Jake Naughton/The New York Times
Jake Naughton/The New York Times

Americana ensina como ganhar dinheiro investindo em startups

Os negócios com a Dollar Shave Club e a Jet.com ajudaram a levar Green este ano a ocupar o 12º lugar na lista dos 50 capitalistas de risco mais importantes do mundo

Katie Benner e Michael J. De La Merced, The New York Times

08 de abril de 2017 | 21h42

San Francisco – Kirsten Green não sabia muito sobre o investimento em startups antes de abrir um fundo de capital de risco em 2012. Mas possuía anos de experiência acompanhando o mercado varejista como analista em Wall Street.

Green, de 45 anos, utiliza esse conhecimento nos empreendimentos de sua firma de capital de risco e aproveita para dar conselhos especializados às empresas. Em uma de suas primeiras ações como capitalista de risco, participou do investimento de US$1 milhão no Dollar Shave Club, na época uma pequena startup, que vende lâminas de barbear para consumidores on-line. Depois, investiu na Jet.com, uma empresa de comércio eletrônico que dizia querer tomar o lugar da Amazon.

No ano passado, essas duas startups conseguiram o prêmio máximo: a Unilever comprou a Dollar Shave Club por US$1 bilhão, enquanto o Wal-Mart pagou US$3,3 bilhões pela Jet.com. Para Green, esses negócios se traduziram em ganhos imensos.

Pensar sobre “os compradores, o estado dos mercados públicos, como um negócio é avaliado – essa é uma maneira essencial para entender o ecossistema geral” das startups, diz Green, cuja firma de capital de risco pouco conhecida, Forerunner Ventures, tem sede em San Francisco.

Os negócios com a Dollar Shave Club e a Jet.com ajudaram a levar Green este ano a ocupar o 12º lugar na lista dos 50 capitalistas de risco mais importantes do mundo, segundo dados recolhidos pela CB Insights, empresa de pesquisa que avalia negócios com capital de risco. Outros capitalistas também conseguiram seus lugares na lista em parte por causa de grandes vendas ou ofertas públicas de ações (IPO na sigla em inglês para Inicial Public Offering) de suas startups, incluindo o recente IPO da Snap, a desenvolvedora do aplicativo de mensagens efêmeras Snapchat.

O lugar de Green, que não ficou entre os 20 melhores no ano passado, na lista demonstra que a medida real do sucesso em capital de risco é o quanto uma startup vale quando é vendida ou lança ações na bolsa. Isso é especialmente verdadeiro agora que se espera que a taxa de vendas de startups e IPOs – conhecidos como retirada de investimentos – atinja o auge em 2017, depois de uma longa calmaria, segundo a Renaissance Capital, empresa que acompanha as ofertas públicas. Neste ano já aconteceram duas estreias fortes: da Snap e da produtora de softwares corporativos Mulesoft.

Isso significa que os capitalistas de risco que alimentaram esses negócios podem finalmente colher algum dinheiro. “O fato de que temos visto mais retiradas e grandes oportunidades para essas retiradas é uma coisa boa”, explica Theresa S. Hajer, diretora administrativa da Cambridge Associates, empresa de consultoria de investimentos.

Green é considerada uma capitalista de risco pouco ortodoxa por várias razões. Além de nunca ter trabalhado em uma empresa de capital de risco antes de lançar a sua em 2012, ela é mulher em um campo dominado por homens. (Dos 20 investidores de risco no topo da lista deste ano, apenas três são mulheres.) E, ao contrário de muitos investidores de risco generalistas, que trabalham em uma grande variedade de áreas, Green foca especificamente em startups ligadas ao comércio e ao varejo.

Os investidores vêm há anos tentando encontrar a próxima Amazon ou um novo e-Bay, em geral sem sucesso. Fracassos famosos recentes no comércio eletrônico incluem a Fab.com, a One Kings Lane, a Shoedazzle e a Gilt, todas financiadas por empresas de investimento de marca, entre elas a Andreessen Horowitz, a Greylock Partners e a General Atlantic.

