REUTERS/Carlos Barria/Files - 8/07/2013
REUTERS/Carlos Barria/Files - 8/07/2013

Ambiente de inovação em Xangai vira sala de aula para brasileiros

Empreendedores selecionados pelo programa StartOut Brasil, promovido por entidades como Apex e Sebrae, fazem imersão no mercado chinês; ecossistema em Xangai inclui mais de 27 mil startups

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2019 | 14h00

XANGAI - “Nada é fácil, mas também nada é impossível na China.” A frase de Gary Lin, gerente da empresa de consultoria Kudosbay em Xangai, resume os inúmeros slides apresentados por porta-vozes de empresas, incubadoras e instituições chinesas durante o StartOut Brasil - Missão Xangai. O programa de internacionalização de negócios promovido em conjunto por Apex Brasil, Sebrae, Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), Ministério da Economia e Ministério das Relações Exteriores é realizado desde 2017 e, no início de dezembro, levou 15 startups brasileiras para uma imersão no mercado chinês.

Durante seis dias, acompanhados pelo Estadão PME, os empreendedores assistiram a palestras para entender as particularidades de mercado do país (principalmente sobre a cidade de Xangai), aprimoraram seus pitchs, apresentaram-nos para bancas com especialistas, visitaram polos tecnológicos e tiveram reuniões com investidores.

Os números deram o tom da missão. Os básicos já impressionam, como a população da China (1,4 bilhão de pessoas, enquanto o Brasil tem cerca de 15% disso) ou o PIB do país (US$ 13,6 trilhões, a segunda maior economia do mundo, enquanto o Brasil está em torno de US$ 1,9 trilhão).

E seguem com a estimativa da classe média até 2030 (480 milhões de pessoas), a existência de 160 cidades com 1 milhão de habitantes e o fato de que 42% das transações globais de e-commerce acontecem na China. O país tem 151 unicórnios (empresas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão) e é o maior detentor de patentes registradas no World Intellectual Property Organization (WIPO).

Para os empreendedores estrangeiros, isso significa um teste rápido de mercado para a validação do produto e ainda alcançar algo que brilha aos olhos de qualquer fundador de startup: escala

Com tantos números, no entanto, a cartilha básica para se entrar no mercado chinês contém apenas três lições: fazer negócios à distância não funciona, replicar modelos não é a melhor estratégia e o mercado na China muda com muita velocidade.

“Não adianta vir para cá sozinho. É preciso ter uma base que o auxilie com questões governamentais e também sobre o ecossistema chinês. O relacionamento, para o chinês, é baseado na confiança. Então, ter uma pessoa que o indique ou que o apresente e ajude nas conexões é fundamental”, afirma Arthur Guimarães, representante da Câmara Chinesa de Comércio do Brasil.

Oportunidades em inovação e tecnologia

Cathy Zheng, vice-presidente do departamento de cooperação do Centro de Tecnologia e Inovação de Xangai, expôs o ecossistema da cidade em uma apresentação baseada, claro, em números. A cidade é a mais internacional da China, com mais de 27 mil startups instaladas, mais de 400 incubadoras, 64 universidades e 85 instituições de pesquisa e desenvolvimento (R&D). “Somos uma cidade em que se testa tecnologia”, diz ela.

Fora do ambiente das palestras, nas ruas de Xangai, é possível sentir como a cidade abraçou a inovação. Da barraca de comida de rua no Bairro Antigo ao metrô, passando por restaurantes e pela compra de ingressos de museu ou templos, a forma de pagamento utilizada é o QRcode, escaneado nos aplicativos Alipay e Wechat. O dinheiro em espécie é artigo raro. Cartões de débito e crédito não existem.

“O chinês pode ficar uma semana sem sair de casa. Ele pode comprar tudo pelo Wechat ou Alipay”, conta Rodolfo Barrueco, ex-advogado do Nubank que vive em Xangai há um ano, cursando um MBA. Ele também foi um dos palestrantes do StartOut e acompanhou a comitiva de empreendedores em diversas atividades.

Na teoria ou na prática, a China se mostra um país com alto volume de parques científicos e tecnológicos e que está anos à frente do Brasil em alguns campos, como meios de pagamento. Quais seriam então as oportunidades para as startups brasileiras neste mercado?

“As minas de ouro na China hoje já não são as grandes cidades. São as cidades menores, que não são tão globais e que têm consumidores que querem gastar mais, ter um serviço de melhor qualidade ou um produto de fora. O mercado de luxo aqui é gigantesco”, diz Arthur Guimarães, da Câmara Chinesa de Comércio do Brasil.

