JB Netto/AE
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Abilio Diniz: "É muito importante ter em mente planos B, C e D"

Abilio Diniz, um dos principais empreendedores do País, respondeu a dez dúvidas dos internautras do Estadão PME

Estadão PME,

04 de janeiro de 2012 | 06h30

Abilio Diniz é um dos principais empresários do País, afinal, ele construiu um império com mais de 1,6 mil lojas, 149 mil funcionários e faturamento que supera a casa dos R$ 50 bilhões. Mesmo assim, sua trajetória não foi fácil. Pelo contrário, sua história sempre teve polêmica e superação, a mais recente delas a tentativa frustrada de comprar a rede Carrefour.

Aos 74 anos, e apesar de tantos compromissos, o empresário abriu espaço na sua agenda para responder a dez questões de leitores do Estadão PME. As questões nos foram enviadas por meio do Facebook e as respostas você confere abaixo:

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1 - Qual o papel reservado aos micros e médios empresários no segmento desenvolvido pelos pequenos varejistas no setor de alimentos? Em especial, com as ameaças de uma nova crise mundial? 

Autor: José Celestino Teixeira

Abilio Diniz: José, não acredito que o Brasil será impactado fortemente pela crise. Hoje, Fazemos parte de uma economia global que enfrenta problemas muito sérios não só para os governos, mas que também podem afetar o sistema econômico mundialmente. No entanto, o Brasil tem hoje fundamentos econômicos muito fortes. O país não tem problemas de contas externas, nem de superávit, tem dinheiro, reservas depositadas no exterior. Enfim, estamos de certa forma protegidos dos riscos de uma crise financeira. Somado a isso, a economia brasileira continua aquecida. Diante deste cenário, acredito que há inúmeras oportunidades para os micros e médios empresários, em especial, em mercados de nicho, como o de orgânicos. Mercados como este têm todo potencial para crescer ainda mais nos próximos anos.

 

2 - Trabalho com tecnologia e sempre aparecem ideias para criar boas soluções para o mercado. O problema é que boa parte delas necessita investir tempo e dinheiro, e como empreendedor iniciante, ainda tenho receio em “investir antes para colher depois”. Um desses projetos é, inclusive, finalista do Prêmio Wayra Brasil 2011, o que pode sinalizar que o mercado estaria preparado para recebê-lo. Sendo assim, qual a sua dica ou sugestão superar esse receio em investimento?

Autor: Renato Vinicius Filipov

Abilio Diniz - Todo empreendedor corre riscos, Renato. É impossível você entrar num empreendimento onde o risco é zero. Mas para ter mais segurança você deve fazer um estudo mais aprofundado na hora de planejar esse negócio. Como dizemos no jargão corporativo, fazer um business plan, no qual você avaliará todos os riscos e tentará cobrir todas as variáveis, se possível, antes de iniciar esse empreendimento. Como empresário, sempre procurei nortear minhas estratégias através de três pontos: diagnóstico, planejamento e ação. Num primeiro momento, procure saber tudo a respeito do que você quer fazer; e o segredo nesta fase da investigação é perguntar: pergunte, pergunte, pergunte. Esgote as possibilidades de questionamento. O segundo momento é o do planejamento no qual a partir do diagnóstico traçaremos os desafios e metas a serem alcançados. Lembre-se, porém, que nessa etapa é muito importante ter em mente planos B, C e D, pois nem sempre as coisas saem como a gente imagina. Tendo um projeto coeso em mãos, agora é a fase da execução. Nesta última etapa saliento a importância da determinação, disciplina e garra no desenvolvimento de qualquer ação.

3 - Existe uma hora de pendurar as chuteiras? Como decidir? Quais poderiam ser os motivos?

Autor: Ricardo Miragaia

Abilio Diniz - Costumo dizer que a palavra aposentadoria não existe no meu dicionário. Acredito que sempre podemos continuar aprendendo e crescendo pessoalmente e profissionalmente. No entanto, há dois critérios objetivos para decidir se é hora ou não de “pendurar as chuteiras”: ter condições físicas e intelectuais de contribuir no seu trabalho. Quando você perder estas habilidades, é chegada a hora de se aposentar.

