Fernanda Mendonça
Rafaela achou uma solução no setor Fernanda Mendonça

As microfranquias levam a novos horizontes

Sem oportunidades em sua área, engenheira Rafaela Corrado investiu no segmento

Estadão, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2019 | 06h00

A engenheira Rafaela Corrado, de Arapongas, no interior do Paraná, teve dificuldade de reinserção no mercado de trabalho depois de uma gravidez. Diante desse quadro, ela decidiu comprar, por R$1,9 mil, uma microfranquia da Suporte Smart, empresa de conserto de celulares em domicílio. Hoje, de volta ao batente, recebe uma média de R$ 2,5 mensais.

Agora, pode reservar as manhãs para se dedicar ao filho de dois anos. “Faço meu horário e atendo quantas pessoas quiser por dia”. A rotina com a franquia é flexível. “Clientes que veem a propaganda entram em contato tanto pelo site para solicitar um técnico. Contam uma prévia do que está acontecendo com o aparelho e vou até eles.”

Mas é preciso tomar alguns cuidados ao abrir uma microfranquia. Principalmente em momentos de desemprego e dívidas acumuladas. O consultor do Sebrae de São Paulo Ruy Barros observa que esse perfil de empreendedor pode cometer erros graves. “Se não fizer o processo de pesquisa e planejamento da forma correta e investir o dinheiro em coisas erradas, depois de seis meses ou um ano estará mais endividado ainda”, alerta.

Há outro ponto. O custo de aquisição pode levar à falsa impressão de que microfranquias são uma forma de “comprar o emprego”. A Associação Brasileira de Franchising (ABF) diz que custam até 90 mil reais. Há opções por menos de R$ 2 mil, como foi o caso de Rafael em Arapongas. “Vou abrir um negócio só porque não quero ter chefe ou horário? É melhor não abrir”, alerta Fabiana Estrela, diretora de capacitação da ABF.

Já Barros lembra que é importante observar as cláusulas do contrato. “Há pessoas muito dinâmicas. O franqueado vai ser dono do negócio, mas precisa obedecer as regras do franqueador.”

É preciso certeza de afinidade, lembra Estrela. “Quando se abre um negócio, mesmo pequeno, há um investimento de energia muito grande.”

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Entrevista: 'O negócio de franquias é resiliente'

Para André Friedheim, presidente da Associação Brasileira de Franchising (ABF), setor oferece vantagens para quem deseja abrir primeiro negócio

Estadão, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2019 | 06h00

Para André Friedheim, diretor-presidente da Associação Brasileira de Franchising (ABF) para o biênio 2019/2020, as franquias oferecem importantes vantagens a quem começa um primeiro negócio. Uma delas são as marcas mais fortes presentes no setor. Com nomes consolidados no mercado, a segurança para um investimento é maior. “É preferível uma marca que já conheço que tentar algo novo de que posso me arrepender depois”, disse.

Segundo Friedheim, o mecanismo de funcionamento em redes também faz diferença. Isso porque proporciona maiores ganhos de escala, mais know-how e acesso mais fácil a fornecedores e tecnologia. Mesmo assim, é preciso tomar alguns cuidados. “Qualquer negócio envolve riscos, e com franquias não é diferente”, alerta. Por isso, é preciso planejamento antes de começar e comprometimento depois de iniciado o negócio.

Quais são os impactos da crise no setor?

O varejo sofre um pouco mais com essa situação, mas o franchising é mais resiliente do que os outros setores. Temos marcas mais fortes, mais know-how, maiores ganhos de escala, acesso mais fácil a fornecedores, tecnologia mais acessível. O investidor ganha mais força para competir.

E as perspectivas diante do cenário econômico do País?

Todos os desafios conhecidos na economia, como a alta carga tributária, também afetam o setor de franquias. Mas, os ganhos de escala acabam facilitando a superação das dificuldades. Vejo boas perspectivas mesmo na crise, porque trabalhar em rede é mais vantajoso do que de forma independente.

Por que ser um franqueado pode ser vantajoso?

