Arthur Pitchon
Arthur Pitchon

Após vaquinha virtual, negócios precisam de planejamento para sobreviver

Plataformas de financiamento coletivo ajudam empresas a sair do papel, mas arrecadação superior ou inferior ao esperado leva empreendedor a adaptar produção e logística

Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2019 | 14h00

Especial para o Estado

Utilizadas principalmente para ações sociais e arrecadação de dinheiro para tratamentos de saúde, as plataformas de financiamento coletivo (ou crowdfunding) podem se tornar aliadas de pequenos empreendedores e ajudam projetos a sair do papel. Por meio delas, é possível angariar recursos para ações que vão desde a criação de uma empresa até o lançamento de uma nova linha de produtos. Conseguir novos sócios também é uma perspectiva.

Em 2016, os amigos Arthur Pitchon e Flavio Calic decidiram abrir um negócio. Formado em computação, mas apaixonado por culinária, Arthur percebeu que havia um nicho na área de gastronomia: o de fornecimento de utensílios de qualidade, raros e caros no Brasil.

"Faltava uma marca com um conceito bacana, um produto robusto, com qualidade boa e preço acessível", diz o empreendedor. Aos "45 do segundo tempo", os sócios decidiram colocar a ideia de pé com ajuda do crowdfunding.

Os amigos escolheram a plataforma Catarse para a campanha. "Nós percebemos que era muito mais fácil apresentar a ideia para uma base de clientes já estabelecida, como é o caso da plataforma, do que criar um novo site e tentar gerar tráfego por lá", conta Arthur. A meta – angariar R$ 35 mil – foi batida com facilidade. Ao final de 35 dias de campanha, a Deli & Co, como foi nomeada a empresa, havia arrecadado R$ 200 mil.

O caminho, no entanto, não é fácil. Arthur afirma que o primeiro passo para uma campanha bem sucedida é estudar casos que deram certo. "Nós vimos como a comunicação foi feita, como eram produzidos os vídeos. A ideia não é copiar, mas replicar, adaptando a fórmula que deu certo à realidade do seu negócio", explica.

O planejamento também é importante. "É preciso ter uma previsão de receita, uma previsão financeira, feita da maneira mais assertiva possível para não ser surpreendido de forma negativa na hora de viabilizar o negócio", diz.

A sobrevivência do negócio depois de uma campanha bem sucedida é outro desafio. Fundador da Mola Structural Model, o arquiteto Marcio Sequeira precisou lidar com uma situação inesperada: a primeira campanha de financiamento coletivo da sua empresa, que pretendia arrecadar R$ 50 mil, foi finalizada com R$ 600 mil, 1.100% a mais do que o valor esperado.

Inicialmente, Marcio pretendia desenvolver a primeira leva de produtos, que usam molas para simular o funcionamento de estruturas de edifícios, sozinho e manualmente, em sua casa. Com o valor arrecadado, no entanto, a demanda foi muito maior do que o planejamento.

"Precisei alugar sala, contratar funcionários e aprender produção na marra", conta o empreendedor. "Quando você tem uma campanha bem sucedida, as pessoas pensam que você ficou rico, mas não é assim. Nós tivemos que trabalhar muito e gastar mais do que arrecadamos."

A chegada do produto ao mercado também trouxe novas questões. Os clientes, cerca de mil à época, começaram a pedir peças novas e a buscar sistemas mais completos, gerando necessidade de novos produtos e, portanto, de crescimento da empresa. Sem capital para tanto, a MSM lançou uma nova campanha em 2016, com uma meta mais ousada, de R$ 350 mil, também bem-sucedida.

"Eu não sei dizer o que foi mais difícil, arrecadar o valor ou entregar tudo depois", diz Marcio. Para continuar crescendo, a empresa aposta em novas campanhas de financiamento coletivo e na venda dos produtos. Juntas, as duas fontes garantem 100% do capital. No futuro, Marcio vislumbra a possibilidade de trabalhar com um modelo híbrido de investimento, à base de crowdfunding e investidores tradicionais. 