 

4 - Como estudante de engenharia da USP vejo uma tremenda distorção entre o meu ensino e o mercado no que tange o empreendedorismo. Somos pouco motivados a abrir uma empresa apesar da enorme qualidade técnica e quando nos aventuramos vemos que conhecimentos administrativos e contábeis básicos nos faltam e comprometem o sucesso da empresa. Como o senhor vê a falta de um ensino empreendedor nas nossas universidades e como isso afeta o sucesso das micro e pequenas empresas no País?

Autor: Raul Acedo da Cruz

Abilio Diniz - O ensino do  empreendedorismo não garante o sucesso de um empresário, mas o prepara para lidar melhor com as adversidades.  Acredito que esta lacuna na grade curricular da maioria das universidades do País afeta o desempenho do empresariado brasileiro. De acordo com a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), de 2010, só 9% da população adulta brasileira teve acesso ao ensino de empreendedorismo e apenas 3% aprenderam a criar seus próprios negócios durante a universidade. Nos países desenvolvidos, esta taxa costuma ser bem maior. Agora, o empresário não pode se acomodar. Hoje há muita informação sobre o tema, inclusive na própria internet, além de cursos específicos como o que eu criei na Fundação Getúlio Vargas há dois anos. No curso Liderança 360 graus, usamos a história do Grupo Pão de Açúcar para ensinar aos nossos alunos como lidar com o imprevisto, motivar a equipe, superar crises e identificar e antecipar-se às tendências.

5 - Gostaria de saber como enfrentar dívidas gigantes que surgiram a partir de um investimento gigantesco que fizemos no nosso mercadinho. O que posso fazer, já que devo quase R$ 500 mil.

Autor: Deoclecio Vieira

Abilio Diniz -  Caro Deoclecio, antes de tudo você não devia ter se endividado além do seu processo de geração de caixa. Mas agora, isso é passado. Não tenho detalhes do seu caso para opinar, mas geralmente nestas situações temos três opções: reduzir os gastos da companhia para aumentar a geração de caixa, vender ativos para incrementar a liquidez imediata ou renegociar a divida. Além disso, adote o lema que nós adotamos na crise do GPA nos anos 90: 'corte, concentre e simplifique'.

6 - As estatísticas indicam que boa parte das novas empresas fecha antes mesmo de encerrado o período de 12 meses por falta de planejamento ou má administração. É possível reverter o processo de falência de uma empresa apenas com boa administração, sem grandes investimentos?

Autor: Juliana Gironi

Abilio Diniz -  Acho que pode sim, Juliana. Por exemplo, no inicio dos anos 90, o Grupo Pão de Açúcar estava praticamente quebrado. Os problemas de administração causados pelas desavenças da família e a complicada situação econômica que o Brasil atravessava quase levaram a companhia à ruína. Por se tratar de uma empresa descentralizada, tínhamos certeza de que se fôssemos para concordata, a falência seria inevitável. Enfrentávamos uma crise de liquidez. Nesse período consegui evitar a concordata e, com muita dificuldade, segurar o caixa. Com isso, iniciamos o processo de 'turn around'. Criamos o mote: 'corte, concentre e simplifique'. Cortamos, inclusive geograficamente, tudo aquilo que era supérfluo e não dava lucro. Assim, passamos a escolher os pontos mais estratégicos para concentrar o mercado, procurando sempre simplificar os processos, pois a empresa estava excessivamente burocratizada e pouco eficiente. Após recuperarmos a gestão e diminuirmos a companhia, passamos ao processo de reestruturação.

7 - O empreendedorismo no Brasil possui algumas particularidades que dificultam a implantação de novas ideias em negócios – altos impostos e burocracia. Diante desta perspectiva e com uma competitividade acirrada, quais as alternativas para o melhor desenvolvimento do empreendedorismo no Brasil?

