Epitacio Pessoa/AE
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"A melhor estratégia é sempre acreditar no impossível", ensina Romero Rodrigues

O fundador do Buscapé respondeu a 10 perguntas dos internautas sobre empreendedorismo

Estadão PME,

03 de fevereiro de 2012 | 10h20

Em 1999, Romero Rodrigues tinha apenas 21 anos quando criou com três amigos o que hoje é o maior site de comparação de preços, produtos e serviços da América Latina, o Buscapé. A empresa logo chamou a atenção de investidores, cresceu e comprou concorrentes. Dessa forma, Romero e seus sócios já comandavam, em 2009, o maior negócio da web brasileira. E foi aí que eles venderam 91% da empresa para o conglomerado sul-africano Naspers por mais de R$ 600 milhões.

Hoje, aos 33 anos, Romero continua trabalhando com o mesmo entusiasmo. O empresário se prontificou a responder dez questões enviadas pelos leitores do Estadão PME. As perguntas foram enviadas por meio do Facebook e as respostas você confere abaixo:

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1-Qual a melhor estratégia para quem está iniciando uma start-up, brootstrap ou busca investidores? Sendo que a primeira opção tem com principal vantagem a obtenção de valorização nas primeiras rodadas de negócio e como fator negativo o fato de não ter condições de realizar altos investimentos.

Já a segunda opção tem como vantagem a possibilidade de garantir investimentos para P&D e equipe de desenvolvimento e como negativo o fato de ter que entregar boa parte da empresa em troca desses recursos enquanto ela ainda não está desenvolvida e consequentemente ainda não alcançou o valor real de mercado.

Autor: Jean Clécio Silva Carvalho

Romero Rodrigues: Independentemente do modelo, a melhor estratégia é sempre acreditar no impossível. Ter espírito empreendedor é entender que seu negócio é sua vida, é sua paixão, é dormir e acordar pensando em como transformá-lo em um negócio vencedor. E nem sempre o capital é o que move a paixão pelo negócio. A paixão vem antes do capital.

O fundamental é manter sempre a mesma obsessão em alcançar o sucesso. Ter sucesso não é apenas ter dinheiro, mas sim saber que uma ideia que parece impossível, e sempre digo para ligar o radar quando ouvir a palavra impossível, pode vir a ser uma empresa que irá quebrar paradigmas, inovar e criar um novo mercado.

Se o foco está no negócio e não em tão somente criar um patrimônio pessoal, o capital virá como uma consequência. O bom negócio é aquele que o investidor decide apoiar porque vê talento e paixão nos olhos do empreendedor. É preciso saber o momento certo de abrir as portas para o capital e avaliar o porquê a empresa necessita de suporte financeiro, como ele será investido e se compensa ou não abrir mão de parte do negócio.

O maior ativo de uma empresa é seu capital intelectual e o empreendedor precisa avaliar até que ponto consegue desenvolver a empresa sem o apoio de investimento ou de joint-ventures que venham agregar conhecimento e valor ao negócio. O desafio, então, é identificar o momento, a oportunidade e a necessidade de aportar capital e know how no negócio.

2-Gostaria de saber qual sua opinião sobre compras online de produtos técnicos específicos. Como exemplo: bombas de água para edifícios e produtos de piscinas?

Autor: Paulo Roberto Favaro

Romero Rodrigues: Acredito que qualquer produto possa ter no comércio eletrônico um canal eficaz de vendas, principalmente produtos que são commodities. Antes de mais nada, é preciso avaliar, como em qualquer negócio, qual a demanda do mercado, se é um mercado muito competitivo, qual a estrutura e logística necessárias para prestar um bom serviço.

No caso destes produtos, particularmente, acredito na viabilidade do comércio eletrônico na medida em que, como em outros segmentos, são produtos que o consumidor prefere receber em casa do que ter que ir até a loja física para comprar. Mas o segredo está em estruturar uma loja bastante funcional e que facilite ao cliente identificar os produtos, quais são mais indicados para obra e para manutenção das piscinas e disponibilizar o máximo de informações sobre suas características para evitar gastos com devolução e muita demanda para o SAC.