Eu defino franquia com a palavra ‘acesso’. Pode ser a marca, o know-how, a tecnologia, os ganhos de escala. A possibilidade de participar de uma rede de negócios garante ao empreendedor mais força do que se fosse em um negócio individual. A franquia dá essa vantagem, que é de sair na frente. Mas, nada vai substituir o trabalho do franqueado na ponta. Sempre com apoio do franqueador.

Quais os segmentos mais promissores para se ter uma franquia?

Alimentação é um setor tradicional, continua crescendo. Os aplicativos são mais um canal de distribuição que ajudam o segmento. As pessoas comem três vezes por dia. Então, é um setor bem forte. Há, também, os serviços educacionais, porque existe um déficit do governo que permite que empresas de escolas particulares tenham um espaço a crescer. Só uma minoria do país fala inglês, por exemplo. E o setor de serviços em geral. Estamos passando por uma fase de profissionalização dos serviços no Brasil. Isso tem influência de marcas de franquias estrangeiras. Se antes os clientes podiam ficar incomodados com o ambiente de oficinas mecânicas, agora já existem marcas que prestam esse serviço de forma muito mais profissional do que no passado: fornecem nota fiscal, seguro, treinamento aos funcionários, a oficina está sempre limpa. Você confia mais. Todo esse processo de profissionalização dos serviços vai fazer com que esse segmento continue crescendo por mais um tempo.

Existem vantagens específicas em se trabalhar com uma marca?

A marca é muito mais importante no atual momento, porque ninguém quer errar ao fazer uma compra. Com a credibilidade da marca, a compra é certeira. É preferível uma marca que já conheço do que tentar algo novo de que posso me arrepender depois.

Os empreendedores de franquias também enfrentam riscos?

Qualquer negócio envolve riscos e com franquias não é diferente. Mas, o risco é menor. As taxas que devem ser pagas às franqueadoras ainda são menores do que os custos de abrir uma empresa de maneira independente.

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Expectativa de vida cria oportunidade na saúde

Franquias começam a surgir com o envelhecimento da população

Estadão, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2019 | 06h00

A médica Joyce Caseiro abriu a empresa Terça da Serra, de cuidados a idosos, em 2014. A primeira unidade, em Jaguariúna, interior de São Paulo, já começou lotada."Não imaginava que, cinco anos depois, o negócio se tornaria uma franquia de 45 unidades. A proposta é oferecer um local acolhedor a pessoas idosas. O diferencial é que serviços médicos eventualmente necessários fazem parte do pacote. “É uma casa com bastidor de hospital”, diz ela.

Além das unidades Terça da Serra, a rede também inclui o empreendimento Quinta da Colina, um pouco mais em conta – as mensalidades custam R$ 4,5 mil e R$ 3 mil, respectivamente.

“Alguns queriam ser atendidos, mas não podiam pagar. É o mesmo serviço, mas só um pouco menos personalizado”, explica Joyce.

No primeiro modelo há quartos individuais. No outro, são divididos. Joyce conta que o processo para converter o modelo de negócio em franquia foi rápido. Outros médicos souberam da proposta e quiseram investir. Duas novas unidades devem iniciar trabalhos em breve – uma em Belém (PA) e outra em Juiz de Fora (MG).

O caso da Terça da Serra não é o único. Algumas franquias já observam oportunidades com o envelhecimento da população. Um estudo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em maio, mostrou que, entre 2012 e 2018, o número de brasileiros com mais de 65 anos cresceu 26%.

“Há também um aumento da qualidade de vida. A pessoa envelhece com saúde e, se souber se planejar, com dinheiro”, diz a coordenadora do Business HUB da FAAP, Alessandra Andrade.

Luiz Felipe Breternitz é dono de quatro franquias da rede Terça da Serra no interior de São Paulo. Médico, ele não quis deixar a profissão. “Um jovem tem pneumonia e em sete dias já deve estar bem. Um idoso pode levar três meses”, explica Breternitz.

