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A imprecisa busca pelo próximo Vale do Silício

Cidades dos Estados Unidos lutam para atrair a preferência de "nerds" fundadores de startups de sucesso

Josh Barro, The New York Times,

06 de março de 2015 | 07h26

“Os nerds amam Orlando”, diz o material de relações pública recebido esta semana da cidade de Orlando, na Flórida. Mas à medida que Orlando procura renovar sua imagem e se tornar “centro de alta tecnologia destinado à inovação”, a concorrência que vem enfrentando é grande.

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Em 2010 Chicago asseverou sua intenção de se tornar “o principal destino das empresas de tecnologia”. Em dezembro o Citibank uniu-se ao The Huffington Post para declarar que “você poderá estar vivendo no próximo Vale do Silício” se estiver em Chicago, em Miami, Cincinnati ou Chattanooga. O Slate rastreou “os próximos Vales do Silício” em 2013, traçando o perfil de duas dezenas de cidades descritas como tal, incluindo Las Vegas, que recebeu a distinção do próprio website.

Por seu lado, Orlando alardeia ter sido indicado “promissor centro de tecnologia a ser observado” em 2014 pela Techie.com. Se você nunca ouviu falar da Techie.com, não se preocupe; o website de tecnologia com sede em South Bend, Indiana, fechou há alguns meses, mas não antes de conceder a distinção para Orlando, junto com Minneapolis, Detroit, Champaign-Urbana, Illinois e Sioux Falls, em Dakota do Sul.

Mas dados mais concretos não confirmam a proposição de que os nerds amam Orlando. Eles não amam Las Vegas e mostram pouco entusiasmo por Chicago. Pesquisa realizada pela Brookings Institution, baseada em dados do Escritório de Estatísticas do Trabalho, dão conta de uma história mais convencional: os nerds amam o Vale do Silício. Entre as 100 maiores áreas metropolitanas dos Estados Unidos, San Jose, na Califórnia, está em primeiro lugar no ranking de empregos na “indústria de tecnologia avançada. Orlando ocupa o 73° lugar e o 78º no tocante ao crescimento do emprego neste setor de 2010 a 2013.

A discrepância entre San Jose e a área número dois é grande. Seattle, grande centro do setor de tecnologia com Microsoft, Amazon, Zillow e outras, tem 16% da sua mão de obra empregada na área de tecnologia avançada, em comparação com 30% em San Jose.

O Progressive Policy Institute (PPI) divulgou seu próprio “índice de empregos em tecno/informática” que usa uma definição mais delimitada do setor, mas produz resultados amplamente similares: os três maiores condados com ganho mais vigoroso em termos de empregos no setor de tecnologia, entre 2009 e 2013, foram San Francisco, Santa Clara e San Mateo - os três localizados na região onde se concentram as indústrias de tecnologia no norte da Califórnia.

Orange County, Florida, com Orlando, ficou em 89º lugar no ranking de 214 empresas classificadas (o índice compara o número de empregos acrescentados à mão de obra total, de modo que não faz distinção para favorecer lugares com grandes populações).

Mas examinemos quem ficou em quarto lugar na lista do PPI: o condado de Utah, cuja maior cidade é Provo. Em fevereiro a The New Yorker proclamou Utah como “o próximo Vale do Silício”. O que é um exagero, mas Provo (população: 116.288 habitantes) tem um impacto muito maior do que o seu peso: das 73 empresas privadas fundadas com capital de risco no mundo e com valorizações superiores a US$ 2 bilhões, de acordo com o The Wall Street Journal, Provo abriga duas. E uma nova e grande instalação da Agência de Segurança Nacional (NSA) vem se adicionar à concentração de empregos e trabalhadores de tecnologia.

Provo é um exemplo de um dos dois modelos que estão competindo com o Vale do Silício.

“Há um grupo de pessoas que realmente deseja viver ali e existe uma universidade de pesquisa muito boa”, diz Richard Florida, estudioso de urbanismo.