3-Quando alguém tem uma ideia muito boa, qual é a opinião e/ou conselho do Romero Rodrigues a respeito do caminho a ser traçado para transformar essa ideia em realidade?

Autor: Filipe Ramos

Romero Rodrigues: O primeiro requisito é acreditar. Como já mencionei, se ouvir a palavra impossível siga em frente. A boa ideia é aquela que sai do papel. Errar faz parte do processo e é a melhor maneira de aprender. O caminho parece ser simples: faça. Mas não é tão simples assim, claro. Os riscos devem ser avaliados, o mercado em que pretende atuar devidamente estudado e é fundamental estruturar um plano de negócios pensando em todas as etapas de desenvolvimento de negócio.

É preciso ter claro onde se quer chegar e quais serão as pedras no caminho. E estar sempre pronto para vencer obstáculos que não necessariamente foram previstos. Um bom sinal é quando seu negócio é tão inovador que está criando uma nova categoria de produtos ou de serviços. No caso do Buscapé, por exemplo, quando o Rodrigo Borges, meu sócio, teve a ideia de montar um comparador de preços não havia nada parecido na Internet. E a ideia veio justamente por uma constatação que ele mesmo teve como consumidor ao tentar encontrar informações sobre produto e preço de impressoras na Internet.

Ao colocarmos o negócio em prática encontramos grande resistência entre os varejistas de fornecer suas listas de preços. Várias vezes acreditamos que não sobreviveríamos. Mas acreditamos no que parecia impossível e vencemos.

4-Tenho um projeto social na área da educação e saúde incubado na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Porém, estou com dificuldades para mensurar os retornos de possíveis investimentos de empresas doadoras. Duas perguntas surgiram:

- O retorno a ser mensurado seria na forma do impacto social que os projetos proporcionariam ou na forma tradicional de fluxo de caixa?

Autor: Alexandre Dantas

Romero Rodrigues: Em primeiro lugar acho importante salientar que não acredito em projeto social sem gestão profissional e capital que o viabilize. A forma de mensuração irá depender da política social de cada empresa, mas torna-se cada vez mais evidente que as empresas privadas estão avaliando a importância de realizar ações sociais como forma de sobrevivência do próprio negócio, já que o Estado não consegue atender a sociedade em muitas necessidades básicas que são vitais para o mercado prosperar e a economia crescer.

Por conta do rápido crescimento econômico, o Brasil enfrenta hoje o que tem sido chamado de “apagão de talentos”. As empresas de todos os setores vêm sofrendo com a dificuldade de encontrar mão de obra capacitada e precisam de profissionais para contratar de imediato. Caso contrário, terão dificuldades de crescer.

Assim, se não investirem em projetos sociais voltados para educação correrão o risco, e já estão correndo, de impedirem seu desenvolvimento e a conquista de novos mercados onde há profissionais mais bem preparados. Por conta disso, entendo que uma empresa deve avaliar o retorno de projetos sociais primeiro sob o viés do impacto social que, evidentemente, pode vir a gerar impactos no caixa. Se não há talentos prontos para fazer um negócio prosperar na velocidade em que planeja e se não há um mercado consumidor pronto para comprar seus produtos e serviços o caixa certamente será afetado.

Ou seja, em um país onde o Estado não consegue cumprir totalmente seu papel, o investimento no social torna-se uma necessidade para a consolidação e crescimento dos negócios.

- A outra pergunta seria como apresentar os retornos de forma atraente aos olhos de grandes investidores, sendo que a empresa não possui capital para investimento em publicidade? Alternativa: bater de porta em porta com uma apresentação em mãos? Buscar pessoas a partir da rede de contatos?

Romero Rodrigues: A prospecção pode e deve ser feita por todas as vias possíveis, mas no caso de projetos sociais o contato pessoal é imprescindível. Nenhuma empresa quer investir em um projeto social com o qual não tenha identidade e não possa enxergar um benefício concreto para a comunidade ou entidade envolvida. Um projeto social tem que, mais do que qualquer outro, encantar a empresa. E entendo que o melhor caminho seja mesmo bater de porta em porta e acionar sua rede de contatos.

