Tristan Spinski|The New York Times
Tristan Spinski|The New York Times

Agência de emprego temporário dá a ex-detentos emprego e condução para o trabalho

Empresária começou o negócio depois de enfrentar problemas com alcoolismo; recrutadora telefona pela manhã e leva até o trabalho para evitar dispersões

Claire Martin, The New York Times

08 de setembro de 2016 | 05h00

No início de agosto, Mark Eason saiu da prisão Correcional de Charleston no Maine, onde passou oito meses detido por tráfico de drogas. Como não foi sua primeira condenação, ele sabia que suas opções de emprego eram limitadas. Quando saiu da prisão anteriormente, em 2005, o único emprego que conseguiu  lhe pagava um salário tão baixo que ele não conseguia se sustentar nem a sua família. Então voltou a vender heroína."Tinha de sobreviver. Se não conseguia nada, então tive de fazer o que sabia. Infelizmente foi traficar drogas", disse.

Mas desta vez sua experiência vez foi totalmente diferente. Três dias depois de sair da prisão, Mark já recebia US$ 11 por hora para carregar os caminhões de uma fábrica de janelas. Um trabalho que gosta e que, segundo ele, não teria conseguido sem a  MaineWorks, agência de empregos temporários com sede em Portland.

Todos os 70 trabalhadores contratados por meio da MaineWorks cometeram crimes "diretamente relacionados ou derivados de problemas com uso de substâncias", disse a fundadora e proprietária da agência, Margo Walsh.

A agência se especializa em construção industrial,  paisagismo, projetos de construção de rodovias e pontes e autoestradas.

Mago Walsh também garantiu para Eason um local numa casa de recuperação de viciados, foi levá-lo e depois buscá-lo do trabalho no seu primeiro dia e o auxiliou a colocar dentaduras para esconder os danos aos dentes causados por anos de uso de drogas.

Margo foi recrutadora da divisão de investimentos do Goldman's Sachs em Nova York e depois trabalhou na área de recursos humanos para a empresa de consultoria Hewitt. Fundou a MaineWorks há cinco anos durante um período de dificuldades financeiras e pessoais.

Ela havia lutado com problemas de alcoolismo e nos anos 90 internou-se em uma clínica de reabilitação. Mudou-se com a família para o Maine e começou a trabalhar como voluntária numa clínica para viciados em álcool e drogas e em uma prisão do condado, dando palestras sobre recuperação.

Em 2009, Margo participou de um evento local que tinha como palestrante o advogado F. Lee Bailey. O advogado falou sobre a falta de oportunidades de emprego para  condenados por delito grave.

"Muitas dessas pessoas saem da prisão e deparam com um muro de todo lado e acabam desistindo. E acabam achando que 'melhor é roubar um banco, senão morrerei de fome, ou talvez uma loja de bebidas ou uma 7-Eleven",  disse o advogado.

Bailey lembra que nessa palestra chamou atenção para um programa em que empresários deram empregos para pessoas recém saídas da prisão, selecionadas cuidadosamente, orientando-as e ajudando-as a se colocar em pé novamente. O programa vinha tendo sucesso,  especialmente em Minneapolis onde a taxa de recidiva caiu de 73% para 19%.

Margo Walsh procurou Bailey para lhe perguntar como  poderia criar um programa similar em Maine. "Margo, ninguém os contratará", ele  respondeu. "Por isto estou aqui falando a respeito".

Bailey não tinha conhecimento de empresas devotadas a este modelo, de modo que Margo decidiu que  preencheria a lacuna. Mas tinha um problema: falta de capital para criar uma empresa.

 

"Eu era mãe solteira, chefe da casa, e recebia benefícios do MaineCare e do SNAP, que são cupons de alimentação", disse. "Não tinha nenhum bem, nada. Nem mesmo um plano de aposentadoria. Liquidei tudo quando bebia".

No início Margo começou a trabalhar em  casa para ter menos gastos. Pediu ajuda para suas duas irmãs e cada uma lhe emprestou US$ 2.000. E conseguiu mais US$ 2.500 de empréstimo dando como garantia o seu Subaru - dinheiro que usou para a  primeira folha de pagamento.

Conseguir clientes acabou sendo a parte fácil. Margo acha que houve uma mudança de atitude com relação à dependência química, o que ajudou.

O modelo adotado pela MaineWorks é diferente do modo como trabalham as agências de emprego temporário tradicionais,  uma vez que não se trata de trabalho temporário de um dia, caso em que os trabalhadores fazem fila de manhã, trabalham durante o dia e são pagos no fim da tarde.

"Nossos rapazes são pagos semanalmente, estão plenamente empregados e podem se candidatar ao auxílio-desemprego. E conseguem tomar empréstimos e conseguir vales sobre seu salário.

Tudo isto implica altos gastos e margens de lucro pequenas. Além do que, um objetivo da agência e ajudar as pessoas a serem contratadas de modo permanente pelas empresas clientes da MaineWorks. Desse modo,  Margo precisa constantemente recrutar novos trabalhadores.

Mas ela diz que consegue atender às empresas de construção mais do que seus concorrentes. E apesar dos custos altos,  rapidamente começou a registrar  lucro. Em 2012 a receita da MaineWorks foi de US$ 250.000. Em 2015 chegou a US$ 1,6 milhão. Em março Margo foi nomeada como "Pequena Empreendedora do Ano"  pela agência federal encarregada das pequenas empresas.

A agência paga aos seus trabalhadores US$ 10,10 por hora no início, valor bem superior aos US$ 7,50, valor do salário mínimo no Maine. Margo Walsh calcula que metade os seus empregados ganha US$ 12 por hora e alguns chegam a receber até US$ 21 por hora.

Mas há desafios a vencer quando se trabalha com uma população de ex-detentos e dependentes. "É caótico. Muitos deles eram jovens quando se tornaram dependentes de droga" de modo que enfrentam dificuldades cognitivas. "E são dispersivos".  Dai os telefonemas logo no começo da manhã e a oferta de condução.

Para pessoas como Mark Eason, Margo é uma espécie de salvadora. Nas próximas semanas ele  começará a trabalhar em tempo integral na empresa em que presta serviço como empregado temporário por meio da MaineWorks.

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