Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

A geração dona do próprio nariz descobre o empreendedorismo como opção de carreira

O desejo empreendedor atinge em cheio os jovens e muitos deles nem sabem o que é ter um emprego tradicional

Renato Jakitas e Gisele Tamamar, Estadão PME,

26 de junho de 2013 | 06h40

Quando o assunto é abrir, fechar e comercializar empresas, o advogado Paulo César Garcia Júnior, de 26 anos, esbanja um currículo digno dos veteranos. Aos 14 anos ele montou seu primeiro negócio, o site de buscas Aonde, com a ousada proposta de concorrer com o Google. Depois, foi sócio do Hotel Urbano, e-commerce que faturou R$ 280 milhões em 2012 – o rapaz vendeu sua participação um ano antes para lançar o Hotelli Corporate, que hoje ele mantém em paralelo a outros dois empreendimentos.

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A startup é uma operadora de viagens corporativas online, especializada em demandas de última hora. Fundada há cerca de um ano, ela já fatura R$ 800 mil por mês e acaba de fechar contrato milionário com a agência de viagens Allatur, uma das principais em atividade no Brasil.

“Meu modelo de fazer negócios é aberto, não começo com pré-concepções. Para lançar o Hotelli, fui até os Estados Unidos, conversei com fundadores de startups da área para entender as premissas desses negócios e os porquês deles fazerem sucesso. Agora, tento trazer isso para o Brasil, elevando a ideia a um nível muito superior ao que já existe”, conta Garcia, que orgulha-se de até hoje nunca ter trabalhado para outra pessoa a não ser ele próprio.

“Ser empregado não me encanta. Fiz um estágio em direito para sentir como é e não gostei. Profissionalmente pode ser legal, o dinheiro pode ser maior, mas meu interesse está em criar coisas novas. E como funcionário de uma empresa, tem uma limitação absurda para conseguir fazer isso”, afirma.

O discurso de PC Garcia, como ele gosta de ser chamado, pode causar estranheza para alguns. No entanto, suas opiniões encontram eco em uma nova geração de profissionais, uma turma na casa dos 20 anos, formada em universidades de ponta do País (ou fora dele) e que observa no empreendedorismo uma opção mais dinâmica e recompensadora para iniciar a carreira.

Uma boa sinalização desse fenômeno pode ser encontrada na última edição do Global Entrepreneurship Monitor (GEM). Trata-se de um estudo que analisa a atividade empreendedora em 69 países e que no Brasil é conduzido pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP) em parceria com o Sebrae.

Com base em entrevistas realizadas em 2012, o levantamento aponta como fato novo justamente o avanço do empreendedorismo entre jovens profissionais, que representam a faixa dominante de empresários no País. De cada 100 brasileiros entre 25 a 34 anos, 19 afirmaram ter um negócio próprio. O dado mostra avanço de quase 50% em quatro anos, quando a proporção de empresários nessa faixa etária era de 13 em cada 100.

“Esse interesse do jovem pelo empreendedorismo é um movimento novo no Brasil. A gente percebe isso principalmente nos últimos quatro, cinco anos, quando passamos a ter dificuldades, inclusive, para encontrar candidatos nos processos de trainees das grandes empresas”, conta Juliana Zuccarello, sócia da empresa de recursos humanos Havik People Results. “Percebemos que eles não querem trabalhar para ninguém. Antes de terminarem a faculdade já estão envolvidos com projetos de negócio próprio”, destaca a especialista.

Que o diga o empresário Felipe Baeta, também de 26 anos. Ele é crítico, de maneira geral, ao ambiente de trabalho das grandes organizações. “A minha geração está atrás de um propósito. Não é uma geração disposta a fazer por fazer. E hoje as grandes empresas ainda estão carentes de entregar essa causa”, avalia.

O empreendedorismo sempre esteve presente na sua família, inclusive, Baeta viu seu pai iniciar uma corretora de seguros no escritório de casa. Quando ele estava no último ano da faculdade, entrou como sócio na empresa da família. “Foi uma experiência bacana, mas eu sabia que cedo ou tarde iria largar para protagonizar alguma coisa.” Na busca do mercado ideal, Baeta chegou a atuar como gestor de serviços a empreendedores na Endeavor, até enxergar uma oportunidade no setor de bebidas.

Agora, ele se prepara para lançar a marca de água vitaminada Ofélia, com comercialização prevista para agosto. Para o negócio, o empresário contou com a ajuda de R$ 1 milhão de dois investidores. Uma nova rodada de aportes está prevista para daqui a seis meses. “A Ofélia é a água que cansou de ser água. A ovelha negra das águas”, afirma Baeta.

Classe média. Segundo recente pesquisa do instituto Data Popular, o Brasil tem hoje 1,5 milhão de empreendedores entre 16 e 24 anos de idade. Desse total, 52,6% integram a classe média, 37,3% podem ser classificados de baixa renda e 10,1% têm renda considerada alta.

Outros 22 milhões de jovens brasileiros entre 16 e 24 anos desejam abrir seu próprio negócio no País em algum momento da vida, sendo que desse total 58,5% são mulheres e 41,5% homens.

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A ideia

Divida para somar. Compartilhar a ideia com outras pessoas que possam agregar, ao contrário do que muitos achavam no passado, é importante para desenvolver um novo negócio. Não tenha medo de pedir opiniões.

O início

Largar bem é importante, mas o desafio será ainda maior após o começo da operação. A dica é identificar aquilo que mais está dando certo e, sem medo de errar, investir ainda mais nesse ponto-chave da empresa.

A impressão

Muitos empreendedores, de tão motivados, pensam que o seu negócio já deu certo quando começam a prosperar. Um erro clássico. Quando a empresa começa a decolar, é fundamental redobrar esforços para avançar.

Os funcionários

Na hora da contratação, lembre-se do que o levou a não querer trabalhar em uma empresa tradicional. O jovem talento valoriza um sistema de mérito por produtividade. A motivação é muito importante.

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