Marcos Nagelstein
João Giovanella, fundador da Salva Craft Beer, cervejaria de Bom Retiro do Sul/RS. Marcos Nagelstein

Aliança com pequenos produtores reforça cadeia da cerveja no RS

Cervejaria Salva fomenta a produção do lúpulo local, enquanto a SteinHaus se alia a uma cooperativa de produtores orgânicos e deslancha como primeira cervejaria orgânica do País

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2022 | 05h00

O tour cervejeiro pelo Rio Grande do Sul revela a união de forças entre as cervejarias e pequenos agricultores. Enquanto o fomento ao trabalho na terra estimula a melhoria do produto e abre oportunidades para a agricultura familiar, o consumidor pode encontrar nas gôndolas mais possibilidades de sabores, autenticidade e maior qualidade da bebida.

Quando a cervejaria Salva foi idealizada, a proposta era “salvar o que as cervejarias nunca deveriam ter deixado de ser”, diz o fundador João Giovanella. No caso, era usar insumos locais, manter a circulação de dinheiro na região e salvar a cadeia produtiva. Foi daí que surgiu o projeto do lúpulo gaúcho, que busca incentivar o plantio local.

“É uma quebra de toda uma verdade que se falava sobre isso”, comenta Roger Klafke, especialista em alimentos e bebidas do Sebrae-RS. Segundo ele, dizia-se ser impossível plantar lúpulo no Brasil. O resultado dessa descrença é que a produção brasileira não representa nem 1% do mercado, tornando as cervejarias dependentes da importação. Mas, no mercado mundial, o País não tem prioridade de compra, diz o engenheiro agrônomo Marcus Outemane, da Salva.

“Nunca vamos ter o melhor e o mais fresco, a gente recebe lúpulo de duas safras atrás, pelo menos”, afirma ele. Mas iniciativas do setor e do próprio governo estadual incentivam o plantio para cervejarias e microcervejarias locais, que visam produtos mais frescos e de circulação regional.

A estratégia de crescimento regional e nacional da Salva, no entanto, é apoiada agora pelo compromisso de investimento firmado no começo deste mês com a Silo Food Co. SA, investida da gestora de private equity VSK Capital, dos EUA. O acordo prevê a aquisição de 40% do capital da cervejaria, cujo valor será investido para ampliar em até cinco vezes a capacidade de produção da fábrica atual.

Parceria no lúpulo

Desde o início da fábrica, em 2016, Giovanella começou a cultivar lúpulo, mas a produção ainda é pequena. Por meio do projeto Salva Hops, a cervejaria de Bom Retiro do Sul quer trazer pequenos produtos para um convênio. Atualmente, são sete agricultores plantando o lúpulo usado pela empresa nas receitas. “A ideia é ter uma central de beneficiamento que nos permita fomentar mais”, planeja ele.

No ano passado, a Salva adquiriu um terreno para ampliar a produção de lúpulo na região, que será um negócio à parte da cervejaria. Mas, enquanto a terra ainda é preparada, os produtores parceiros são acompanhados de perto. “Damos toda assistência técnica e garantimos a compra”, diz Outemane, que vê o insumo nesse tipo de cadeia como a diversificação, não único foco de interesse da propriedade.

Tanto que, em uma das fazendas, a família cria vacas leiteiras e há um incentivo na busca por outras vertentes. Chega a ser um critério para o engenheiro agrônomo na hora de selecionar com qual produtor trabalhar. “A gente procura esse perfil de empreendedor rural, que busca alternativas diferentes ao que tem hoje na propriedade.” Com o resultado da parceria, em 2021, sete cervejas foram produzidas com insumo local.

O lúpulo também vem como uma alternativa para os produtores de tabaco, outro produto forte no Estado, em especial na cidade Venâncio Aires. “Tem muitas famílias querendo desesperadamente alternativas ao tabaco por causa da questão do inseticida”, diz Giovanella, que atualmente preside a Associação Gaúcha de Microcervejarias, sobre o cenário para avançar com o lúpulo gaúcho.