Ele referiu-se à Brigham Young University e a oportunidade de viver em meio a uma grande comunidade mórmon. Mas quase a mesma fórmula explica o sucesso de Boulder, no Colorado, que sedia a Universidade de Colorado, onde existe a possibilidade de praticar excelentes esportes de montanha e há uma concentração exorbitante de empregos na área tecnológica e recursos de financiamento.

Outro modelo para concorrer com o Vale do Silício tem a ver com a colaboração entre os vários setores. Michael Mandel, principal estrategista econômico na PPI, observa que o forte crescimento do setor de tecnologia de Nova York ajudou a aliviar o impacto da crise financeira. Dados mostram que em Nova York foram criados 28.000 novos empregos nessa área, quase o mesmo número registrado pelo condado de Santa Clara.

“O que ocorreu foi uma convergência entre centros de conteúdo e centros de tecnologia que criou muitos empregos”, disse Mandel.

Ou seja, Nova York não é concorrente do Vale do Silício, mas vem observando um amplo crescimento em áreas da indústria de tecnologia que se beneficiam da sua exposição a outros setores com forte concentração em Nova York, especialmente o de mídia, mas também da moda e finanças.

O que Nova York e Provo têm em comum é o fato de ambas fornecerem não só os recursos necessários para criar uma empresa de alta tecnologia, mas também o ímpeto para mantê-las ali quando têm sucesso. No caso de Provo (ou Boulder) as empresas permanecem no local porque os proprietários e os empregados querem viver ali. (Algo no qual o Vale do Silício sempre se empenhou). No exemplo de Nova York, eles permanecem no local porque a localização oferece vantagens comerciais insubstituíveis.

Florida mencionou Pittsburgh como exemplo de cautela. Ele foi professor no Carnegie Mellon, excelente universidade de pesquisa em que muitas pessoas que ali se formaram têm capacidade para abrir e criar ótimas companhias de tecnologia. Mas as empresas não têm uma razão, econômica ou relacionada a um estilo de vida, para permanecerem em Pittsburgh quando têm sucesso.

“Se for bem sucedida ela acabará sendo absorvida para o Vale do Silício”, disse ele.

Então, que lições extrair para lugares como Orlando, se pretendem mudar sua economia e seguirem na direção da alta tecnologia?

“Acho que Orlando combina a atividade espacial e a Disney”, disse Florida. “O fato de estarem juntos tem grande importâncias, mas é difícil de que maneira reuni-los”.

Autoridades locais sugerem uma. Orlando é centro de tecnologia para simuladores e modelagem, porque os simuladores de voo e passeios por parques temáticos dependem muito da mesma tecnologia. O turismo no geral não é considerado uma área de tecnologia intensiva, mas a Disney recentemente desenvolveu seu sistema MyMagic Plus (pulseiras à prova d´ água com chips RFID que dão aos visitantes acesso aos passeios e servem para abrir a porta do quarto de hotel) em Orlando.

Mas o turismo está bastante disperso geograficamente e embora seja muito rentável em Orlando, mesmo a Disney não tem sua sede ali. As empresas que produzem tecnologia para a indústria hoteleira ão precisam se concentrar em Orlando.

“Eu diria, no geral, que este é um pano de fundo relativamente tênue”, disse Mark Muro, pesquisador que trabalhou no estudo da Brookings depois de analisar seus próprios dados sobre a concentração do setor em Orlando, que mostram poucas especialidades na área tecnológica.

“Mas vale observar que é possível diversificar, começar do zero”, acrescentou.

É possível também estabelecer metas mais modestas. Em 2013 a jornalista Claire Cain Miller, do The New York Times, recebeu um folheto de propaganda mais modesto que o usual sobre o impulso tecnológico de uma cidade: “Embora Chicago jamais representará um real desafio para o Vale do Silício, as startups digitais não precisam mais deixar Chicago para sobreviver”. (Tradução de Terezinha Martino)

 

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