Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Aluguel de roupas casuais ganha força na era da economia compartilhada

Fugindo dos trajes de festa, empresas locam de peças para reuniões de trabalho à moda gestante

Bárbara Stefanelli, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2020 | 14h00

Especial para o Estado 

A época dos excessos está com os dias contados. O velho hábito de comprar  roupas variadas em redes de fast fashion ou de ter um guarda-roupa ostentação já não está mais na moda - o pedido de falência da gigante Forever 21 em setembro de 2019 ilustra um pouco o cenário. Na era da economia compartilhada, que já invadiu as indústrias hoteleira, imobiliária e automotiva, a locação de roupas surge como alternativa para novos negócios ou marcas consolidadas.

Além do tradicional aluguel de trajes de festa, a locação de roupas para o dia a dia ou mesmo para fazer bonito em uma reunião de trabalho  surgiu há alguns anos nos Estados Unidos, com a Rent the Runway. A tendência agora ganha fôlego no Brasil. A Roupateca, por exemplo, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, prefere não se posicionar como uma loja de aluguel de roupas, mas como um serviço de guarda-roupa compartilhado por assinatura. 

"Trabalhamos com planos mensais e focamos em roupa para o dia a dia, eventos ou reuniões. Para festas e casamentos, até temos algumas opções, mas são menos tradicionais", explica Flávia Nestrovski, administradora de empresas e sócia da Roupateca.

Focada no público feminino, as assinaturas começam a partir de R$ 125. A clientes podem devolver as peças já lavadas ou pagar pelo serviço de lavanderia. A empresa também oferece um plano mensal delivery por R$ 500. Com base em uma entrevista e no gosto da freguesa, a loja faz a seleção de sete roupas e entrega em domicílio.

Sobre o perfil das clientes, Flávia define: "As mulheres chegam por questões diversas. Muitas porque se endividaram no cartão de crédito, outras porque estão com o guarda-roupa cheio e têm a sensação de que sempre estão sem o que vestir."Atualmente, a marca tem um acervo de roupas que gira em torno de 1.500 peças - principalmente de design autoral e que privilegiam a cadeia de produção local. Para este ano, a Roupateca planeja lançar a loja online, o que vai poupar a ida das clientes até o local. 

Com base em Salvador (BA) e atuação em dez cidades do País, a plataforma Loc funciona como uma vitrine online. "Temos um acervo de 20 mil peças. No aplicativo ou site, as pessoas selecionam a peça e, pelo nosso chat, combinam um lugar de encontro para a troca e devolução. Como funcionamos por geolocalização, elas podem escolher o lugar mais próximo", explica Filipe Tambon, CEO do LOC. O pagamento é feito pelo aplicativo, via cartão de crédito. 

Também com operação online já resolvida, a paulistana Clorent, localizada na Vila Olímpia, realiza 400 aluguéis mensais e conta com uma empresa parceira para fazer a logística das entregas na grande São Paulo. "Somos uma empresa online e a escolha das peças está cada vez mais sendo feita pelo nosso site. Temos o espaço físico como um ponto de apoio, caso as clientes precisem da consultoria, mas a ideia é elas consigam alugar tudo online”, explica Eduarda Ferraz, uma das sócias da empresa, fundada em 2018.

A Clorent também conta com peças de roupas de mulheres que estão dispostas a compartilhar o próprio guarda-roupa, como se fosse um 'Airbnb de looks'. "As clientes criam um perfil online e colocam as peças para alugar. Normalmente, são apenas pessoas que nós convidamos”, explica Ana Teresa, parceira no marketplace. 

Para Mariana Santiloni, head de serviço ao cliente da consultoria em tendências WGSN, as pessoas colocam suas roupas para alugar justamente porque não querem se livrar totalmente delas. "A ideia do apego ainda existe, por isso, esse tipo de aluguel é muito sobre a variedade dos produtos e o aumento de possibilidades."

Nicho. Característica de mercados em ascensão, plataformas focadas em um público específico começam a se destacar no mercado de moda compartilhada. É o caso da Bump Box, guarda-roupa compartilhado para gestantes criado em 2017 por Cintia Cavalli e Juliana Franco. Com planos que começam a partir de R$ 299 por mês, as clientes escolhem as peças por meio do aplicativo ou do site e as recebe em casa, com a possibilidade de usá-las por 30 dias.

"No site, temos sugestões de boxes criadas pela nossa curadoria de moda, que leva em consideração o estilo e a versatilidade das peças. Além da escolha das caixas já montadas, as clientes podem solicitar os modelos que mais gostam e nos indicar quais querem receber", explica Juliana.

As peças são desenvolvidas para acompanhar as mulheres do início ao fim da gestação e o pós-parto. A maior parte da coleção é própria, com a criação e o desenvolvimento das peças feitos pelas próprias sócias. "Investimos em pesquisa de materiais (mais sustentáveis e confortáveis), acabamentos e modelagem que acomoda a mudança do corpo na gravidez sem perder a informação de moda. Além da coleção própria, temos colaborações com algumas marcas", finaliza.

Oportunidade. O modelo também permite aos varejistas ter uma nova fonte de receita e desenvolver uma relação de fidelidade com o público. No mercado internacional, algumas marcas já estão testando o aluguel de suas peças. "A Urban Outfitters está implementando o Nuuly, um programa de locação que permite ao cliente alugar seis itens por mês. Se gostar, ele pode comprar as peças. A marca dinamarquesa Ganni começou a fazer testes no mercado em setembro de 2019. Os clientes podem alugar itens por cerca de 30 libras por semana”, destaca Mariana, consultora da WGSN.

Em fevereiro de 2019, a American Eagle também lançou uma assinatura de serviço de aluguel de roupas. Depois de alugar uma peça, os clientes podem comprá-la com 25% de desconto. Para Mariana, empresas de aluguel de roupas agregam maior valor às marcas. "E os dados coletados podem ajudar a refinar o perfil do cliente", finaliza.

 

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