Cervejaria orgânica e cooperativa

É no município de Picada Café que se encontra a primeira cervejaria orgânica do Brasil, a SteinHaus. Aliada à Coopernatural, cooperativa de produtores orgânicos composta por 75 famílias, a empresa aposta em cervejas com café, naturalmente sem glúten, sem álcool, com mel, além de vinhos.

O proprietário Ricardo Fritsch encontrou um produtor agroecológico de cevada em Santo Antônio do Palma em 2014. Com os grãos obtidos, começou a fazer testes e, em novembro do ano seguinte, lançou a primeira cerveja orgânica. Apesar de ser um mercado desafiador, é um copo cheio para os pequenos negócios – além de comprar insumos de produtores menores, a cervejaria vende para empórios de menor porte também.

“A grande indústria não têm interesse em fazer logística para as menores, percebo que é um nicho que eles nem querem tanto ocupar. (Para nós) fica muito fácil comercializar”, diz o empreendedor, que também é diretor-presidente da Coopernatural. Além de servir à cadeia da cerveja e do vinho na SteinHaus, a organização tem o Sudeste do Brasil como maior mercado consumidor, com produtos como pipoca, geleias e sucos.

“Movimentamos diversas economias em vilas menores”, orgulha-se Fritsch. “Essa diversidade dentro da cooperativa favorece explorar o mundo da cerveja de forma maior e agradar muitos consumidores.” Ele diz que, com o tempo, a Coopernatural criou interfaces com grupos agroecológicos de outros Estados e com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o que permitiu ampliar a atuação.

Quanto ao lúpulo usado na cervejaria, importado da Alemanha e Nova Zelândia, ele garante a origem orgânica por meio de uma certificação do país produtor. No Brasil, a chancela não vale, mas a legislação daqui permite a utilização de matéria-prima não orgânica em quantidade não superior a 5% em peso, e é aí que se enquadra o insumo estrangeiro.

O conceito ecológico se estende agora ao restaurante da SteinHaus, inaugurado em abril deste ano. “É mais um desafio que estamos trabalhando para superar. Nós plantamos, produzimos, colhemos, selecionamos, separamos, fracionamos, rotulamos, deixamos na caixa e enviamos para o consumidor. Industrializamos a cerveja e temos agora um espaço para o consumidor nos visitar”, se alegra Fritsch.

A repórter viajou a convite do Sebrae

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Pequenas cervejarias movimentam economia local no Rio Grande do Sul

Com modelos de atuação distintos, negócios transformam o espaço do entorno, atraem novos públicos e contribuem para o turismo na região

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2022 | 05h00

O Rio Grande do Sul, um dos principais polos cervejeiros do Brasil, concentra nove dos dez municípios com maior densidade de habitantes por cervejarias. O Estado é o segundo com maior número de estabelecimentos registrados (258) no País, ficando atrás de São Paulo (285), segundo o Anuário da Cerveja 2020, divulgado pelo Ministério da Agricultura. Um diferencial da indústria gaúcha é o fomento ao empreendedorismo, produção e distribuição regionais, o que movimenta a economia local.

A inserção e disseminação do produto na região é uma herança trazida por imigrantes alemães ao Sul do País. Na capital gaúcha e arredores, à medida que a comunidade cervejeira se estabelecia, houve necessidade de formalizar a atividade assim como fazê-la crescer, o que contou com o apoio e orientação do Sebrae-RS.

Em 2015, o serviço local de apoio às micro e pequenas empresas iniciou um projeto para desenvolver 36 microcervejarias artesanais. Cursos e oficinas de gestão, marketing e finanças, além de consultorias para trocas de experiências, estimularam os negócios. Hoje, eles caminham com atuações distintas, planos de expansão e um ponto em comum: o amor por servir um bom chope gelado e uma cerveja que aguça os sentidos.