5-Quando surgiu a ideia da criação do site, você ficou em dúvida quanto a real utilidade do projeto? Você fez pesquisas (amigos/familiares) para descobrir um pouco do que eles pensavam do site ou não?

Autora: Sara Cristine Santos

Romero Rodrigues: Em várias ocasiões tivemos dúvidas sobre a viabilidade do projeto e muitas vezes ouvimos de parentes e amigos que éramos “loucos”. Mas como não tínhamos nada a perder, éramos quatro estudantes universitários obcecados em empreender, fomos em frente.

Apesar de enfrentarmos muitos obstáculos difíceis, decidimos que não iríamos desistir e para sobreviver buscamos modelos de negócios alternativos ao modelo original de comparação de preços. Continuamos acreditando em um site que desse maior poder ao consumidor por meio da comparação de preços, mas sempre buscamos alternativas para gerar caixa até que o projeto inicial tivesse sucesso.

Não chegamos onde estamos da noite para o dia, mas sempre procuramos enfrentar um dia e um desafio de cada vez. Nunca deixamos de acreditar e com certeza não ter jogado a toalha valeu a pena.

6- Romero, sabemos que a concepção do projeto (Buscapé) se deu por uma necessidade. Sendo assim, logo você e seus sócios já haviam montado uma solução em larga escala. Quero saber como vocês enfrentaram o início deste projeto? Como foram as dificuldades? E você queria resolver o problema do seu amigo ou já pensavam em alcançar uma multidão maior?

Autor: Allyson Luan Pereira

Romero Rodrigues: Começamos o negócio porque o Rodrigo Borges, meu sócio, tentou encontrar informações sobre produtos e preços de impressoras na Internet e percebeu que não havia nenhum serviço disponível com este modelo de negócios.

Quando concebemos o projeto imaginamos que ele só seria viável em larga escala. Só atrairíamos audiência para o site se tivéssemos muitas lojas e produtos disponíveis para pesquisa. E somente atrairíamos anunciantes se conquistássemos uma grande audiência.

O início, como de qualquer empresa, foi doloroso, mas hoje é extremamente recompensador lembrar dos desafios que enfrentamos e os acertos e erros que tivemos ao longo da trajetória para chegar ao grupo que somos.

7- Li que você começou com um investimento de R$ 100 e o transformou em alguns milhões de reais. Em relação a época que fundou o Buscapé, você acha que hoje o investimento teria que ser maior? Menor? Se fosse maior, onde teria que investir mais (Publicidade, Hardware, Software, etc)? E se fosse menor? O número de startups no Brasil vem crescendo, você acha que no meio de tantas, o investimento em publicidade deve ser maior do que era  antigamente?

Autor: Victor Domingos Santiago

Romero Rodrigues: Certamente o cenário hoje é bastante diferente do final dos anos 90, quando começamos o Buscapé. A audiência da internet era muito menor e não havia concorrência no segmento de comparação de preços. O número de varejistas que já tinha uma operação online também era muito pequeno. O capital não era tão seletivo como hoje e na época de ouro da internet havia muitos investidores dispostos a apostar no que chamávamos de nova economia.

Certamente os parâmetros para investir em uma startup de internet atualmente são bem diferentes e mais criteriosos do que na época, mas isso não quer dizer que não exista capital disponível para boas ideias. Não há dúvidas de que hoje é preciso ter mais recursos para conquistar uma audiência dispersa em milhões de sites. A estratégia de marketing online também mudou muito por conta do crescimento da internet e da audiência. Hoje é importante conhecer sua audiência, saber onde ela está, entender seu comportamento e como seduzi-la.

É importante estar nas redes sociais, na blogosfera, em qualquer lugar onde possa estabelecer um contato e engajar seu consumidor. Não é preciso somente investir mais em publicidade, mas saber como criar campanhas que engajem os consumidores, o que é um grande desafio por conta do grande número de sites e atividades disponíveis na internet.