Possibilidades de financiamento

As duas empresas, Deli & Co e Mola Structural Model, foram criadas com ajuda da forma mais comum de financiamento coletivo, baseada em doações e recompensas. Encontrado em sites como Catarse, Benfeitoria e Kickante, o modelo tem um funcionamento simples: o dono do projeto estabelece prazo e meta, explica a ideia e lança a campanha. Quem acredita no negócio faz uma doação com um valor pré-estabelecido e, em troca, ganha alguma forma de recompensa, que pode ser um produto até um agradecimento em uma capa de livro, por exemplo.

Nessas campanhas, prazo e meta importam muito. O criador do projeto opta, inicialmente, por uma campanha "tudo ou nada" (em que é obrigatório atingir a meta dentro do prazo para receber o dinheiro) ou "flexível", que possibilita a retirada de dinheiro mesmo se o valor arrecadado for menor do que o previsto. Ambas têm vantagens e desvantagens, explica Marcio.

"A campanha tudo ou nada pode dar errado e terminar sem verba nenhuma, mas cria uma sensação de urgência no apoiador: se ele acredita no negócio, ele precisa doar rápido, ou a ideia pode não sair do papel", diz. "Já a flexível não desperdiça o que foi doado, mas também pode fazer com que o empreendedor precise entregar o que prometeu com menos dinheiro."

Sócio com o crowdfunding equity

Outra modalidade é o crowdfunding equity, regulamentado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em 2017 e propagado por sites como o Start Me Up e Juntos.com.vc. Por meio dele, startups podem angariar investidores, que com pequenas cotas ajudam a financiar as operações.

Foi a escolha dos sócios Marcelo Ajzen, Carolina Mentlik e Daniel Chinzon, da marca de bebidas Babuxca. "A marca existiu por um ano e meio com um produto de cachaça, mel e limão, mas percebemos que era o momento de lançar uma linha inteira, com mais dois sabores", explica Daniel. 

Ele conta que, há anos, amigos diziam que queriam investir na Babuxca, mas os sócios não sabiam como tornar a ideia possível. Com o equity, as duas questões foram resolvidas simultaneamente. A Babuxca ganhou 110 novos sócios, que levantaram R$ 400 mil em troca de 8% da empresa.

"Além de conseguir o aporte, de forma mais rápida do que por meio de um investidor anjo, por exemplo, também temos a possibilidade de ouvir novas ideias, de pessoas de diferentes perfis, que passam a vestir a camisa da empresa, divulgar o produto para amigos e oferecer contatos", afirma.

FAÇA A SUA CAMPANHA

1. A história do produto

O modo de passar a mensagem é fundamental. "Você deve apresentar a campanha de forma clara e objetiva, porque você está vendendo não um produto, mas uma ideia", diz Arthur Pitchon, da Deli & Co., que destaca a importância de um vídeo de divulgação. "Ele precisa ser bem feito. Foi um dos pontos em que mais investimos, contratamos até uma produtora."

2. A divulgação do produto

Para lançar a campanha da Mola Structural Model, Marcio Sequeira investiu dois anos em pesquisa de outras campanhas e pré-divulgação. "Facebook e Instagram ajudam muito, mas o projeto precisa ser divulgado para além das redes. Eu criei manualmente um mailing com 10 mil possíveis clientes e marquei 42 palestras em cinco Estados para divulgar o produto em universidades."

3. A plataforma certa

Daniel Chinzon, da Babuxca, destaca a importância de escolher o parceiro ideal para a campanha. "A plataforma que escolhemos (Start Me Up) mandava e-mails para listas de investidores, fazia eventos, intermediava encontros, dava cupons de desconto para que as pessoas conhecessem a marca”, conta. “É importante encontrar uma plataforma que vai te ajudar'. 

 

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