REUTERS/Bobby Yip
REUTERS/Bobby Yip

Aplicativo chinês promete beleza instantânea

Startup Meitu abriu o capital em Honk Kong, levantou US$ 629 milhões de investidores e agora quer ganhar o mundo

Amie Tsang e Emily Feng, The New York Times

03 de janeiro de 2017 | 12h11

Seu telefone pode deixar seu rosto mais branco, dar uma ajeitadinha no seu queixo. Pode afinar as bochechas, aumentar um pouco os olhos e, obviamente, deixá-lo mais magro.

Na China, a beleza – de um tipo particular – pode surgir ao simples toque da tela. Um aplicativo chamado Meitu permite que os usuários criem versões idealizadas de si mesmos e as compartilhem com os outros. Os fabricantes afirmam: “Nossa missão é tornar o mundo um lugar mais belo”.

O Meitu e aplicativos relacionados são extremamente populares na China. Eles contam com 446 milhões de usuários, e a empresa afirma que mais da metade das fotos que circularam nas redes sociais do país em junho foram alteradas por meio de seu aplicativo de edição.

“O Meitu faz todo mundo ficar mais bonito de um jeito fácil”, afirmou Du Sha, de 26 anos, aluna de pós-graduação que usa o aplicativo principalmente para eliminar marcas de acne e clarear a pele. “É uma boa tecnologia para tornar as pessoas mais sociais e aumentar a autoconfiança”.

A empresa espera agora que seu aplicativo ganhe força em outros países. Em dezembro, o Meitu realizou um IPO de US$ 629 milhões em Hong Kong, que há muito tempo serve de plataforma para empresas chinesas a procura de investimento estrangeiro, e agora pretende levar seus aplicativos fotográficos para outras partes do mundo.

Resta saber se o mundo vai aceitar a visão de beleza propagada pelo Meitu.

Aplicativos como o Instagram e o Snapchat permitem há muito tempo que as pessoas apliquem filtros lisonjeiros e disfarcem os poros. O Meitu vai muitos passos além disso: as bochechas podem ser alongadas, o queixo cortado e os olhos contornados.

No entanto, suas ferramentas são adaptadas a um determinado padrão de beleza – de beleza feminina, na maioria das vezes – que está profundamente ligado à China e a países como a Coreia do Sul e o Japão: pele clara, traços delicados, membros magros, olhos largos e pele de bebê.

“Às vezes, quero ficar mais bonita. Quando uso o Meitu para consertar alguns problemas, me sinto mais confortável ao olhar para o meu rosto”, afirma Zha Nan, de 23 anos, pesquisadora de TI que usa o aplicativo há anos.

O Meitu afirma que equipes locais em diferentes mercados estão adaptando o software para outros padrões de beleza. Mas, o mais importante, é que a abordagem do Meitu sujeita a aparência aos lugares comuns da China contemporânea — como dinheiro, educação e um bom emprego, a beleza é um objetivo que pode ser alcançado.

A China – que passou da pobreza extrema a uma potência econômica em apenas uma geração – é um mercado visado. Empresas como a Apple, a Starbucks e a Audi lucram muito com a venda de produtos eletrônicos, cafés e carros caros aos consumidores chineses que querem mostrar que chegaram a um determinado patamar.

Ainda assim, a riqueza se concentra na mão de uma pequena elite e a média dos consumidores chineses só possui uma fração do poder de consumo de um norte-americano. Centenas de milhões de pessoas ainda vivem em zonas rurais com poucas perspectivas de trabalho remunerado. A competição para entrar na universidade é acirrada e para conseguir um bom emprego após a faculdade ela é ainda maior.

Para as mulheres, a vida pode ser ainda mais difícil. As leis antidiscriminação da China raramente são aplicadas. Anúncios de vagas de emprego geralmente especificam se o empregador está a procura de um homem ou de uma mulher e, no caso das mulheres, os anúncios geralmente estabelecem padrões de altura e aparência.

O crescimento do terceiro setor na China aumenta ainda mais a pressão em relação à aparência. No passado, o trabalho nas fábricas era tão estável que recebia o apelido de “panela de arroz de aço”. Mas com o crescimento do terceiro setor, o foco na aparência aumentou.

Liu Yu afirma que se sente pressionada a ter uma boa aparência. Ela usa fotos do Meitu até mesmo em cartões de identificação e no currículo, afirmou, embora nesses casos as edições sejam bem mais discretas do que as que ela posta nas redes sociais.

“Muitas mulheres sentem que têm muitas falhas. Todas esperam encontrar algum método que as tornem mais bonitas. O Meitu é a forma mais barata e conveniente de fazer isso”, afirmou Liu, de 23 anos, estudante de pós-graduação em cinema que usa o aplicativo para deixar o rosto mais fino, diminuir o nariz e tirar as olheiras.

Naturalmente, o Meitu não é responsável por criar esse fenômeno e rejeita a ideia de que seu modelo de negócios se baseia nas inseguranças e nas pressões sociais para crescer. Gary Ngan, CFO da empresa, afirma que oferece diversos aplicativos para que os usuários possam desenvolver um ponto de vista pessoal sobre a beleza.

“Nós adotamos uma visão ampla. Não se trata de uma ideia fixa de beleza asiática, mas de tornar as pessoas mais felizes.”

Para ele, a empresa está ajudando os usuários a se tornar mais confiantes e “mais bonitos na vida real”.

“Por exemplo, quando você afina seu rosto e percebe que fica com uma boa aparência, você entra em uma dieta, vai para a academia e se esforça para se tornar a pessoa da fotografia.”

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