8- Quando você vendeu o Buscapé sabia que era o momento certo para efetuar a venda ou o valor oferecido foi determinante para sua decisão? Resumindo...você vendeu o Buscapé ou ele foi comprado?

Autor: Fernando Ribeiro

Romero Rodrigues: Eu diria que nem vendi e nem fui comprado. A sinergia com a Naspers e com os outros investidores antes da Naspers sempre foi muito grande e sempre seguiu uma premissa da qual nunca abrimos mão: não queríamos sair do negócio.

Dos quatro fundadores, três permanecem ativamente na operação do Buscapé. O capital foi importante para levar o Buscapé para o patamar em que estamos e ainda há muito por fazer. Seguiremos crescendo no Brasil e em novos mercados e continuaremos buscando novas oportunidades de negócios que atuem na cadeia do comércio eletrônico. Mais do que o valor negociado, o importante sempre foi crescer com o apoio de investidores que percebessem nossa paixão pelo negócio e não a paixão pelo capital.

9- Atualmente resido em Jundiaí (SP) e tenho 23 anos. Conclui a faculdade em 2011, em engenharia de produção pela Universidade Federal de São Carlos. Durante o 4º e 5º anos da faculdade fui estagiário em uma empresa multinacional de bens de consumo (Unilever) e no início desse ano ingressei como trainee em uma empresa de concessões publicas (CCR).

Essas duas posições são bem cobiçadas pelos jovens que buscam iniciar sua carreira de trabalho, no entanto, sempre tive o desejo de trabalhar em um negócio próprio onde a autonomia é muito maior. Meus avós e pais sempre trabalharam em seus próprios negócios, em pequenas empresas do ramo de construção.

Acredito que a minha vocação seja empreender, no entanto, gostaria de saber qual é o momento certo para deixar o mercado de trabalho e iniciar um negócio próprio ou então trabalhar na empresa dos meus familiares? A experiência como gestor em uma grande empresa é indispensável para o empreendedor?

Autor: Luis Henrique Moreira Cesar

Romero Rodrigues: É difícil te dizer qual é a hora de fazer esta transição e se tornar um empreendedor. Esta é uma decisão muito pessoal. Mas eu diria que tempo é um ativo muito importante na sua carreira se pretende ser empreendedor. Antes de mais nada é preciso ter paixão pelo negócio que vai empreender e estar pronto para assumir os riscos de tocar seu próprio negócio.

Evidentemente que toda experiência é importante, mas eu estaria indo contra minha própria história se te dissesse que é indispensável ser gestor de uma grande empresa antes de empreender. Começamos o Buscapé quando ainda estávamos na faculdade e nunca trabalhei antes como executivo. Penso que o primordial é que tenha claro quais podem ser os benefícios e as desvantagens de ser um empreendedor. Mas tenha claro que quanto maior for sua paixão pelo negócio mais fácil será vencer os obstáculos que certamente irão surgir.

10-Romero, qual a importância do RH para uma pequena empresa de internet crescer? É preciso achar as pessoas corretas primeiro e depois seguir o plano, ou definir o objetivo e então contratar as pessoas corretas?

Autor: Fabrício Macias

Romero Rodrigues: Acredito que ambos caminham juntos. Hoje ter, velocidade é fundamental em qualquer negócio. O “time to market” se tornou vital, principalmente, eu diria, em um negócio na internet. Encontrar talentos é, sem dúvida, um dos maiores (senão o maior) desafios de um negócio em qualquer segmento e na internet não é diferente.

Ao contrário. Por tratar-se de uma indústria que tem apenas 15 anos é extremamente difícil encontrar talentos. O caminho tem sido encontrar profissionais com grande potencial e treiná-los. E, por isso, não há tempo a perder. Contrate, coloque o plano em prática e treine sua equipe, se for o caso, na implementação. Pilotar uma empresa na internet é como fazer a manutenção de um avião em pleno voo.

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