As particularidades do público-alvo inspiram também cuidados com o ambiente em que vivem. “Em três meses no hospital, um idoso terá mais complicações por estar internado do que pela própria pneumonia que o levou lá.”

Outra possibilidade são negócios voltados a idosos que necessitam de cuidados especiais. A enfermeira Melina Probaos resolveu abrir uma franquia da Home Angels na capital paulista por identificação com o público. “Sempre gostei desse nicho”, afirma.

A empresa oferece serviços de cuidadores de idosos que vão à casa do cliente. “Atendemos nossos assistidos na própria residência porque achamos que deixá-los em ambiente familiar é melhor para o bem estar.”

Para o bom funcionamento do negócio, Melina supervisiona com atenção um grande número de cuidadores. “Eles são responsáveis por tudo que envolve o mundo do idoso: desde a questão emocional até higiene, lazer, refeição”, conclui a enfermeira.

 

Plano de saúde caro impulsiona setor

O segmento de franquias em saúde, beleza e bem estar teve crescimento de 9,2% em faturamento no primeiro trimestre de 2019, em comparação com o mesmo período de 2018. Houve 6,7% de expansão de novos negócios nesse período. “O que mais puxou o aumento foram serviços médicos e odontológicos, além de óticas”, explica Vanessa Bretas, gerente de inteligência de mercado da ABF. A expansão deve continuar.

“Há um nicho intermediário na população que não tem acesso a planos de saúde mais caros”, afirma Vanessa.

Essa percepção levou a enfermeira Lilian Scucuglia a abrir uma franquia da PartMed em Ourinhos (SP) em 2018. Sensibilizada com a realidade da saúde pública, decidiu-se por um negócio de perfil popular.

“O paciente não pode pagar um plano de saúde, mas não quer ficar um ano esperando um atendimento.”

Enquanto o marido de Scucuglia, médico, é o responsável técnico, ela cuida dos aspectos administrativos. “Meu faturamento em maio foi 26,2% mais alto que em relação a abril”, comemora.

É bom lembrar que o dia a dia em negócios de saúde é pesado. O médico Otávio Gomes tinha essa percepção e escolheu abrir uma franquia de estética. É franqueado da Posé, em Goiânia. A formação como médico é de utilidade no negócio de procedimentos estéticos porque em ambas as atividades é importante a capacidade de empatia com as pessoas atendidas. “Às vezes, procuram fazer um procedimento de beleza, mas o que buscam, de fato, é uma conversa”, conta.

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Em educação, tecnologia e aula presencial são apostas

Inovações e adaptações em cursos contrastam com ensino tradicional

Estadão, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2019 | 06h00

O setor educacional busca inovar e se adaptar ao atual paradigma tecnológico, com a criação de novos cursos adaptados às necessidades do momento, como aulas de videomaker, criação de aplicativos, games e robótica. No entanto, ainda aposta na presença do professor em sala de aula e na troca de experiência entre alunos, elementos tidos como de alta relevância para o aprendizado.

Apesar da crise, o segmento também tem conseguido manter sua resiliência, apostando no desejo de capacitação resultante desse período, seja da parte daqueles que buscam melhorar seu currículo para conseguir um emprego, seja daqueles que desejam aprimorar seus conhecimentos para manter seu emprego atual ou alcançar uma promoção.

Segundo a última pesquisa da ABF (Associação Brasileira de Franchising), que mostra o crescimento dos setores no primeiro trimestre de 2019, o segmento de educação aumentou seu faturamento em 8,1% e expandiu seu número de unidades em 6,9% em relação ao mesmo período do ano passado.

Bruno Padrão, diretor operacional da All Net, rede de escolas de idiomas, tecnologia e gestão empresarial, afirma que a franquia teve leve crescimento no primeiro trimestre deste ano, mas que os anos mais difíceis foram entre 2016 e 2018, quando mudanças foram necessárias, como capacitação dos colaboradores (equipe comercial e pedagógica) e alterações no modelo de negócios (comercialização de material didático, que antes não era feita).

