento das atividades da editora independente de Varella, a Lote 42. “As grandes livrarias sempre rejeitaram as pequenas editoras e elas são obrigadas a sobreviver nas feiras. Então, nós articulamos a banca para ser uma espécie de feira permanente para essas pequenas editoras além da minha.”

Reunindo mais de 200 editoras independentes, a Banca Tatuí funciona como uma livraria do nicho e também conta com e-commerce. “Nesses cinco anos de banca, ela deu tão certo que já temos um desdobramento: a Sala Tatuí, onde buscamos promover uma espécie de apropriação cultural para região”, diz ele, sobre o espaço em frente à banca onde são realizados shows, lançamentos e cursos.

Curadoria de artistas

Fundada em 2017, a Banca Curva (R. Dr. Cesário Mota Júnior, 340, Vila Buarque) é também ponto de encontro de artistas manuais, pintores e escritores. “Eu sempre trabalhei com arte dando aula e estive envolvido em feiras com meus trabalhos. Em 2018, resolvi encarar o desafio de ter um negócio próprio e quis abrir uma livraria colaborativa onde cada autor pudesse exibir suas obras", conta o sócio Rodrigo Motta.

Em busca de um espaço tradicional, calculou que os custos tornariam o negócio inviável. No meio do caminho, surgiu a ideia da banca. “Eu sempre morei aqui por perto e vi que tinha uma banca que não estava sendo utilizada. Conversei com o dono e o convenci a vender a banca pra mim. Daí, montei aquilo que queria para a livraria, um local com várias estantes de madeira onde cada autor fica em seu espaço.”

Com curadorias feitas trimestralmente, Motta afirma que a decisão de abrir a livraria colaborativa em uma banca é ótima para o nicho. "O primeiro ano foi muito de aprendizado. Desde então eu só tenho colhido frutos positivos, com os números da venda e de artistas que querem expor.”

Já a Combo Café & Cultura, inaugurada no começo deste ano (Al. Franca, 1.154, Cerqueira César), agrega aos livros o prazer do café, “dois prazeres atemporais”, na definição do sócio Lucas Ferrer Alves. “A banca é um espaço extremamente acessível. Ela está na rua, qualquer um pode chegar e cruzar a banca, ela está no seu caminho.”

Com cafés especiais e mais de 1,5 mil títulos de livros, o empreendimento está alocado em uma das bancas mais antigas da região e sua curadoria foi feita para surpreender os clientes. Entre os títulos, há O Alienista, da Editora Antofágica, e O Arquipélago Gulag, da Editora Carambaia. “Todos os títulos são pensados e selecionados para surpreender e trazer coisas novas para quem quer tomar um café e ler um livro.”

* Estagiário sob a supervisão do editor de Economia, Alexandre Calais

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