Para Vincent Chan, CEO e fundador da LivAway, organização que ajuda startups estrangeiras a entrar no mercado chinês, há muitas oportunidades em produtos focados para a juventude (principalmente da geração Z, entre 15 e 23 anos), a classe média e as startups B2B. Ele também ressalta a importância dos mercados em pequenas cidades. Leonardo Machado, analista de negócios e inovação da Apex Brasil, reitera as oportunidades e é otimista com a relação Brasil-China.

“Para prepararmos a missão, vamos até o país para fazermos as reuniões com possíveis parceiros com seis meses de antecedência. Desde julho, em nenhum momento os interlocutores chineses disseram ‘não venham’. Há um interesse mútuo. É claro que é um mercado complexo, difícil, mas eles estão abertos para as startups estrangeiras, com programas de atração em diversas incubadoras”, diz. 

O StartOut Brasil teve início em setembro de 2017 e já passou por sete cidades em cinco países (Canadá, Estados Unidos, Chile, Portugal e China). Missões em Nova York, Barcelona e Bogotá já estão confirmadas para 2020.

Fabricação e conexões na China

De soluções com foco na indústria 4.0 a uma health tech que busca dar escala para uma plataforma de detecção de sinais de autismo, as 15 startups brasileiras selecionadas para o StartOut Brasil - Missão Xangai embarcaram para a China neste mês de dezembro com sede de conhecimento e demandas diferentes para viabilizar seus negócios tanto na China quanto de volta ao Brasil. Durante o segundo dia do programa, foram realizadas mais de 90 reuniões com investidores, associações, empresas e incubadoras.

Bruno Zanetti, fundador da Holobox, foi para Xangai em busca de parceiros para a fabricação e a logística de venda do seu produto. A empresa de São Paulo cria hardwares para fazer a projeção de hologramas e o próprio holograma, que dá vida a bonecos e produtos licenciados. Entre seus clientes, está um palestrante que faz conferências à distância, projetando o seu holograma no auditório.

“Já vendemos para 19 países, mas fabricar hardware no Brasil é muito difícil, assim como a logística. Precisamos baixar o preço do nosso produto e, vindo para cá (China), resolvo dois dos meus grandes problemas”, conta Zanetti.

Com produtos criados para fazer negócio B2B (venda para outras empresas) e B2C (direto para o consumidor), ele relata que a empresa perdeu um lote inteiro em uma entrega pelos Correios pois todas as caixas chegaram quebradas.

Já o empreendedor Mario dos Santos, criador da Musca, plataforma que dispõe de um técnico virtual para manutenção de elevadores, não pensava em vender para o mercado chinês ao viajar com a missão, mas saiu de lá com negócio fechado.

“Tive uma reunião com o presidente da associação chinesa de elevadores. A China é o maior mercado, com quase 40% de elevadores do mundo, foi um contato excelente. Também estou em contato com o fundo de investimento da InnoSpace, maior aceleradora da China, que já queria que eu instalasse a solução neste mês em alguns prédios”, conta ele.

Acompanhamento após o programa

Uma das empresas mais procuradas para reuniões com investidores, o estúdio gaúcho de animação Hype também fez conexões importantes em Xangai. “Entendi que o mercado aqui funciona muito mais para plataformas VOD (vídeo sob demanda) do que para TV.  É um mercado bem diferente do nosso”, conta Gabriel Garcia, CEO da Hype. “Tive cinco reuniões e senti uma abertura muito legal. Um dos avaliadores da banca do pitch me abriu outra possibilidade de mercado, que é conteúdo para aviões. Estamos conversando sobre isso.”

Após a imersão, as empresas serão acompanhadas durante 18 meses no Brasil, trabalho que fica sob a responsabilidade da Anprotec. “Ajudamos a fazer os encaminhamentos para instituições de ciência e tecnologia dessas empresas. Esse pós-missão é muito importante, pois é nessa etapa que a startup se estrutura para se adequar ao mercado”, diz Simone Torrescasana, coordenadora de projetos internacionais da Anprotec.

“Tivemos quatro missões no ano passado e 60% das empresas tiveram resultados de negócios. São eles investimento, comercialização de produtos, licenciamento, contato para poder abrir uma segundo escritório, o resultado é muito positivo”, completa Rafael Wandrey, coordenador-geral de inovação e empreendedorismo inovador do Ministério da Economia.

Além das empresas citadas acima, também participaram do StartOut Brasil em Xangai as startups Altave, Cheap2ship, CogniSigns, Due, Everlog, Fastdezine, GoEPIK, Mespper, Mob, Molegolar, Rocket.chat e SlicingDice, todas ainda em fase inicial de desenvolvimento.

* A jornalista viajou a convite do programa StartOut Brasil

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.