Franquia para crescer

Para conhecer as cervejarias, vale fazer um tour, inclusive para apreciar a mistura de água, malte, lúpulo e levedura, que é garantida em abundância e variedades. Ao aterrissar em Porto Alegre, o bar cervejeiro 4beer recebe clientes num amplo galpão que concentra a fábrica nos fundos. São mais de 40 torneiras de cervejas claras, escuras, suaves, intensas, com ou sem frutas.

O bar foi fundado em 2016 num local onde funcionava uma metalúrgica hospitalar. Desde então, o estabelecimento tem transformado a região. “O pavilhão estava totalmente degradado numa região que era ponto de prostituição”, conta Rafael Diefenthaler, um dos sócios da cervejaria que foi a primeira a se instalar no bairro São Geraldo. O novo comércio atraiu os moradores dos edifícios próximos e criou um fluxo positivo para o ambiente.

“A primeira coisa que ocorreu foi que a prostituição começou a sair daqui. As pessoas podiam sair do prédio em segurança, porque tinha uma movimentação aqui. Foi muito bem aceito na região”, completa ele.

A 4beer começou como a maioria das cervejarias: experimentos em panelas convencionais, depois uma produção pequena (3 mil litros por mês) e venda de barris a bares e restaurantes. Agora, o negócio está em processo de expansão por meio de franquias, formato viabilizado também com o apoio do Sebrae-RS.

“A gente vinha crescendo e aumentando o faturamento, mas Porto Alegre tem muitas cervejarias. É bom por um lado porque cria um ambiente favorável, mas aumenta a competição”, diz Diefenthaler. Segundo ele, foi por isso que a empresa teve a ideia de expansão. Para replicar o ambiente de interação entre dono e clientes, a melhor opção era a franquia.

São três modelos adotados pela empresa: um bar e restaurante, que varia de R$ 380 mil a R$ 600 mil, em que o franqueado compra a cerveja da fábrica matriz e recebe suporte com a cozinha; o formato brewpub, em que há uma pequena fábrica de cerveja para venda no próprio local; e a opção de investir numa fábrica para atender bares, restaurantes, outros franqueados da 4beer e o bar da fábrica.

Atualmente, são cinco franquias no primeiro modelo e a empresa busca novos franqueados, que têm um retorno de investimento entre 18 e 24 meses. Outra aposta foi, em 2020, agregar uma destilaria para a produção de gin e drinks prontos, como gin tônica, moscow mule e negroni. A produção ainda é pequena, de até 50 litros, mas figura como a primeira destilaria do Estado.

Expansão por licenciamento

Subindo no mapa até a cidade de Igrejinha, a Stier cresceu e virou referência na região. A influência da empresa na economia local é tal que a cervejaria foi objeto de estudo em uma dissertação que analisou a relação do negócio com o desenvolvimento socioeconômico da cidade, cuja rodovia RS-115 atravessa quase toda a extensão do município, dando-lhe potencial turístico.

A pesquisa destaca que a cervejaria contribuiu para a geração de emprego, renda e consequentemente redistribuição de renda no território, o que possibilitou “a melhora na qualidade de vida dos indivíduos”. É essa relação com a cidade e com os consumidores que fez o negócio evoluir e buscar oportunidades de crescimento, já tendo no portfólio chope em garrafas pet, cervejas em embalagem de vidro e lata.

Desde o ano passado, a aposta é no energético licenciado da marca internacional Ecko Unltd, que no Brasil já tem fama com roupas, calçados, óculos e relógios. “Meu marido tem empresa de solas de sapato e tem essa aproximação com marcas internacionais. Quando veio a Ecko, licenciamos no Brasil todo”, conta Silmara Andreatti, sócia e administradora da Stier. A bebida de grife tornou-se o chamariz para alcançar novos públicos e mercados.