As raízes de Green no varejo são profundas. Ela começou sua carreira como auditora de contabilidade de empresas varejistas. No final dos anos 1990, acompanhou essas companhias como analista de ações para a Montgomery Securities, estudando medições controversas como tráfego de consumidores nas locações de varejo e lucratividade das lojas por metro quadrado. Ela também analisou o crescimento de marcas como Abercrombie & Fitch, Coach e Ugg.

Green concluiu rapidamente que o comércio on-line apoiaria a próxima geração de marcas importantes do varejo, mas que os consumidores não recorreriam a apenas uma maneira de comprar. Com o crescimento da Amazon e de outras empresas de varejo on-line, soube de mais registros de falência de varejistas tradicionais, assim como notícias de fechamento de lojas e relatórios de mudanças de participação no mercado. Mas também viu o sucesso de empresas que faziam conexões emocionais com os clientes e analisavam mais profundamente o comportamento deles.

“O varejo hoje é totalmente impulsionado pelos consumidores e suas necessidades”, conta ela. “As pessoas podem comprar o que querem da maneira que quiserem. Essa tendência começou muito tempo atrás, e está realmente mudando tudo.”

Em 2003, Green decidiu deixar de apenas analisar essa mudança para investir nela. Por um tempo, trabalhou como consultora em um fundo de investimento antes de montar a firma de capital de risco impulsionada por seu interesse em empresas jovens. Em 2010, formou um fundo de investimento anjo para fazer um aporte único em companhias como a Birchbox, serviço de assinaturas de cosméticos, e na Warby Parker, fabricante de óculos, enquanto estudava como montar o fundo de risco.

Em 2012, Green estabeleceu um fundo de US#40 milhões. A empresa de investimentos Cendana Capital contribuiu com US$10 milhões, apesar do fato de Green nunca ter trabalhado como investidora tradicional ou como empreendedora de tecnologia.

“Quando conversamos com os empresários com quem Green havia trabalhado, todos disseram que ela possuía os melhores conhecimentos e dava excelentes conselhos”, conta Michael Kim, sócio-gerente da Cendana.

Com esse fundo, ajudou a liderar o investimento de US$1 milhão no Dollar Shave Club quando a startup estava avaliada em apenas US$5 milhões. Ela também entrou para o conselho da empresa.

Depois que Green investiu na Jet.com em 2014, conversava com os executivos da startup quase todas as semanas sobre assuntos que iam de estratégia a potenciais aquisições, segundo Katie Finnegan, que era chefe de desenvolvimento corporativo na varejista on-line. Finnegan conta que a Jet ainda consulta Green, mesmo depois da venda da empresa para o Wal-Mart.

Green possui um “instinto real para marcas”, conta Rachel Blumenthal, fundadora da companhia de roupas infantis Rockets of Awesome, que manda aos assinantes uma caixa de roupas customizadas a cada nova estação. Blumenthal conheceu Green na Warby Parker, fundada por seu marido Neil Blumenthal.

Green investiu na Rockets of Awesome no ano passado e ainda contribui com a startup com suas opiniões sobre comportamento dos consumidores. Em um recente encontro do conselho da empresa, ela argumentou que a caixa de assinatura da varejista on-line precisava permanecer diferente de seus outros pacotes. Rachel Blumenthal concordou dizendo que tornar a caixa “a joia da coroa da experiência do consumidor” era a decisão certa a tomar porque aquela era uma das maneiras mais poderosas de chegar aos consumidores e conhecer mais sobre eles.

Green participa de mais de dez conselhos de empresas, incluindo a companhia de roupas masculinas Bonobos, a marca de maquiagem Glossier e a empresa de vitaminas para mulheres Ritual.

Mas também teve seus erros. A Treadflip, uma loja de consignação on-line na qual investiu, fechou no ano passado e se tornou parte da Le Tote, um serviço de aluguel de roupas.

Quanto às retiradas, Green afirma que diz aos empreendedores que espera que eles tornem as empresas públicas ou vendam a um comprador assim que for apropriado. Das 30 companhias de seu primeiro fundo, oito foram adquiridas. De seu segundo fundo, de US$75 milhões, que montou em 2014, duas empresas foram vendidas, entre elas a Jet.com.

“Agora que as pessoas são bombardeadas com informações, estamos em uma época de ouro em que as marcas importam. Quero ser parte dessa nova era”, diz Green.

 

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