Para ele, enquanto outros cursos têm apostado em programas interativos, em que um computador ensina as matérias, o que já pode ser encontrado no YouTube, a All Net ainda aposta no professor em sala, mas com uma abordagem mais prática.

“Na aula de informática, por exemplo, o professor não explica apenas o pacote Office, mas ensina para que essa ferramenta será útil no cotidiano dele para realizar outras coisas”, explica.

Segundo André Belz, fundador e sócio da Rockfeller Language, os últimos três anos foram de crescimento lento, mas este ano o cenário está mais favorável. As matrículas na rede aumentaram 40% no primeiro semestre de 2019 em relação ao mesmo período de 2018 e 60% dos alunos são adultos, o que indica uma busca por qualificação.

“A empresa precisa se adaptar ao aluno. Oferecemos cursos online com dias e horários flexíveis, mas diferentemente dos EADs comuns, temos acompanhamentos presenciais nas escolas”, afirma Belz.

Ele diz que a rede também oferece apoio complementar, seja por meio de aplicativo ou plataforma online, que permite ao aluno ter acesso a atividades complementares, acompanhamento com professores, agendamento de aulas e verificação de sua situação financeira.

Thiago Busigjnani, diretor Executivo do Centro Brasileiro de Cursos (Cebrac), também acredita na troca de experiência entre alunos na sala de aula.

“Os nossos cursos são 100% presenciais”, relata. Ele conta que a rede também tem criado novos cursos focados no público jovem (entre 15 a 18 anos), como robótica, criação de aplicativos, de games e videomaker. Outro investimento da empresa tem sido no curso de cuidador, devido ao aumento da expectativa de vida do brasileiro.

 

Franquias atendem os alunos idosos

Não são apenas as franquias de saúde que têm encontrado na população mais idosa um nicho promissor. Serviços de educação também exploram esse mercado.

A enfermeira Angela Guimarães, que tem 63 anos e hoje é aposentada, sempre teve dificuldade com o idioma inglês. Gosta muito de viajar para outros países e queria se comunicar melhor. “Ficava muito chateada por não saber o idioma”, conta. Um amigo falou sobre a Top English, uma franquia que oferece aulas de inglês na casa do aluno, e ela resolveu experimentar os serviços. “Tenho duas horas de aula por semana”, conta a enfermeira.

 

Uma professora de inglês, de 26 anos, vai à casa da aposentada no Recife (PE) às segundas e quartas. “O mais interessante é a conversação”, diz a aluna. Agora, ela tem uma viagem marcada para Vancouver, no Canadá, em agosto. Vai passar oito semanas estudando o idioma em uma escola local. A decisão foi por incentivo da professora.

O criador da franquia, Dilson Kossoki, conta que quase um quarto da base de alunos da Top English é de idosos, o que ele considera uma proporção expressiva.

Kossoki diz que a proposta de aulas na casa do aluno oferece facilidades que são bem-vindas para esse público. É que, em outras escolas, o aluno idoso precisa dividir turmas com os mais jovens. Como os ritmos de aprendizagem são diferentes, isso pode comprometer a eficácia do serviço. “Desanima o mais velho e o mais novo”, observa. Ele também nota que, muitas vezes, é a preocupação de evitar o alzheimer que leva os idosos a procurarem pelas aulas de línguas.

A franquia All Net, que oferece aulas voltadas à tecnologia, também encontrou uma forma de contemplar esse nicho de mercado. O curso “Melhor Idade” proporciona conhecimentos sobre o pacote Microsoft Office, além de noções sobre segurança virtual, serviços bancários que podem ser feitos online, entre outros. Os alunos do curso são de todas as faixas de renda, segundo o franqueado Bruno Padrão, que tem uma unidade da All Net na capital paulista. “Para esse público não existe muito um corte de estrato social”, explica.

Padrão observa que a procura pelo curso está mais relacionada à falta de atividades durante o dia e ao fato de que a maioria dessa população não teve oportunidade de assimilar conhecimentos em tecnologia no dia a dia.

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