Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

A história de uma cervejaria artesanal de sucesso: vale até vestir-se de urso pela empresa

Marcelo Carneiro apostou na cerveja artesanal quando a bebida era pouco conhecida e até rejeitada pelos consumidores

Marcelo Osakabe - O Estado de S. Paulo,

25 de setembro de 2014 | 07h04

 Marcelo Carneiro já fez até figuração. E reclamar disso nem passou pela cabeça do empresário. O fato inusitado ocorreu durante um festival que reuniu, recentemente, produtores e amantes da cerveja do tipo India Pale Ale em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. O empreendedor usava uma fantasia de urso, animal símbolo da Colorado, a cervejaria idealizada por ele e que hoje é uma das principais do País.

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 “Fiquei impressionado em ver expositores do Pará, visitantes chegando de Tocantins, era muita gente para uma cerveja que não é para iniciantes”, contou, animado, Carneiro. 

O empreendedor é formado em direito, foi dono de uma editora e trabalhou na empresa farmacêutica da família antes de abrir um brew pub – bar que fabrica a própria cerveja – com o amigo Cesario Mello Franco, o criador da Xingu. Em 1995, esse negócio era raro no Brasil, mas já estava fervilhando nos Estados Unidos, mercado que serviu de inspiração para a dupla. 

“Entrei no segmento de cervejas artesanais porque achei que ia ficar rico rápido”, rememora, sorrindo, Carneiro. O sucesso não veio rápido, mas ele apaixonou-se pela atividade. E foi somente assim que o empresário conseguiu sobreviver. A febre pelas cervejas especiais só chegou recentemente, apesar do óbvio apreço do brasileiro pela bebida. Hoje, o País é o terceiro maior mercado do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China.

As bebidas artesanais, porém, representam menos de 1% do total consumido por aqui. A experiência de Carneiro no segmento foi tema do Encontro PME deste mês. Confira os principais pontos a seguir.

 Começo. O empresário afirma que o sucesso atual do negócio deve-se a duas decisões mantidas desde o início da Colorado: apostar na criação de uma escola brasileira de cerveja e ter perseverança. “Abri o pub com 8 sabores. O povo do interior (Ribeirão Preto) não conhecia nenhum e achou tudo horrível”, lembra Carneiro. “Sinceramente, não sei o que me fez seguir em frente. Foi uma coisa bem quixotesca”, afirma o empreendedor. 

A primeira confirmação de que tinha tomado o caminho certo veio em 1997, quando o renomado crítico britânico de cerveja Michael Jackson apareceu de surpresa no salão da Colorado. “Ele visitou a Colorado e outra cervejaria. Na época, eu estava bastante pessimista. Outras cervejarias também passavam momentos difíceis e começavam a se associar com grandes marcas. Mas ele bebeu a minha cerveja e disse que eu estava fazendo tudo certo, que não devia me render às grandes. Isso me influenciou muito.”

 Mercado. O empresário afirma que hoje o segmento é mais diverso e, portanto, menos difícil para quem quer começar. Entretanto, a febre trouxe muita gente deslumbrada. “As pessoas precisam entender que esse não é um negócio que dá certo da noite para o dia. A Colorado está aí porque ‘cortou um prego’ durante muito tempo”, afirma. 

 Carneiro acredita que, dada a conjuntura política e econômica do Brasil, 2015 não será um ano fácil. “Mas o País deve passar os Estados Unidos em volume de cerveja consumida. Não é falta de mercado. Precisamos nos preparar.”

Escola. A criação de uma ‘escola brasileira’, com lúpulo 100% nacional e de qualidade, é também uma das causas da cervejaria ainda existir. “Dá gosto de ver uma juventude tão preparada trabalhando comigo, que aposta na empresa mesmo que não possamos oferecer o melhor salário. Gente como a Fernanda Ueno, que começou como estagiária, foi fazer estágio na Nestlé francesa e voltou querendo trabalhar comigo. Hoje, ela é nossa mestre cervejeira”, afirma. “Trabalhamos por um conjunto de ideias, e a maior delas é a criação de uma escola de cerveja brasileira.” 

Dica. Para quem quiser se aventurar pelo mundo das cervejas artesanais, uma boa forma de começar é fazendo a bebida em casa. Nos Estados Unidos, ele explica, esse tipo de microempresário deu força à onda artesanal.

“Eles se tornaram algo como embaixadores. Esse cara pode ser o mecânico do senador que vai votar o imposto, o mecânico do juiz que vai votar o caso de alguma grande cervejaria contra você”, afirma. “Lá, eles formaram uma massa crítica que ajudou a popularização do negócio. Estamos conseguindo fazer o mesmo aqui.”


PRESTE ATENÇÃO:

Criador da Colorado faz uma análise exclusiva sobre o momento da cerveja artesanal no País; confira!

Brasil Assim como os vinhos, que têm o terroir, cada cerveja da marca Colorado tem um toque típico regional. Marcelo usa, por exemplo, mandioca, rapadura e café nas bebidas.

Cooperação. Quando 99% da cerveja consumida é de milho, as artesanais precisam se ajudar. Marcelo vende outras marcas no seu bar e pede apenas o mesmo da concorrência.

Terceirizar. Alguns torcem o nariz, mas é uma maneira de sobreviver. Marcelo aluga outras duas fábricas para produzir a Colorado e terceirizaria a sua se tivesse ociosidade.

Informal. A cerveja é um luxo barato, não exige pompa ou circunstância para ser bebida. O mercado de cerveja de R$ 12 a R$ 13 está fervilhando e atrai muita gente da classe C.

Importadas. O mercado tem grande oferta, mas problemas com burocracia e liberação de contêineres devem dificultar e acabar retirando algumas marcas menores do segmento no País.

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