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Absorvente menstrual sem plástico une mulheres em torno de soluções sustentáveis

EcoCiclo lança absorvente que desaparece em 6 meses no ambiente, após anos de protótipo; em parceria com designer, segundo produto será desenvolvido em 2022

Jayanne Rodrigues e Larissa Burchard, Especiais para o Estadão

13 de novembro de 2021 | 05h00

Todos os meses, milhares de mulheres menstruam e um volume gigantesco de absorvente é descartado como lixo doméstico. Desde a juventude até a menopausa, uma única pessoa precisa de cerca de 7.200 absorventes menstruais descartáveis, segundo estudo feito pela professora Ruth Santana, do Laboratório de Materiais Poliméricos da Universidade Federal de Rio Grande do Sul (UFRGS), ao lado da estudante de engenharia química Nicole Molle.

“O destino desse tipo de resíduo, no melhor dos casos, é o aterro sanitário”, diz a professora, lamentando que a falta de planejamento ambiental das cidades impede que o material seja descartado de forma adequada. Assim, lixões recebem esses produtos compostos de polímeros naturais e sintéticos, que podem levar 100 anos para se decompor.

Uma alternativa para mitigar o problema é a produção de protetores biodegradáveis que têm como matéria-prima uma fonte natural ou pró-degradante, com outras fontes de matéria-prima. “Existem muitos materiais de fonte natural, e o Brasil é rico na diversidade de flora, seja celulose, amido de milho, fécula de batata ou de mandioca, proteína de soja, entre outras.”

Reduzir o impacto ambiental e criar alternativas sustentáveis para essa questão foi o que uniu empreendedoras de diferentes cantos do Brasil, em parceria com uma designer paranaense, para criar o absorvente 100% biodegradável EcoCiclo, que será lançado no dia 25 de novembro e promete ser absorvido em seis meses no ambiente.

Adriele Menezes, Karla Godoy, Hellen Nzinga e Patrícia Zanella são as cofundadoras da marca. “Na periferia, a nossa preocupação é a sobrevivência. Isso mudou quando escutei pela primeira vez a palavra sustentabilidade”, conta Hellen. Esse foi o despertar para a criação da empresa.

Três anos se passaram até nascer o absorvente atóxico, vegano e hipoalergênico. Feito com material orgânico, ele contém três camadas e a parte interna é costurada à mão. Recém-patenteado, outros detalhes da produção seguem em sigilo.

A marca faz parte do boom de itens sustentáveis de higiene menstrual que surgiram nos últimos tempos, como coletores laváveis, calcinhas e absorventes reutilizáveis. Porém, estes produtos exigem que a mulher tenha condições sanitárias para realizar a limpeza. Como o acesso à água ainda é desigual no Brasil, os protetores descartáveis se tornam uma opção mais prática.

Baixo apoio a uma solução feminina

Falar de menstruação não é fácil e criar produtos sustentáveis voltados para questões de gênero ainda é um desafio. Antes de conseguirem investimento, a equipe do EcoCiclo enfrentou um problema: empresários desinteressados em investir no negócio. O ‘não’ vinha acompanhado de piadas desagradáveis. “A gente falava de menstruação e começavam a rir. Voltávamos para casa frustradas”, lembra Hellen.

Oriundas das periferias de Salvador, São Paulo e Recife, as sócias buscaram ajuda em aceleradoras voltadas a iniciativas de impacto social, a exemplo da Vale do Dendê, de Salvador. Hoje, com escritório fixo na capital baiana, a EcoCiclo vai chegar ao mercado com um primeiro lote de 100 pacotes (R$ 20 cada um).

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O preço é mais alto se comparado às marcas tradicionais que utilizam plásticos nos protetores, no entanto, defendem elas, esse dinheiro economiza lá na frente, nas questões ambientais. Além disso, a meta da empresa é conseguir um investimento robusto para o próximo lançamento, para reduzir o preço e tornar o produto mais acessível.

Em paralelo, as quatro sócias se uniram a uma designer paranaense para colocar de pé um segundo produto. Rafaella de Bonna Gonçalves, de 24 anos, criou seu primeiro protótipo de absorventes biodegradáveis aos 22 anos durante o curso de Design de Produtos da Universidade Federal do Paraná. A história começou quando Rafaella se deparou com a pobreza menstrual da população de rua, sem acesso a produtos higiênicos. “Isso me chocou. Então, eu falei, ‘é esse o problema para o qual quero propor uma solução’.”

O projeto Maria foi criado em 2019. A estudante idealizou um absorvente a partir da fibra de bananeira, em formato de rolo, que as mulheres destacam e depois podem descartar. Um refil duraria cerca de três meses. No mesmo ano, Maria ganhou o prêmio alemão iF Design Talent Award. A ideia era ter apoio público para a distribuição dos absorventes, mas a designer encontrou dificuldades para colocar o plano em prática. "Algumas pessoas falaram: 'Agora, a gente vai ter que se preocupar com a menstruação?'", comenta Rafaella.

O projeto cresceu e foi aprimorado a partir de testes e entrevistas com o público. Maria se transformou no Eu Faço Parte, projeto sustentável que foi premiado neste ano no concurso latino-americano Diseño Responde. A partir daí, Rafaella procurou neste ano as sócias da EcoCiclo para tirar o absorvente Eu do papel. Juntas, elas estão fazendo o primeiro protótipo do absorvente, que deve ser desenvolvido ao longo de 2022. “A gente tem o mesmo propósito. Então, alinhou tudo”, diz a paranaense.

O novo absorvente, na verdade, serão dois. A estudante desenhou um absorvente externo que terá uma divisória no meio e, ao ser destacado, se molda e forma dois absorventes internos. O produto não vai utilizar plásticos e, atualmente, a equipe trabalha com duas possibilidades de materiais: espuma de soja ou fibra de bananeira. Os absorventes poderão se decompor no ambiente em até 3 meses. 

O Eu será vendido no processo one for one (um por um), um sistema em que na compra de um absorvente, outro será doado a instituições e ONGs, para dar acesso a pessoas em situação de vulnerabilidade social.

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