Foto à Rolê/Cedida pelo Apptite
Foto à Rolê/Cedida pelo Apptite

App de delivery lança modelo de franquia para cozinhar em casa

Com R$ 15 mil de investimento, franqueado recebe cardápio e primeiros insumos para fazer as refeições; modelo tende a crescer após pandemia evidenciar importância de investir nas entregas em domicílio

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2021 | 10h00

A pandemia do novo coronavírus apenas evidenciou - e impulsionou - o que já vinha sendo observado no setor de alimentação: o delivery é essencial. Em todo o mundo, as vendas por essa modalidade mais do que dobraram entre 2014 e 2019 e 52% dos consumidores sentem-se confortáveis em fazer pedidos de um restaurante que só tem opção de entrega, sem espaço físico, segundo a Euromonitor International.

O aplicativo Apptite já surfava nessa onda quando foi lançado em 2016, viu a demanda triplicar nos primeiros meses de crise sanitária em 2020 e agora dá um passo adiante ao lançar um modelo de microfranquia com investimento de R$ 15 mil (R$ 10 mil de taxa e R$ 5 mil entre equipamentos e primeiro estoque). A pessoa tem acesso a treinamentos e um canal para compra de produtos com fornecedores homologados. O cozinheiro também fica despreocupado com marketing, financeiro, logística, pagamento e entrega, pois tudo é feito pela empresa.

Ambos os setores - delivery e pequenas franquias - tendem a crescer. De acordo com a Associação Brasileira de Franchising, a pandemia aumentou o interesse por microfranquias, cujo investimento é de até R$ 90 mil. Em todo o País, 562 redes operam nesse modelo. Já uma pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) mostrou que o crescimento do número de pedidos via aplicativo gira em torno de R$ 1 bilhão a cada mês, uma movimentação em torno de R$11 bilhões a cada 12 meses no Brasil.

Marcus Salusse, professor do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV), avalia que o valor do investimento em microfranquias tem relação direta com a rentabilidade, então o ponto de atenção é analisar como o mercado está evoluindo - nesse caso, o de alimentação. "Em um mercado super concorrido, é difícil conseguir rentabilidade alta, independente de ser microfranquia. A vantagem [da microfranquia] é que tem processo estabelecido", diz.

O especialista orienta estudar a rentabilidade de vários setores, mas afirma que o mercado de franquias já é bem consolidado, com tamanhos dos espaços, faturamento, royalties e apoio que o franqueado recebe já conhecidos. Segundo ele, as microfranquias são um modelo favorável ao perfil do empreendedor brasileiro que tem pouco capital ou ainda não se sente preparado, confortável o suficiente para investir sozinho. "Se associar a uma marca ajuda bastante."

Um levantamento do Sebrae realizado em abril de 2020 com 6.080 empreendedores de todo o País estima que 400 mil pequenos negócios tiveram aumento médio de 47% na receita. No segmento de alimentos e bebidas, 92% dos que elevaram o faturamento adaptaram o negócio ao modelo de delivery. Em conjunto, a instituição e a Abrasel apoiaram a elaboração da Cartilha Delivery: 8 passos para implantar um delivery de sucesso (acesse aqui). O material traz dicas e orientações para que o empreendedor reflita sobre o diferencial do próprio negócio, a organização da oferta, pense sobre as embalagens, faça testes e divulgue seus processos. 

Franquias de delivery

Com conceitos variados, outras empresas também apostam em franquia de delivery. O Mr. Fit, por exemplo, tem foco em alimentação saudável e uma opção de microfranquia baseada em casa com investimento inicial de R$ 6.250, uma redução de preço antes fixado em R$ 17 mil. Também com possibilidade de trabalhar do próprio lar, o Rapchef atua com refeições congeladas e o franqueado desembolsa R$ 7,5 mil inicialmente para ter o negócio. Já a Chicken Town, com modelo 100% focado em delivery, tem investimento mais alto de franquia que vai de R$ 75 mil a R$ 120 mil.

A adaptação de um negócio para o delivery é um movimento que veio para ficar, segundo o professor da FGV. "A não saída da pandemia só acelerou e acabou aumentando nosso costume de fazer pedidos online. Além disso, o custo do espaço fixo sempre foi um dos maiores no negócio. A microfranquia está se dispondo a fazer isso por menos e o delivery é muito apropriado para esse modelo", afirma Salusse.

O Apptite, que por enquanto atua apenas na cidade de São Paulo, conecta cozinheiros locais, que produzem de forma mais artesanal, a clientes que buscam um toque especial nos pratos. Todos os cadastrados no app atuam na cozinha de casa. "No modelo de franquia, é a mesma coisa, home chef, mas a diferença é que a gente oferece um cardápio definido, passa a receita para esses franqueados e todos os insumos. O que ele tem de fazer é cozinhar", explica Guilherme Parente, CEO e fundador do aplicativo.

O cardápio é definido com base nas informações da plataforma, com os pratos mais buscados pelos consumidores. A vertente de franquia prioritária nesse primeiro trimestre de 2021 é a Apptite Pasta e outras devem vir em seguida, com foco em hambúrgueres, sushi e frango. A empresa informa que o menu foi 100% pensado para a cozinha de casa, com operação para uma ou duas pessoas executarem. Segundo Parente, a padronização é uma facilidade para aqueles que têm pouca experiência na preparação de insumos, mas ama cozinhar.

"Tem chef que fatura R$ 20 mil trabalhando em casa, mas tem muitos que não faturam mais de R$ 2 mil, R$ 3 mil porque faz um tipo de comida que não tem apelo comercial", diz o CEO. Com o Apptite, a empresa estima que o franqueado poderá alcançar R$ 15 mil de faturamento e R$ 4 mil de lucro líquido no sexto mês de operação, mas tudo depende da execução e localização, podendo ter valores maiores ou menores. O retorno sobre investimento deve vir em três ou quatro meses, afirma.

Salusse explica que, embora as franquias, de maneira geral, tenham rentabilidades conhecidas, o comportamento do empreendedor também dita o sucesso do negócio. "É como a pessoa faz conexões, se comporta de forma ativa para conquistar clientes", diz o professor da FGV. Mas um cenário possível também é investir em mais de um microfranquia para ter rentabilidade maior, com gestão unificada e um mesmo contador para tudo.

No geral, o franqueado do Apptite fica com 75% do valor de cada pedido e os outros 25% remuneram a plataforma, os royalties da franquia, a logística integrada, as taxas de cartão de crédito e outros custos da franqueadora. "A gente está democratizando o empreendedorismo para o dono de casa, aquele sub chef de restaurante que ganha mal e trabalha muito", exemplifica Parente.

Para se tornar um franqueado, além de gostar e saber cozinhar, é preciso ter um perfil empreendedor. Tudo isso é avaliado após o interessado se cadastrar no site da empresa. Dentro ou fora do modelo de franquia, o Apptite faz um processo de seleção com os cozinheiros, com entrevista, avaliação do bairro e estrutura da cozinha, por exemplo. No ramo em que já vem atuando, o CEO afirma que metade das pessoas que se cadastram entram para a plataforma. Destas, 40% ficam, uma vez que um histórico recorrente de notas ruins leva pode levar à saída do chef. Também é preciso fazer um curso de boas práticas da Anvisa para operar a cozinha.

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