“De modo geral, a Ecko está muito ligada com tribos urbanas, e no Brasil se desenvolve muito próximo do movimento artístico do funk na região Sudeste de maneira geral. Para essa galera, consumir Ecko de qualquer maneira é um status, é ostentação”, completa o sommelier Juliano Ugowski, mestre em estilos de cerveja e coordenador de marketing da Stier.

Em maio, a empresa apresentou o novo produto na feira de alimentos e bebidas Apas Show, em São Paulo, e atraiu olhares e contratos. “Saímos da feira e, na semana seguinte, já estava mandando pallets de Ecko para São Paulo”, diz Silmara, que fechou contrato com representações e distribuidores no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e Espírito Santo. A estratégia é que a nova bebida abra caminho para os consumidores conhecerem a Stier fora do Estado natal.

Apelo turístico

Uma das cidades mais germânicas do Rio Grande do Sul, Nova Petrópolis é o berço da cervejaria Edelbrau, dos sócios Fernando Maldaner e Samuel Zang. Depois de passarem um ano na Irlanda, eles tiveram a ideia do negócio, que começou em 2011 com a fábrica e depois um restaurante, o Edelhaus. Há ainda uma loja que vende cervejas, copos, canecas, abridores de garrafas, mochilas e bonés.

Como o município é caminho para destinos badalados do Estado – Gramado e Canela –, os empresários apostaram num tour interativo para atrair turistas. A Experiência Edelbrau guia o visitante pela história da empresa, explica como a bebida é produzida e estimula o sensorial com aromas e sabores que podem ser encontrados na cerveja.

O ingresso de R$ 55 para adultos (R$ 20 até 18 anos) contempla o acesso ao ambiente, um copo de vidro de 300ml, degustação de cinco estilos de cerveja e R$ 10 em compras na loja. Quem não bebe, pode gastar mais com produtos variados. “Nós recebemos em torno de 4 mil pessoas por mês. A região é turística e as pessoas têm interesse em conhecer sobre a cerveja e a cultura local”, diz Maldaner.

Além de movimentar o turismo na região, a Edelbrau deu visibilidade a pequenos produtores locais ao desenvolver receitas especiais. Uma witbier (cerveja branca) feita com cascas de laranja e bergamota do pomar da avó de Maldaner entrou para a linha fixa da cervejaria. Também produziram uma feita com mel de um produtor rural e outra que recebeu lúpulo plantado na cidade há 70 anos – essas, fora da linha.

“Conseguimos chegar no vizinho de uma pessoa que plantava lúpulo aqui na década de 1950, que ainda tinha mudas daquela época. Pegamos as mudas, plantamos e, em 2019, fizemos uma cerveja”, conta o empreendedor. “São cervejas que não dão retorno financeiro porque a tiragem é muito baixa, mas traz uma valorização de quem está na cidade, porque nosso interior é muito rico e a gente consegue, de alguma forma, trazer para o nosso produto.”

Pela carga tributária, Maldaner diz que não compensa vender as cervejas para revendedores de outros Estados, então o foco regional é mais importante. “A gente tem buscado mais a estratégia de fortalecer o local com bar, visitação, ter boa presença num raio de cem quilômetros.” Hoje, são cerca de cem pontos de venda na região.

O especialista em alimentos e bebidas do Sebrae-RS, Roger Klafke, acompanhou a evolução desse polo cervejeiro desde o início e concorda que essa diversidade de negócios é um trunfo para o mercado.

Segundo ele, com o aumento da procura e o maior entendimento do consumidor em relação à cerveja artesanal como produto, as indústrias foram se adaptando e vendo oportunidades para turismo, franquias e bares. “Abriu-se um leque de oportunidades gigante”, comenta ele. “O vinho foi a bebida da pandemia e a cerveja ficou em segundo plano, mas as cervejas especiais têm muito espaço ainda. O artesanal está nas tendências de consumo para tudo.”

A repórter viajou a convite do Sebrae

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