Vivian Codogno/Estadão
Vivian Codogno/Estadão

Homem de 85 anos fatura vendendo caneta Bic no Centro de SP

Conhecido pelos frequentadores da Praça Dom José Gaspar, Nazir Moreira testemunhou transformações na cidade

Vivian Codogno, O Estado de S. Paulo

16 de março de 2017 | 11h03

Basta uma breve caminhada pela praça Dom José Gaspar, na região central de São Paulo, para perceber que praticamente todos os frequentadores conhecem o vendedor de canetas Bic que passa as tardes tocando gaita. Todos os dias, por volta das 13h, Nazir Moreira senta-se no mesmo banco em frente à Galeria Metrópole e coloca no próprio pescoço uma placa que com o seu nome, sua data de nascimento (10-08-1931) e o preço dos itens que vende. Sempre vestido de blazer, calça social e sapatos engraxados às terças-feiras, o senhor de 85 acumula histórias e amigos provenientes dos quase 13 anos em que marca presença no local.

Nazir vai de casa, no bairro vizinho da Liberdade, até o ponto do seu negócio caminhando. A ideia de vender canetas foi sugestão de uma amiga, já falecida, que conheceu no Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento, centro espiritual que frequenta. Desde 2004, ele sai da pensão onde mora aos sábados de manhã para renovar o estoque na rua 25 de Março. Cada caixa com 50 canetas custa a ele R$ 26 “e uns quebradinhos”. Na outra ponta, oferece as canetas por um real. Em dias de vendas polpudas, como a última terça-feira, Nazir chega a colocar mais de 30 itens em circulação nos arredores. E a clientela, mais variada possível, passa por trabalhadores, estudantes e antigos conhecidos do mascate.

“O Silvio Santos era camelô, não era? E olha o que ele virou!”, conta Nazir sobre sua maior inspiração nas vendas. “Não sou exatamente um ambulante, eu revendo. E tenho meus clientes fiéis”, comemora.

A relação de Nazir com o centro de São Paulo começou em 11 de julho de 1950, quando se mudou de Marília, no interior do Estado, para a capital com o irmão mais velho. O primeiro emprego, de barman em um restaurante na Rua Vieira de Carvalho, no Arouche, apareceu em uma semana. “Tinha terminado a Copa do Mundo no Brasil. Eu ouvia os jogos pelo rádio na Praça da República”, relembra. “Um dia, passei em frente ao Fasano, que ficava no número 40, e perguntei a um garçom se havia algum trabalho pra mim”, relata. Bastou conseguir um blazer branco, uma calça preta e uma gravata borboleta para começar no dia seguinte.

“O centro era muito chique, de uma placidez que não encontramos mais”, reflete Nazir. “Existia mais amor nas pessoas, elas eram mais humanas. Era uma cidade mais divertida e foi nela que comecei minha vida”, pontua com o olhar distante. Na mesma época, o empreendedor conheceu no restaurante um sueco que ofereceu a ele uma oportunidade para trabalhar em uma empresa de cruzeiros pelo norte da Europa. O medo -- definido pelo próprio vendedor como a derrota do ser humano -- falou mais alto e não ter ido é ainda um dos seus maiores arrependimentos. “Até hoje, o mais longe que cheguei de São Paulo foi o interior. Nem o Rio de Janeiro conheço”, lamenta.

Pouco estudo. A memória apurada de Nazir para datas, endereços e fatos históricos esconde a baixa escolaridade do vendedor, que precisou abandonar o terceiro ano do ensino fundamental para trabalhar na lavoura de café. Eleitor de Getúlio Vargas, admirador de John F. Kennedy e espectador de filmes de ação, seu sonho era ser policial, “mas um bom, não corrupto”.

“Eu tive muitos sonhos na vida”, comenta ao revelar que nunca quis se casar e concentra seus esforços hoje em parar de comer carne. Ao saber que conversava há horas com uma repórter vegetariana, abriu um sorriso que fez quase desaparecer os olhos verdes. “Olha que bonito! Me ensina a me livrar disso também!”

Antes de se despedir, pede permissão para tocar na gaita um trecho da música ‘When i fall in love’, do cantor de jazz norte-americano Nat King Cole. Às 15h51, depois de vender as cinco primeiras canetas da tarde, faz mais uma reflexão: “Na minha identidade sou Nazir Moreira e tenho 85 anos. Mas me sinto como alguém de 35. Não tenho medo de nada”.

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