Autor: Alexandre Freitas Fontes

Abilio Diniz - A despeito das dificuldades, o Brasil é o país que mais empreende no G20 (17,5%), estando à frente inclusive da China (14%). Além disso, a estabilidade econômica e a maior distribuição da renda promovida na última década proporcionaram ao empresariado brasileiro maior tranquilidade e assertividade para planejar. É claro que ainda há muito a ser feito, em especial, em relação a investimentos em educação e simplificação e redução da carga tributária. Mas hoje sinto que há determinação do governo em endereçar tais problemas, com a ajuda do empresariado. Eu mesmo participo, junto com outros empresários, da Câmara de Gestão, órgão criado para assessorar a presidente Dilma na elaboração e implantação de processos que melhorem a  gestão da máquina pública.  

8 - Vale a pena investir em um sonho mesmo sem capital? Ou seja, podemos iniciar um negócio com um empréstimo ou é muito arriscado?

Autor: Natalia Vanni Bertoni

Abilio Diniz - Depende. Não há uma fórmula pronta para o sucesso. Sou determinado, disciplinado, mas não tenho a fórmula para o sucesso nem gosto muito de fazer gracinha e dizer: “Olha, nunca se endivide, traba¬lhe só com dinheiro próprio.” Penso que tudo é cir¬cunstancial, existem momentos em que as pessoas têm de decidir, aceitar riscos na vida e alavancar; se a causa for boa, se o caminho for bom, se o caminho for importante... Eu já fiz isso e deu certo, mas de repente pode não dar, quer dizer, são coisas com que as pessoas precisam aprender a conviver na vida, seguindo seu caminho e enfrentando as dificuldades que forem aparecendo. O importante é definir uma meta e se planejar para conseguir alcançá-la. No caso de tomar ou não um empréstimo, por exemplo, é preciso calcular em quanto tempo você conseguirá pagá-lo projetando seu fluxo de caixa.

 

9 - Quais são os maiores desafios e condutas para os empreendedores brasileiros até a Copa e as Olimpíadas. O que devemos fazer e como manter o crescimento após essas datas e não cometer os mesmos erros que as nações desenvolvidas.

Autor: Marco Aurélio Serrano

Abillio Diniz - Acho que eventos como esses causam grande impacto antes, durante e nos próximos anos após sua realização. Em outras palavras, isso significa mais dinheiro, mais trabalho, mais empregos, maior visibilidade do Brasil no mundo. A Copa na África do Sul é um exemplo disso. Tenho certeza que essa é uma grande oportunidade para o Brasil que temos que aproveitar. Digo sempre que a oportunidade é como um trem, que passa em nossas vidas sem qualquer aviso. Acho que está na hora do Brasil pegar esse trem rumo ao desenvolvimento, pois tenho certeza que competência para isso não falta. É claro que o empreendedor precisa ter os pés no chão. Antes de tomar qualquer decisão, analise os cenários e projete o futuro do seu negócio. Depois, procure estudar o que já está sendo feito e como você pode se diferenciar. Acredito que essa é uma lição valiosa para os empreendedores que querem crescer com a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

 

10 -  Senhor Abilio Diniz, considerando que o senhor é um dos mais importantes empresários do Brasil e que possui grandes empresas sob seu controle, gostaria de saber quais são as questões-chaves a serem consideradas por um microempresário que quer faturar alto abrindo ou expandindo seu negócio com vistas à Copa do Mundo de 2014?

Autor: Péricles Pedro Moreira de Oliveira

Abilio Diniz - Como disse na resposta anterior, os investimentos relacionados à Copa do Mundo irão causar grandes impactos no país antes, durante e depois da realização do evento. Certamente, ocorrerá crescimento econômico, gerando inúmeras oportunidades para os empreendedores. As questões-chaves que devem ser consideradas pelo empresário visando estes eventos são as mesmas variáveis que você deve considerar na hora de iniciar ou expandir sua empresa. O primeiro passo é ter um diagnóstico claro sobre o setor em que deseja atuar e seus principais competidores. Esta fase de investigação lhe dará subsídios para o segundo momento, o da elaboração do planejamento. A partir daí, o empreendedor está preparado para colocar seu plano em prática.

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